Cefaleias e Enxaqueca no PS

CID-10: R51
Outros temas:

Avaliação inicial

Durante a avaliação inicial da cefaleia, é importante identificar e classificar a cefaleia como primária ou secundária:
  • Primária
    • Migrânea (enxaqueca), tensional e em salvas.
  • Secundária
    • Afecções vasculares, tumor, neuralgias, metabólica, infecção e abuso de substância.
    • Os quadros de cefaleia secundária normalmente se apresentam com algum red flag (sinais de alarme). Na presença de algum red flag, a investigação diagnóstica deve ser prosseguida.

Perguntas a se fazer:

  1. Existem características de cefaleia secundária na dor do paciente?
  2. Existem características de cefaleia secundária no exame físico do paciente?
  3. Existem características no paciente que aumentam a chance de cefaleia secundária?
Seja plus e torne seu dia mais
prático e seguro!
Acesse ao conteudo completo

Red flags

O mnemônico SNNOOP10 é um lembrete dos Red Flags (sinais de alarme) para a presença de doenças subjacentes graves que podem causar cefaleia aguda ou subaguda:

  • S- Sintomas sistêmicos, incluindo febre
  • N - Neoplasm history (Histórico de neoplasias)
  • N - Neurologic deficit (Déficit neurológico, incluindo rebaixamento do nível de consciência)
  • O - Onset is sudden (Início súbito ou abrupto)
  • O - Older age (Idade avançada: início após os 50 anos)
  • P - Pattern change (Mudança de padrão ou início recente de nova dor de cabeça)
  • P - Positional headache (Dor de cabeça posicional) 
  • P - Precipitado por espirro, tosse ou exercício 
  • P - Papiledema
  • P - Progressive headache (Cefaléia progressiva e apresentações atípicas)
  • P - Pregnancy (Gravidez ou puerpério)
  • P - Painful eye (Dor ocular com características autonômicas)
  • P - Post-traumatic onset (Início de cefaleia após trauma)
  • P - Pathology of the immune system (Doença ou terapia imunossupressora)
  • P - Painkiller overuse (Uso excessivo de analgésicos, ergotamínicos ou triptanos)

Qualquer um desses achados deve levar a uma investigação mais aprofundada, incluindo exames de imagem como ressonância magnética (RM) ou tomografia computadorizada (TC).

Tensional

Esquema:

  • Analgésico simples + anti-inflamatórios não esteroides (se ausência de contraindicação)
  • Ir para “Manejo da dor no PS

Analgésico simples

  • Dipirona inj. 1g/2ml
    • Aplicar 1 amp (1g) de 6/6h, IV ou IM, se dor (max 4g por dia).
  • Dipirona comp. 500mg ou 1g
    • Tomar 1 a 2 cp de 6/6h, se dor (max 4g por dia).
  • Paracetamol comp. 500mg ou 750mg
    • Tomar 1 cp de 6/6h, se dor (max 4g por dia).

AINEs (parenteral)

  • Cetoprofeno  pó inj. 100mg
    • Aplicar 1 amp + 100 ml de SF0,9%, IV (max 300mg por dia), OU
    • Aplicar 1 amp IM (max 300mg por dia).
  • Diclofenaco 75mg/3ml
    • Aplicar 1 amp (75mg), IM (max 75mg por dia)
  • Cetorolaco 30mg/1ml
    • < 65 anos: Aplicar 1 ampola (30mg) IV bolus lento (max 90mg por dia)
    • > 65 anos: Aplicar 1/2 amp (15mg) IV bolus lento (max 60mg por dia)
  • Tenoxicam 20mg/2ml ou 40mg/2ml
    • Aplicar 1 amp (de 20mg), IV ou IM (max 40mg por dia).
  • Meloxicam 15mg/1,5ml
    • Aplicar 1 amp (15mg), IM (max 15mg por dia).

AINEs (via oral)

  • Ibuprofeno 200mg ou 300mg ou 400mg ou 600mg
    • Tomar 1 cp de 6/6h (max 3,2g por dia)
  • Diclofenaco 50mg
    • Tomar 1 cp de 8/8h (max 150mg por dia)
  • Cetoprofeno 50mg ou 100mg ou 150mg
    • Tomar 1 cp de 12/12h (max 300mg por dia)
  • Naproxeno comp. 250mg ou 500mg
    • Tomar 1 cp de 12/12h (max 1 a 1,5g por dia)
  • Naproxeno comp. revest. 275mg ou 550mg
    • Tomar 1 cp de 12/12 h (max 1 a 1,5g por dia)
  • Etodolaco 300mg ou 400mg ou 500mg
    • Tomar 1 cp (de 300mg) de 8/8h (max 1g por dia)
  • Nimesulida 100mg
    • Tomar 1 cp de 12/12h (max 400mg/dia)

Migrânea ou Enxaqueca

Considerações:

  • A prevalência anual da migrânea é de 15.8%, acometendo cerca de 22% das mulheres e 9% dos homens, com pico de prevalência entre 30 e 50 anos. A migrânea sem aura (75% dos casos) é mais frequente que com aura (25% dos casos). Cerca de 80% dos pacientes têm um familiar direto acometido.
  • A cefaleia é de forte intensidade, latejante/pulsátil, piorando com as atividades do dia a dia. A duração da fase de dor é de 4 a 72 horas.
  • A dor é unilateral em dois terços das crises, geralmente mudando de lado de uma crise para outra.
  • Sintomas associados: náuseas e/ou vômitos, foto e fonofobia.

