Penicilina benzatina (benzilpenicilina benzatina)

Nomes comerciais:

  • Benzetacil® (Eurofarma Laboratórios S.A.) [1]
  • Bepeben® (Laboratório Teuto Brasileiro S/A) [3]

Apresentações:

  • Benzetacil®: Suspensão injetável 1.200.000 U (300.000 U/mL), frasco-ampola com 4 mL; disponível em embalagens com 1, 10 ou 50 frascos-ampola [1]
  • Bepeben®: Pó para suspensão injetável + diluente (ampola de água para injetáveis 4 mL); disponível em duas concentrações, em embalagens hospitalares com 50 frascos-ampola: [3]
    • 600.000 UI/frasco-ampola
    • 1.200.000 UI/frasco-ampola

Posologia:

  • Adultos: [1][2]

    • Infecções estreptocócicas (grupo A) do trato respiratório superior e da pele: 1.200.000 UI IM, dose única
    • Sífilis primária, secundária e latente precoce: 2.400.000 UI IM, dose única
    • Sífilis latente tardia (incluindo as de "tempo não definido") e terciária, exceto neurossífilis: 2.400.000 UI IM, com intervalo de 1 semana, por 3 doses consecutivas [1]
      • Nota: o FDA label inclui a neurossífilis nesse mesmo esquema de 3 doses [2]; a bula brasileira, contudo, exclui explicitamente a neurossífilis dessa indicação, para a qual são recomendadas outras abordagens terapêuticas. Essa distinção tem respaldo clínico, uma vez que a benzilpenicilina benzatina não atinge concentrações treponemicidas adequadas no líquor [1]
    • Bouba, bejel (sífilis endêmica) e pinta: 1.200.000 UI IM, dose única
    • Profilaxia da febre reumática e da glomerulonefrite: 1.200.000 UI IM a cada 4 semanas [1][2]
      • Pode-se considerar a administração a cada 3 semanas nos casos com múltiplas recorrências, lesão valvar grave ou recorrência sob o esquema de 4 em 4 semanas [1]
      • O FDA label cita como alternativa 600.000 UI IM a cada 2 semanas [2]
  • Pediátrico: [1][2]

    • Infecções estreptocócicas (grupo A) do trato respiratório superior e da pele:
      • Crianças até 27 kg (< 60 lb): 300.000 a 600.000 UI IM, dose única
      • Crianças acima de 27 kg ("crianças maiores"): 900.000 UI IM, dose única (valor consistente entre a bula brasileira [1] e o FDA label [2])
    • Sífilis congênita (pacientes assintomáticos):
      • Menores de 2 anos: 50.000 UI/kg IM, dose única [1][2]
      • Entre 2 e 12 anos: ajustar conforme o esquema do adulto, segundo as bulas consultadas [1][2]. Cabe ressaltar que diretrizes clínicas específicas para sífilis congênita além do período neonatal (como o PCDT brasileiro para IST e as diretrizes CDC) podem recomendar regimes distintos para essa faixa etária; recomenda-se consultar as diretrizes vigentes para essa população
    • Profilaxia: mesmas doses do adulto, conforme a indicação
  • Administração:

    • Via exclusiva: intramuscular profunda; nunca endovenosa (risco de parada cardiorrespiratória e morte), nem intra-arterial, nem próximo a troncos nervosos ou vasos sanguíneos de grande calibre [1][2]
    • Sítios preferenciais: quadrante superior lateral da nádega (regiões dorsogluteal ou ventrogluteal) [1][2]
    • Em lactentes e crianças pequenas: a face lateral da coxa é a alternativa preferida [1][2]
    • A administração na região anterolateral da coxa não é recomendada, pelo risco de comprometimento vascular e fibrose/atrofia do quadríceps femoral com injeções repetidas [1][2]
    • Antes de injetar, aspirar o êmbolo para confirmar que a agulha não está em vaso sanguíneo; caso haja retorno de sangue ou alteração na coloração do produto, retirar a agulha e reinserir em outro local [1]
    • A injeção deve ser feita de forma lenta e contínua; a alta concentração da suspensão pode obstruir a agulha caso a administração não seja lenta [1][2]
    • Para o Benzetacil® frasco-ampola: agitar vigorosamente antes de retirar a dose, para homogeneização completa; a tampa butílica deve ser perfurada a 45° com o bisel voltado para cima, sendo reposicionada a 90° ao longo da perfuração [1]
    • Em doses repetidas, variar o sítio de injeção [1][2]
    • Inspecionar visualmente o produto quanto a partículas e descoloração antes de administrar [2]
    • Interromper a administração se o paciente referir dor intensa no local ou se surgirem sinais e sintomas de comprometimento vascular ou neurológico [1]
    • Dose esquecida: as fontes consultadas não dispõem de orientações específicas sobre essa situação; considerando a natureza das indicações (tratamento de infecção aguda ou profilaxia com intervalo fixo), recomenda-se contato com o profissional responsável caso a dose programada não tenha sido administrada no prazo previsto

