Cetoacidose Diabética e Estado Hiperosmolar
Diagnóstico e classificação
Os critérios diagnósticos considerados podem variar conforme a diretriz. Os critérios abaixo estão de acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (2023):- Cetoacidose diabética:
- Glicemia¹ > 200 mg/dL, E
- Acidose metabólica (pH venoso² < 7,3 e/ou bicarbonato sérico < 15 mEq/L), E
- Cetose (cetonemia ≥ 3 mmol/L e/ou cetonúria ≥ 2+).
- Classificação:
- Leve: pH entre 7,2 e 7,3
- Moderada: pH entre 7,1 e 7,2
- Grave: pH < 7,1
- Considerações:
- ¹Outras diretrizes consideram glicemia maior ou igual a 200 mg/dL (algumas ≥ 250 mg/dL). Além disso, há casos de cetoacidose euglicêmica (glicemia < 200 mg/dL), o que pode ser observado especialmente em gestantes, pacientes com abuso de álcool, doença renal crônica em estágio terminal e usuários de inibidores de SGLT2.
- ²Outras diretrizes consideram pH arterial < 7,3, e não pH venoso.
- Estado Hiperosmolar Hiperglicêmico:
- Glicemia > 600 mg/dL, E
- pH arterial > 7,3, E
- Osmolalidade sérica efetiva > 320 mOsm/kg.
Correções e cálculos úteis
- Correção do sódio nas hiperglicemias:
- Se glicemia < 400 mg/dL:
- Na corrigido = Na aferido + 1,6 x [(glicemia - 100) / 100].
- Se glicemia > 400 mg/dL:
- