Crise convulsiva e estado epiléptico em adultos

Manejo inicial

  • MOV: monitorização contínua + oxímetro/oxigênio + acesso venoso
    • Cateter nasal até 6 L/min, ou
    • Máscara com reservatório até 15 L/min
  • Glicemia capilar, e se hipoglicemia:
    • Glicose inj. 50% (5g/10ml)
      • Aplicar 4 a 10 amp (40 a 100ml) IV bolus.
    • Tiamina inj. 100mg/1ml (considerar)
      • Aplicar 3 mL (300mg) + 100ml SG5% IV, se houver risco de encefalopatia de Wernicke.
    • Ir para "Hipoglicemia"
  • Colher exames:
    • Hemograma, ureia, creatinina, eletrólitos (Na, K, Ca, P, Mg), enzimas hepáticas, gasometria arterial, toxicológico, níveis séricos de antiepilépticos de uso domiciliar, troponina, etc.

Estado epiléptico convulsivo

Considera-se Estado Epiléptico ou Status Epilepticus, quando:

  • ≥ 2 crises sem completa recuperação da consciência entre elas, OU
  • Crise com > 5 min de duração (conceitualmente > 30 min)
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Primeira linha

Considerações:

  • A primeira linha de tratamento compreende os primeiros 5 a 10 minutos do manejo, após identificado o quadro de status epilepticus.
  • Os benzodiazepínicos são as medicações de escolha.


Esquema:

  • Com acesso venoso (preferível):
    • Diazepam IV
    • Lorazepam IV (não disponível no brasil)
  • Sem acesso venoso:
    • Midazolam IM, bucal ou intranasal, OU
    • Diazepam via retal

Com acesso venoso:

  • Diazepam inj. 10mg/2ml
    • Aplicar 1 amp (10mg) IV em 2 min.
    • Se a crise se mantém após 3-10 min, repetir a dose (10 mg).

Sem acesso venoso:

  • Intramuscular
    • Midazolam inj. 5mg/5ml ou 15mg/3ml ou 50mg/10ml
      • Aplicar 2 ml (da solução 50mg/10ml) IM (dose: 10 mg).
  • Bucal (não disponível no SUS)
    • Midazolam solução bucal 2,5 ou 5 ou 7,5 ou 10 mg /seringa
      • Aplicar 10 mg bucal.
      • Se a crise se mantém após 3-10 min, repetir a dose (10 mg).
  • Intranasal (não disponível no SUS)
    • Midazolam spray 5mg/ml
      • Aplicar 10 mg intranasal.
      • Se a crise se mantém após 3-10 min, aplicar dose adicional de 5 mg (dose total máx. 15 mg).
  • Retal (não disponível no SUS)
    • Diazepam gel retal 5mg/ml
      • Aplicar 20 mg, via retal, dose única.

Segunda linha

Considerações:

  • Compreende os primeiros 10 a 20 minutos do manejo, após identificado o quadro de status epilepticus.
  • As diretrizes atuais recomendam a segunda linha de tratamento para todos os pacientes, exceto aqueles com uma causa rapidamente reversível de status epilepticus (p. ex. hipoglicemia) já identificada e tratada com sucesso. Tal recomendação tem o objetivo de reduzir o risco de recorrência das crises.
  • A segunda linha de tratamento também é indicada em casos de crise reentrante ou que persistente após o tratamento de primeira linha.


Esquema (administração intravenosa):

  • Opções de primeira escolha: Fenitóna OU Fosfenitoína OU Ácido valproico OU Levetiracetam
  • Opções de segunda escolha: Fenobarbital OU Lacosamida
  • Solicitar avaliação do neurologista, se disponível.
  • Considerar transferência para UTI.

Fenitoína inj. 250mg/5ml

  • Dose de ataque: 20 mg/kg (máx. 1.500mg)
    • Diluir 20 mg/kg (máx 1.500 mg) + 250ml SF0,9% (não diluir em SG5%), IV lento.
    • Infusão: 1 mg/kg/min (máximo de 50 mg/min).
    • Exemplo 70 kg:
      • Diluir 5 amp e meia + 250 mL SF0,9%, e aplicar IV em 30-40 min.
    • Observação:
      • Monitorização cardíaca contínua devido ao risco de prolongamento do intervalo QT com fenitoína.
  • Dose de manutenção: 5 a 7 mg/kg/dia (fracionar dose em 3x/dia).

Fenobarbital inj. 200mg/2ml ou 200mg/1ml

  • Dose de ataque: 20 mg/kg.
    • Diluir 20 mg/kg + 200 ml SF0,9%, IV lento.
    • Infusão: máximo de 50 mg/min.
    • Exemplo 70 kg (usando amp. 200mg/2ml):
      • Diluir 7 amp + 200ml SF0,9%, e aplicar IV em 30-40 min.
    • Observação:
      • Monitorização cardíaca contínua.
      • Maior risco de sedação prolongada, devido a maior meia-vida (87-100h).
      • Opção de escolha se intoxicação ou abstinência por álcool.
  • Dose de manutenção: 1 a 4 mg/kg/dia (fracionar dose em 2x/dia).