Ajuste para Insuficiência Renal:

  • Adulto: [1]
    • A excreção da benzilpenicilina é retardada em pacientes com comprometimento renal; ajuste posológico conforme a depuração de creatinina (ClCr):
      • ClCr entre 10 e 50 mL/min: administrar 75% da dose usual
      • ClCr menor que 10 mL/min: administrar 20 a 50% da dose usual
    • Pacientes com epilepsia apresentam risco aumentado de convulsões com o uso de penicilina, risco que se intensifica na presença de insuficiência renal [1]
    • Em idosos, a função renal reduzida é frequente; recomenda-se iniciar com doses menores do intervalo terapêutico e, se necessário, monitorar a função renal [2]
  • Pediátrico:
    • Em recém-nascidos e crianças pequenas, a excreção é retardada consideravelmente [1][2]. As fontes consultadas não dispõem de orientações específicas de ajuste posológico por faixa de ClCr para a população pediátrica

Ajuste para Insuficiência Hepática:

  • As fontes consultadas não dispõem de orientações específicas sobre ajuste posológico em pacientes com insuficiência hepática, tanto para adultos quanto para pediátrico

Classe:

  • Beta-lactâmico da subclasse das penicilinas naturais de ação prolongada (formulação depot intramuscular)
  • Classificação ATC: J01CE08 (penicilina G benzatina) [5]

Farmacologia:

  • Mecanismo de ação: [1][2]

    • A benzilpenicilina G exerce ação bactericida durante o estágio de multiplicação ativa dos microrganismos sensíveis, por inibição da biossíntese do peptidoglicano (mucopeptídeo) da parede celular, tornando-a osmoticamente instável
  • Resistência: [2]

    • Inativa contra bactérias produtoras de penicilinase (beta-lactamase) e contra microrganismos com alterações nas proteínas ligadoras de penicilina (PBPs)
    • Resistência à penicilina G não foi documentada em Streptococcus pyogenes
  • Farmacocinética: [1][2]

    • A benzilpenicilina benzatina possui solubilidade extremamente baixa, resultando em liberação lenta a partir do sítio de injeção e absorção prolongada; o fármaco é hidrolisado in vivo à penicilina G, que é a forma ativa
    • O resultado prático é que os níveis séricos são muito menores, porém muito mais prolongados do que os de outras penicilinas parenterais
    • Níveis séricos esperados conforme a dose (expressos em UI/mL, conforme o FDA label [2]; a bula brasileira utiliza µg/mL para o limiar terapêutico [1], sendo as unidades distintas entre as fontes):
      • 300.000 UI IM: 0,03 a 0,05 UI/mL, mantidos por 4 a 5 dias [2]
      • 600.000 UI IM: níveis similares por até 10 dias [2]
      • 1.200.000 UI IM: concentrações de 0,003 UI/mL ainda detectáveis após 4 semanas [2]; a bula brasileira considera que níveis séricos ≥ 0,02 µg/mL de penicilina se mantêm em número significativo de pacientes por até 28 dias após essa dose, sendo esse limiar considerado adequado para proteção contra estreptococos β-hemolíticos na profilaxia da febre reumática [1]
    • Meia-vida: aproximadamente 336 horas (~14 dias) após dose IM de 1.200.000 UI em pacientes com função renal normal [1]
    • Ligação a proteínas plasmáticas: aproximadamente 50% segundo a bula brasileira [1]; o FDA label cita aproximadamente 60% [2]
    • Distribuição ampla pelos tecidos; maiores concentrações nos rins, com menor intensidade no fígado, pele e intestinos; penetração no líquor (LCR) em menor grau [1][2]
    • Excreção: predominantemente renal, por secreção tubular; retardada em neonatos, crianças pequenas e pacientes com insuficiência renal [1][2]
    • Atenção prática: indivíduos obesos podem atingir níveis séricos inferiores ao limiar de 0,02 µg/mL, potencialmente insuficientes para a proteção contra estreptococos β-hemolíticos na profilaxia da febre reumática [1]

