Diarreia / gastroenterite aguda no adulto
Considerações e conceitos
- A diarreia aguda, também conhecida como gastroenterite ou gastroenterocolite aguda (GECA), é caracterizada pela ocorrência de 3 ou mais evacuações amolecidas ou líquidas nas últimas 24 horas e que pode durar até 14 dias.
- Caracterizada pela perda de água e eletrólitos e consequente aumento do volume e da frequência das evacuações e, na diminuição da consistência das fezes, apresenta, em algumas vezes, muco e sangue (disenteria).
- Causas principais:
- Vírus, bactérias, Parasitos e Fungos são os principais causadores de diarreia aguda.
- Classificada como:
- Síndrome da diarreia aguda aquosa: que representa a grande maioria dos casos, com perda de grande volume de fluidos;
- Síndrome da diarreia aguda com sangue / invasiva: conhecida como disenteria, causada principalmente por bactérias do gênero Shigella;
- Diarreia persistente: quando se estende por mais de 14 dias, estando relacionada a maior risco de complicações e letalidade.
Avaliação do estado de hidratação

prático e seguro!
Plano A
Plano A: para prevenir a desidratação no domicílio.
1) Oferecer mais líquido que o habitual para prevenir a desidratação:
Tomar líquidos caseiros (água, chá, suco, água de coco, sopas) ou solução de sais de reidratação oral (SRO) após cada evacuação diarreica e episódio de vômito, em pequenas quantidades e maior frequência.
Não utilizar refrigerantes e, preferencialmente, não adoçar o chá ou o suco.
2) Manter a alimentação habitual para prevenir a desnutrição:
3) Levar o paciente imediatamente ao estabelecimento de saúde se:
Não melhorar em 2 dias.
Apresentar qualquer um dos sinais de alerta abaixo:
Piora da diarreia (ex.: aumento da frequência ou do volume)
Vômitos repetidos
Sangue nas fezes
Diminuição da diurese
Muita sede
Recusa de alimentos
4) Orientar o paciente ou acompanhante para:
Reconhecer os sinais de desidratação e sinais de alerta.
Preparar e administrar a solução de sais de reidratação oral.
Praticar medidas de higiene pessoal e domiciliar (lavagem adequada das mãos, tratamento da água intradomiciliar e higienização dos alimentos).
5) Terapia de reidratação oral:
Soro de reidratação oral (SRO) sachê
Diluir 1 sachê em 1 L de água, e tomar a quantidade que o paciente aceitar.
Soro caseiro
Com a colher-medida: 2 medidas rasas de açúcar + 1 medida de sal + 1 Litro de água mineral, filtrada ou fervida (mas já fria).
Sem a colher-medida: 1 colher grande (tipo sopa), de açúcar + 1 colher pequena (tipo cafezinho) de sal + 1 Litro de água mineral, filtrada ou fervida (mas já fria).
Plano B
Plano B: para tratar a desidratação por via oral no estabelecimento de saúde.
Deve ser realizado no estabelecimento de saúde, e o paciente deve permanecer no estabelecimento até a reidratação completa.
1) Administrar solução de sais de reidratação oral:
Soro de reidratação oral (SRO) sachê
Diluir 1 sachê em 1 L de água.
50 a 100 ml/kg (média de 75 ml/kg), em um período de 4-6 horas, continuamente, até que desapareçam os sinais de desidratação.
A quantidade de solução ingerida dependerá da sede do paciente.
2) Se vômitos persistentes:
Ondansetrona comp. 4mg ou 8mg
Tomar 1 cp via oral, a cada 8-12h (max 24 mg/dia).
Ondansetrona inj. 4mg/2mL ou 8mg/4mL
Aplicar 4 mL IM ou IV bolus lento (max 12 mL ou 24 mg/dia).
3) Durante a reidratação reavaliar o paciente pelo quadro “avaliação do estado de hidratação”:
Se desaparecerem os sinais de desidratação, siga para o Plano A.
Se continuar desidratado, indicar a sonda nasogástrica (gastróclise).
Se o paciente evoluir para desidratação grave, siga para o Plano C.
4) Durante a permanência do paciente ou do acompanhante no serviço de saúde, orientar a:
Reconhecer os sinais de desidratação.
Preparar e administrar o SRO.
Praticar medidas de higiene pessoal e domiciliar (lavar adequadamente as mãos, tratar a água para consumo humano (ingestão) e higienizar os alimentos).
Observação:
Se, após 6 horas de tratamento, não houver melhora da desidratação, encaminhar ao hospital de referência para internação.
Plano C
Plano C: para tratar a desidratação grave por via endovenosa no estabelecimento de saúde/hospital
Os pacientes que estiverem sendo reidratados por via endovenosa devem permanecer no estabelecimento de saúde até que estejam completamente hidratados e conseguindo manter a hidratação por via oral.