Considerações:

  • Monitorar nível sérico de antiepilépticos 2h após bolus.
  • Monitorização cardíaca contínua deve ser realizada.
  • Se o paciente não recobrar a consciência ou se for iniciada droga IV contínua, deve-se providenciar eletroencefalograma (EEG) contínuo.

Terceira linha (refratário)

Indicado se crise reentrante ou persistente após o tratamento de segunda linha, tendo seu início após 20-30 minutos do manejo inicial.

Caracteriza-se com status epilepticus refratário:

  • Definição: crise epiléptica que persiste mesmo após a utilização (em doses corretas) de 2 medicações anticonvulsivantes (um benzodiazepínico seguido de um anticonvulsivante de ação mais prolongada). 
  • Essa forma refratária corresponde a cerca de 25% dos casos de estado de mal epiléptico e apresenta maiores índices de morbidade e mortalidade.


Esquema:

  • Internação em UTI com monitorização contínua com EEG (eletroencefalograma).
  • IOT e ventilação mecânica.
  • Infusão contínua de um agente sedativo: Midazolam OU Propofol OU Pentobarbital OU Cetamina

Preparar e proceder IOT


Midazolam inj.50mg/10ml

  • Ataque: 0,2 mg/kg IV bolus lento, podendo repetir a dose a cada 5 min até cessar a crise, até um máximo de 2 mg/kg ou 20 mg.
    • 70kg: 2,8 mL IV bolus.
  • Manutenção: iniciar com 0,1 mg/kg/h, pondendo titular a infusão até um máximo de 2 mg/kg/h.
    • Diluir 5 amp de 50mg/10mL + 200ml SG5%, IV em BIC.
      • 70kg: iniciar a 7 mL/h (máximo 140 mL/h).

Quarta linha (super-refratário)

Indicado se crise reentrante ou persistente após o tratamento de terceira linha.

Caracteriza-se com status epilepticus super-refratário

  • Definição: estado de mal epiléptico que persiste ou volta a ocorrer após 24 horas ou mais de tratamento com fármacos sedativos (sedação contínua).

Manejo:

  • Paciente internado em UTI, sob ventilação mecânica, sedação contínua e eletroencefalograma (EEG) contínuo.
  • Troca para outro sedativo ou associação com um segundo agente.
  • Titular até surto-supressão:
    • Tiopental pó inj. 0,5 ou 1g
      • Ataque: 5 mg/kg IV, podendo repetir a cada 5 min até cessar crises (máx. 15 mg/kg).
      • Manutenção: 1 a 10 mg/kg/h.

Terapia oral de manutenção

Manter terapia medicamentosa, preferencialmente por via oral, por pelo menos 12 semanas e solicitar avaliação de neurologista.

Para a correta escolha medicamentosa, consulte: “drogas anti-epilépticas: qual escolher?

Crises generalizadas:

  • Valproato comp. 250mg ou 500mg | xp. 50mg/ml
    • Tomar de 500-2.500 mg, divididos em 2-3x por dia.
  • Divalproato comp. 250mg ou 500mg | xp. 50mg/ml
    • Tomar de 500-2.500 mg, divididos em 2-3x por dia.
  • Lamotrigina comp. 25mg ou 50mg ou 100mg
    • Tomar de 100-400 mg, divididos em 1-2x por dia.
Crises focais:
  • Oxcarbazepina comp. 300mg ou 600mg
    • Tomar de 900-2.400 mg, divididos em 2-3x por dia (não associar com fenitoína).
  • Carbamazepina comp. 200mg ou 400mg | xp. 20mg/ml
    • Tomar de 600-1.600 mg, divididos em 2-3x por dia (não associar com fenitoína).

Observações

Se paciente já é sabidamente epiléptico:

  • Avaliar adesão ou mudança no tratamento.
  • Avaliar uso de recente de droga que reduz limiar.

Se for a primeira crise:

  • Deve realizar investigação para identificar etiologia.

Referências

  • Vignatelli L, et al. Clinical practice guidelines on the management of status epilepticus in adults: A systematic review. Epilepsia. 2024 Jun.
  • Luis Otavio Caboclo. Treatment of convulsive status epilepticus in Brazil: a review. Arq. Neuro-Psiquiatr. 2025.
  • Albert Einstein. Guia do Episódio de Cuidado: Status Epilepticus. Revisado em 18/07/2024.
  • Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Epilepsia. CONITEC, Ministério da Saúde. 2019.
  • Tratamento de Epilepsia: Consenso dos Especialistas Brasileiros. Arq Neuropsiquiatr 2003;61(4):1045-1070
  • Manual do Residente de Clínica Médica. Milton de Arruda Martins, Barueri, SP. Manole, 2015.
  • Medicina de emergência: abordagem prática / professor titular e coordenador Irineu Tadeu Velasco. - 13. ed., rev., atual. e ampl. - Barueri [SP]: Manole, 2019.

Autoria e Curadoria

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