Tipo de Receita:

  • Receituário de controle de antimicrobianos, em duas vias, com retenção da 2ª via pelo estabelecimento farmacêutico, nos termos da RDC ANVISA n° 20/2011 [4]. Não há modelo de receita específico; é válida por 10 dias a contar da data de emissão em todo o território nacional [4]

Indicações:

  • Infecções estreptocócicas (grupo A, sem bacteremia): infecções leves e moderadas do trato respiratório superior e da pele [1][2]
  • Infecções venéreas: sífilis (primária, secundária, latente e terciária), bouba, bejel (sífilis endêmica) e pinta [1][2]
  • Profilaxia da febre reumática aguda e da glomerulonefrite [1][2]
  • Profilaxia de recorrências da febre reumática e/ou coreia de Sydenham [1][2]

Contraindicações:

  • Hipersensibilidade conhecida a qualquer penicilina [1][2]
  • Pacientes com história de hipersensibilidade a penicilinas podem apresentar reações cruzadas com cefalosporinas; anamnese alérgica detalhada é obrigatória antes do início do tratamento [1][2]
  • Nunca administrar por via endovenosa ou intra-arterial: associado a parada cardiorrespiratória e morte [1][2]

Efeitos Adversos:

  • Comuns (> 1/100 e < 1/10): [1]

    • SNC: cefaleia
    • Trato gastrintestinal: náusea, vômito, diarreia, candidíase oral (monilíase oral)
    • Trato genital: candidíase vaginal e/ou vulvar
  • Incomuns (> 1/1.000 e < 1/100): [1]

    • Dermatológicos: erupções cutâneas, rash, prurido, urticária
    • Sistema urinário/eletrolítico: edema por retenção de fluidos
    • Hipersensibilidade: reações anafiláticas (inclusive choque e óbito), reação semelhante à doença do soro, edema de laringe
      • ⚠️ Nota clínica: a bula brasileira classifica as reações anafiláticas na categoria "incomum" [1]. No entanto, a incidência real estimada de anafilaxia às penicilinas na literatura é de 0,01 a 0,04% dos tratamentos (1 a 4 por 10.000), valor mais consistente com a categoria "raro" pela classificação MedDRA/CIOMS. O prescritor deve estar ciente desse risco, independentemente da classificação constante na bula
    • Cardiovascular: hipotensão
  • Raros (> 1/10.000 e < 1/1.000): [1]

    • Dermatológicos graves: síndrome de Stevens-Johnson (SSJ), necrólise epidérmica tóxica (NET), eritema multiforme
    • SNC: confusão mental, convulsões
    • Vascular: trombose venosa, tromboflebite
    • Gastrintestinal: hepatite medicamentosa, colite pseudomembranosa (associada a Clostridioides difficile, CDAD)
    • Renal/eletrolítico: nefrite intersticial aguda, cristalúria, insuficiência renal aguda, hipocalemia
    • Hematológico: anemia hemolítica, trombocitopenia, leucopenia, agranulocitose, eosinofilia, distúrbios de coagulação
    • Local de injeção: tumoração, lesão, dor
    • Outros: reação de Jarisch-Herxheimer (febre, calafrios, cefaleia e reações nos sítios de lesão, observada no início do tratamento de infecções por espiroquetas) [1]
  • Frequência desconhecida (relatos pós-comercialização): [1][2]

    • Síndrome de Nicolau (embolia cutânea medicamentosa por administração intra-arterial inadvertida): palidez, mottling, cianose da extremidade, formação de vesículas, gangrena; pode evoluir para amputação e mielite transversa com paralisia permanente [1][2]
    • DRESS (reação medicamentosa com eosinofilia e sintomas sistêmicos) [2]
    • Síndrome de Kounis: isquemia miocárdica aguda no contexto de reação alérgica [2]
    • Síndrome de Hoigne: agitação intensa, confusão, alucinações visuais e auditivas, sensação de morte iminente (mais descrita com penicilina G procaína, mas também relatada com benzatina) [2]
    • Eritema e hematoma no local da aplicação [1]