Cuidados gerais:

  • Evitar uso de opioides (devido efeito rebote e cronificação).
  • Tentar manter o paciente em repouso sob penumbra em ambiente tranquilo e silencioso (leitos de observação).
  • Garantir hidratação adequada:
    • SF0,9% 100 a 500ml, IV em 30min
    • Existem mecanismos relacionados a migrânea que podem promover um estado de desidratação.

Esquema de tratamento:

  • Dor a < 72 horas: analgésico simples + anti-inflamatórios não esteroides (se ausência de contraindicação) + anti-emético
    • Houve melhora: liberar e encaminhar para acompanhamento ambulatorial.
    • Não houve melhora: sumatriptano subcutâneo (se ausência de contraindicações), repetindo a dose, se necessário, em 2 horas.
    • Reavaliar após 1 hora:

 

  • Dor a > 72 horas (estado migranoso): analgésico simples + anti-inflamatórios não esteroides + anti-emético + dexametasona
    • Houve melhora: liberar e encaminhar para acompanhamento ambulatorial.
    • Não houve melhora: associar bloqueador do receptor de dopamina (metoclopramida ou clorpromazina)
    • Reavaliar após 1 hora:

 

Analgésico simples

  • Dipirona inj. 1g/2ml
    • Aplicar 1 amp (1g) de 6/6h, IV ou IM, se dor (max 4g por dia).
  • Dipirona comp. 500mg ou 1g
    • Tomar 1 a 2 cp de 6/6h, se dor (max 4g por dia).
  • Paracetamol comp. 500mg ou 750mg
    • Tomar 1 cp de 6/6h, se dor (max 4g por dia).

 

AINEs (parenteral)

  • Cetoprofeno  pó inj. 100mg
    • Aplicar 1 amp + 100 ml de SF0,9%, IV (max 300mg por dia), OU
    • Aplicar 1 amp IM (max 300mg por dia).
  • Diclofenaco 75mg/3ml
    • Aplicar 1 amp (75mg), IM (max 75mg por dia)
  • Cetorolaco 30mg/1ml
    • < 65 anos: Aplicar 1 ampola (30mg) IV bolus lento (max 90mg por dia)
    • > 65 anos: Aplicar 1/2 amp (15mg) IV bolus lento (max 60mg por dia)
  • Tenoxicam 20mg/2ml ou 40mg/2ml
    • Aplicar 1 amp (de 20mg), IV ou IM (max 40mg por dia).
  • Meloxicam 15mg/1,5ml
    • Aplicar 1 amp (15mg), IM (max 15mg por dia).

 

AINEs (via oral)

  • Ibuprofeno 200mg ou 300mg ou 400mg ou 600mg
    • Tomar 1 cp de 6/6h (max 3,2g por dia)
  • Diclofenaco 50mg
    • Tomar 1 cp de 8/8h (max 150mg por dia)
  • Cetoprofeno 50mg ou 100mg ou 150mg
    • Tomar 1 cp de 12/12h (max 300mg por dia)
  • Naproxeno comp. 250mg ou 500mg
    • Tomar 1 cp de 12/12h (max 1 a 1,5g por dia)
  • Naproxeno comp. revest. 275mg ou 550mg
    • Tomar 1 cp de 12/12 h (max 1 a 1,5g por dia)
  • Etodolaco 300mg ou 400mg ou 500mg
    • Tomar 1 cp (de 300mg) de 8/8h (max 1g por dia)
  • Nimesulida 100mg
    • Tomar 1 cp de 12/12h (max 400mg/dia)

 

Corticoide

  • Indicado nos casos de estado migranoso (dor > 72 horas) ou crises recorrentes, para prevenção da recorrência.
  • Dexametasona inj. 10mg/2,5ml
    • Aplicar 1 amp (10mg), IV bolus lento.

 

Anti-emético

  • Considerações:
    • A metoclopramida é considerada em diversas referências como anti-emético de primeira linha, por ser antagonista do receptor de dopamina, sendo eficaz na redução da dor da enxaqueca (a difenidramina pode ser administrada concomitantemente para prevenir acatisia). 
    • A ondansetrona é associada a uma incidência relativamente alta de cefaleia como efeito adverso, portanto, não é considerada como primeira linha de tratamento pelas diretrizes.
    • Anti-eméticos orais não devem ser considerados como monoterapia no tratamento da enxaqueca aguda.
  • Metoclopramida inj. 10mg/2ml
    • Intravenoso: Aplicar 1 amp (10mg) + 100ml SF0,9% IV lento, até 8/8h se náuseas ou vômitos (max 30mg/dia).
    • Intramuscular: Aplicar 1 amp (10mg) IM, até 8/8h se náuseas ou vômitos (max 30mg/dia).
    • Obs: a difenidramina intravenosa (12,5 a 25 mg) pode ser administrada junto com a metoclopramida para prevenir acatisia e reações distônicas agudas.
  • Bromoprida (Plamet®) inj. 10mg/2ml
    • Intravenoso: Aplicar 1 amp (10mg) + 100ml SF0,9% IV lento, até 8/8h se náuseas ou vômitos (max 30mg/dia)
    • Intramuscular: Aplicar 1 amp (10mg) IM, de até 8/8h se náuseas ou vômitos (max 30 mg/dia).
  • Ondansetrona inj. 4mg/2ml ou 8mg/4ml
    • Intravenoso: Aplicar 1 amp IV 8/8h (se 4mg/2ml) ou 12/12h (se 8mg/4ml) (max 24mg/dia).
    • Intramuscular: Aplicar 1 amp IM, em até 8-12h, se náuseas ou vômitos (max 24mg/dia).
    • Obs: é associada a cefaleia como efeito adverso, portanto não é considerada como primeira linha de tratamento.

 

Triptanos

  • Sumatriptano inj. 6mg/0,5ml
    • Aplicar 1 amp subcutâneo, repetindo a dose, se necessário, em 2 horas.
  • Contraindicação:
    • Doença arterial prévia ou HAS mal controlada ou uso de medicamento com ergotamina em < 6h.

 

Bloqueador dos receptores de dopamina

  • Indicado em casos de estado migranoso refratário a terapia inicial (apenas uma das opções abaixo).
  • Metoclopramida inj. 10mg/2ml
    • Aplicar 1 amp + SF0,9% 100 ml, 8/8h, IV lento (max 30mg/dia).
  • Clorpromazina inj. 25mg/5ml
    • Eventos adversos: hipotensão arterial e sinais/sintomas extrapiramidais (rigidez muscular e inquietude).
    • Não repetir a dose se ocorrer hipotensão ou sinal/sintoma extrapiramidal.
    • Orientar o paciente a não levantar-se bruscamente.
    • Manter paciente monitorizado (risco de aumento intervalo QT).
    • Aplicar 0,1 mg/kg IM.
    • Manter infusão IV de soro fisiológico a 0,9%.
    • Se mantiver a dor após 1 hora, pode-se repetir a dose (máximo até três vezes).
    • Observação:

Em salvas

Considerações:

  • É a cefaleia trigêmino-autonômica mais frequente, acometendo 1 em cada 1.000 indivíduos (85% do sexo masculino). Geralmente se inicia após os 20 anos.
  • A doença evolui em surtos, podendo apresentar de uma a oito crises por dia, sendo frequentemente despertado à noite pela crise. Após episódio de salvas pode haver período de meses ou anos sem crises.
  • Em geral, as crises têm duração de 15 a 180 minutos, e o quadro clínico típico apresenta dor excruciante, unilateral e alterações autonômicas (hiperemia conjuntival e/ou lacrimejamento, congestão ocular e nasal, rinorreia, edema palpebral, rubor facial, miose e/ou ptose ipsilaterais) associados a sensação de inquietude e agitação.

Manejo da crise:

  • Esquema:
    • Oxigênio a 100% OU Sumatriptano (se disponível).
    • Analgésicos simples e opioides são ineficazes e não devem ser utilizados.
  • Administrar Oxigênio a 100% por máscara não reinalante em 10-12 L/min, por 15-20 min.
  • Sumatriptano sol. inj. 6mg/0,5ml
    • Aplicar 1 amp subcutâneo. 
    • Pode ser administrada dose adicional (6 mg) após, pelo menos, 1 hora (max 12 mg/dia).
    • Contraindicação:
      • Cardiopatia isquêmica, HAS ou DAOP não controladas, história de AVE ou AIT.
      • Caso o paciente tenha utilizado algum medicamento vasoconstritor, o sumatriptano deve ser evitado.

Tratamento preventivo:

  • Naratriptano comp. 2,5mg
    • Tomar 1 cp de 12/12h, por 7 dias.
    • Atenção para contraindicações.
  • Prednisona comp.5mg ou 20mg
    • Tomar 3 cp de 20mg (total: 60mg) pela manhã por 6 a 10 dias (após, realizar desmame gradual).
  • Evitar fatores desencadeantes (bebidas alcoólicas e substâncias voláteis).

Referências

  • Academia Brasileira de Neurologia – Departamento Científico de Cefaleia, Sociedade Brasileira de Cefaleia. Protocolo Nacional para Diagnóstico e Manejo das Cefaleias na Unidades de Urgência do Brasil - 2018.
  • Medicina de emergência: abordagem prática / professor titular e coordenador Irineu Tadeu Velasco. - 13. ed., rev., atual. e ampl. - Barueri [SP]: Manole, 2019.
  • Bulas do Profissional da Saúde.

Autoria e Curadoria

As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.