1) Fase de expansão:
Soro Fisiológico 0,9% ou Ringer Lactato
Administrar 30 mL/kg em 30 min, e após 70mL/kg nas próximas 2 horas e 30 min.
Para pacientes cardiopatas ou nefropatas, considerar volumes menores.
Reavaliar ausculta pulmonar, PA e FC constantemente.
2) Fase de manutenção:
SG 5% + SF 0,9% (na proporção 4:1)
1.500 ml + 20 ml/kg de peso que exceder 20 kg (máximo 2.000 ml)
Cloreto de potássio (KCl) 10% 13,4 mEq/10ml
Adicionar 2 mL para cada 100 mL da solução
3) Fase de reposição:
SG 5% + SF 0,9% (na proporção 1:1)
Iniciar com 50 ml/kg/dia.
Reavaliar esta quantidade de acordo com as perdas do paciente.
4) Avaliar o paciente continuamente:
- As fases de manutenção e reposição devem durar em torno de 24 horas.
- Se não houver melhora da desidratação, aumentar a velocidade de infusão.
Iniciar a reidratação por via oral com solução de SRO, quando o paciente puder beber, geralmente 2 a 3 horas após o início da reidratação endovenosa, concomitantemente.
Interromper a reidratação por via endovenosa somente quando o paciente puder ingerir a solução de SRO em quantidade suficiente para se manter hidratado.
A quantidade de solução de SRO necessária varia de um paciente para outro, dependendo do volume das evacuações.
Observar o paciente por pelo menos 6 horas.
Reavaliar o estado de hidratação e seguir conforme Plano A, B ou continuar com o C.
Identificar disenteria ou outras patologias
1) Verificar se o paciente tem sangue nas fezes (disenteria) e avaliar seu estado geral:
Se apresentar sangue nas fezes e comprometimento do estado geral, conforme o quadro de avaliação do estado de hidratação do paciente e/ou febre alta persistente, dor abdominal, tenesmo ou comprometimento sistêmico:
Reidratar o paciente conforme os planos A, B ou C.
Iniciar antibioticoterapia (ver tópico abaixo)
Se imunodeprimido: internação hospitalar.
Orientar o paciente ou acompanhante para aumento da ingestão de líquidos e manter a alimentação habitual, caso o tratamento seja realizado no domicílio.
Reavaliar o paciente após 2 dias.
Se persistir a presença de sangue nas fezes após 48 horas do início do tratamento:
- Condição geral boa: seguir planos A, B ou C.
Condição geral comprometida: Internação hospitalar ou iniciar Ceftriaxona.
2) Identificar diarreia persistente/crônica (mais de 14 dias de evolução da doença):
Encaminhar o paciente para a uma unidade hospitalar se:
For menor de 6 meses.
Apresentar sinais de desidratação. Nesse caso, reidrate-o primeiro e, em seguida, encaminhe-o a uma unidade hospitalar.
Observação: quando não houver condições de encaminhar para a unidade hospitalar, orientar o responsável/acompanhante para administrar líquidos e manter a alimentação habitual no domicílio enquanto aguarda referência hospitalar.
Pacientes maiores de 6 meses sem sinais de desidratação:
Encaminhar para consulta médica para investigação e tratamento.
3) Observar se há desnutrição grave:
Desnutrição grave + hidratado: encaminhar para o tratamento no estabelecimento de saúde.
Desnutrição grave + desidratado: iniciar imediatamente a reidratação e em seguida encaminhar o paciente para o tratamento no estabelecimento de saúde. Entregar ao paciente ou responsável envelopes de SRO em quantidade suficiente e recomendar que continue a reidratação até que chegue ao estabelecimento de saúde em que receberá o tratamento.
4) Verificar a temperatura:
Se o paciente estiver com a temperatura de 39 ºC ou mais, além do quadro diarreico, investigar e tratar outras possíveis causas (pneumonia, otite, amigdalite, faringite, infecção urinária).
Antibiótico
Segundo o Ministério da Saúde, devem ser usados somente para casos de:- Diarreia com sangue (disenteria) e comprometimento do estado geral, OU
- Cólera grave.
- Observação: em outras condições, os antibióticos são ineficazes, causam resistência antimicrobiana e, portanto, não devem ser prescritos.
- Sinais de infecção bacteriana: febre, muco, pus ou sangue nas fezes.
- Ausência de melhora após 48h
- Imunodeprimidos
- Uso recente de antibiótico
- Diarreia do viajante em casos moderados a graves
- Dor abdominal intensa
- Idosos > 70 anos
- Desidratação e instabilidade hemodinâmica
Esquema: ciprofloxacino ou ceftriaxona
Ciprofloxacino comp. 500mg
Tomar 1 cp de 12/12h, por 3 a 7 dias.
- Ceftriaxona pó inj. 500mg ou 1g
- Aplicar 1g IM, a cada 12h, por 3 a 5 dias, OU
Aplicar 2g IM, a cada 24h,, por 3 a 5 dias.