Interações Medicamentosas:

  • Tetraciclinas: o caráter bacteriostático das tetraciclinas pode antagonizar o efeito bactericida das penicilinas; o uso concomitante deve ser evitado [1][2]
  • Probenecida: reduz a excreção tubular renal da penicilina, aumentando e prolongando seus níveis séricos; pode ser utilizada intencionalmente para esse fim [1][2]
  • Metotrexato: penicilinas reduzem a excreção do metotrexato, com risco de toxicidade por acúmulo; monitoramento necessário [1]
  • Micofenolato de mofetila: penicilinas podem reduzir os níveis séricos deste imunossupressor, possivelmente por interferência na circulação êntero-hepática [1]
  • Anticoncepcionais orais: a bula brasileira menciona possível redução da eficácia contraceptiva [1]; contudo, a evidência científica atual não sustenta uma interação clinicamente significativa entre penicilinas e anticoncepcionais hormonais combinados, e essa advertência não é corroborada pela maioria das referências regulatórias e revisões sistemáticas atuais. A informação é mantida por constar na bula, mas não deve ser interpretada com o mesmo grau de evidência das demais interações listadas
  • Interação laboratorial: penicilinas podem interferir na medida de glicosúria pelo método do sulfato de cobre, ocasionando resultados falsamente positivos ou negativos; essa interferência não ocorre com o método da glicose-oxidase [1]

Gestação:

  • Anvisa: [1]

    • Categoria B de risco na gestação
    • As penicilinas atravessam a placenta rapidamente; os efeitos para o feto não são totalmente conhecidos
    • Embora consideradas seguras durante a gestação, deve ser utilizado somente quando necessário, conforme critério médico
  • FDA: [2]

    • Estudos de reprodução em camundongos, ratos e coelhos não demonstraram evidência de comprometimento da fertilidade ou dano ao feto
    • A experiência humana com penicilinas durante a gestação não revelou evidência positiva de efeitos adversos fetais
    • Não existem estudos adequados e bem controlados em gestantes que excluam definitivamente a possibilidade de efeitos nocivos; portanto, o uso durante a gestação deve ser indicado apenas quando claramente necessário

Lactação:

  • Anvisa: [1]

    • A benzilpenicilina é excretada no leite materno; os efeitos para o lactente não são totalmente conhecidos
    • A administração durante o aleitamento somente deve ser realizada conforme critério médico
    • Recomenda-se uso criterioso durante o aleitamento ou na doação de leite humano
  • FDA: [2]

    • A penicilina G solúvel, hidrolisato da benzilpenicilina benzatina, é excretada no leite materno
    • Deve-se ter cautela ao administrar benzilpenicilina benzatina a mulheres em amamentação

Uso por Sonda Nasogástrica/Nasoenteral:

  • A benzilpenicilina benzatina é uma preparação injetável (suspensão pronta ou pó para suspensão), destinada exclusivamente ao uso intramuscular profundo. A administração por qualquer outra via que não a intramuscular é contraindicada; a via endovenosa, em particular, pode ser fatal [1][2]. Por tratar-se de medicamento parenteral sem formulação enteral, a administração por sonda nasogástrica ou nasoenteral não é aplicável a este medicamento

Fontes:

[1] Bula do Profissional de Saúde. Benzetacil® (benzilpenicilina benzatina). Eurofarma Laboratórios S.A. Aprovada em 24/11/2025. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/ 

[2] U.S. Food & Drug Administration (FDA). FDA Label. Bicillin L-A (Penicillin G Benzathine Injectable Suspension). Revised: 7/2024. Available at: https://nctr-crs.fda.gov/fdalabel/ui/search 

[3] Bula do Profissional de Saúde. Bepeben® (benzilpenicilina benzatina). Laboratório Teuto Brasileiro S/A. Data de aprovação não identificada na pesquisa realizada. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/ 

[4] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução RDC n° 20, de 5 de maio de 2011. Dispõe sobre o controle de medicamentos à base de substâncias classificadas como antimicrobianos, de uso sob prescrição médica, isolados ou em associação. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2011/res0020_05_05_2011.html 

[5] InfoSUS – Sistema de Informação de Medicamentos do Estado de Santa Catarina. Benzilpenicilina Benzatina. Disponível em: http://infosus.saude.sc.gov.br/index.php/Benzilpenicilina_Benzatina