Ceftriaxona pó inj. 1g
Aplicar 2 amp (2g) + 40ml SF0,9%, IV em 30 min de 24/24h (não usar Ringer), por 5 a 10 dias.
Se não estiver hospitalizado, administrar a 1ª dose intramuscular (descrito acima) e referenciar ao hospital.
- Metronidazol comp. 250mg ou 400mg
- Tomar 1 cp (400mg) de 8/8h, por 7 dias.
Probióticos
- Enterogermina flaconetes
- Tomar 1 flaconete de 8/8h, por 5 dias (enterogermina plus é 1x/dia), OU
- Floratil ou Repoflor 200mg
- Tomar 1 capsula de 12/12h por 3 dias (longe das refeições).
Sintomáticos
Ir para Manejo da dor.
Ir para Náuseas e vômitos.
Controle da dor:
- Dipirona 500mg ou 1g
- Tomar 1 cp de 6/6h, se dor ou febre (max 4g por dia).
- Paracetamol 500mg ou 750mg
- Tomar 1 cp de 6/6h, se dor ou febre (max 4g por dia).
- Dipirona + Escopolamina 250+10mg
- Tomar 1 cp de 6/6h, se cólica (máx 2 cp de 6/6h).
- Escopolamina 10mg
- Tomar 1 cp de 8/8h, se cólica (máx 40 mg/dia).
- Bromoprida 10mg
- Tomar 1 cp (10 mg) de 8/8h, se náuseas ou vômitos (max 60mg/dia), OU
- Ondansetrona 4mg ou 8mg
- Tomar 1 cp (4 mg) de 8/8h ou 1 cp (8mg) de 12/12h, se náuseas ou vômitos (max 48mg/dia).
Exames
- Considerar a solicitação de exames na presença de sinais de alarme:
- Hemograma
- Bioquímica (Na; K; função renal)
- Exame das fezes
- Exame Parasitológico de Fezes (EPF)
- Pesquisa toxinas
- Cultura
- Lactoferrina
Anti-diarreicos
Quando indicar?
- Diarreia crônica, sem sinais de infecção e sem indicação de antibiótico.
- Diarreias agudas, com sinais de infecção/disenteria ou indicação de antibioticoterapia.
Loperamida 2mg
- Tomar 1 cp (2mg) uma vez ao dia ou até 6/6h (max 8mg/dia).
Racecadotrila 100mg
- Tomar 1 cp de 8/8h, por no máximo 7 dias (max 400mg/dia).
Antiparasitários
Ir para Giardíase.
Ir para Ascaridíase.
Ir para Esquistossomose.
Devem ser usados somente para:
- Amebíase, quando o tratamento de disenteria por Shigella sp fracassar, ou em casos em que se identificam nas fezes trofozoítos de Entamoeba histolytica englobando hemácias.
- Metronidazol comp. 250mg ou 400mg
- Tomar 1 cp (de 400mg) VO, de 8/8h, por 5 a 10 dias, OU
- Metronidazol bolsa inj. 500mg/100 mL
- Aplicar 1 bolsa (500mg) IV, de 8/8h, por 5 a 10 dias.
- Giardíase, quando a diarreia durar 14 dias ou mais, se identificarem cistos ou trofozoítos nas fezes ou no aspirado intestinal.
- Metronidazol comp. 250mg ou 400mg
- Tomar 1 cp (de 400mg) VO, de 8/8h, por 5 a 10 dias, OU
- Metronidazol bolsa inj. 500mg/100 mL
- Aplicar 1 bolsa (500mg) IV, de 8/8h, por 5 a 10 dias.
Cartaz Ministério da Saúde

Referências
Ministério da Saúde. Manejo do paciente com diarreia: avaliação do estado de hidratação do paciente. 2023.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Diarreia Aguda Infecciosa. Nº 74, 06 de Junho de 2023.
Rei CK, Glass R, Bresee JS, et al. Manejo da gastroenterite aguda em crianças: reidratação oral, manutenção e terapia nutricional. MMWR Recomm Rep 2003; 52:1.
Hartling L, Bellemare S, Wiebe N, et al. Reidratação oral versus intravenosa no tratamento da desidratação por gastroenterite em crianças. Banco de Dados Cochrane Syst Ver 2006; :CD004390.
Grupo de Estudos de Antibióticos para Crianças com Diarreia (ABCD), Ahmed T, Chisti MJ, et al. Efeito de 3 dias de azitromicina oral em crianças pequenas com diarreia aguda em ambientes com poucos recursos: um ensaio clínico randomizado. JAMA Netw Open 2021;
Medicina de emergência: abordagem prática / professor titular e coordenador Irineu Tadeu Velasco. - 13. ed., rev., atual. e ampl. - Barueri [SP]: Manole, 2019.
Bulas do Profissional da Saúde.


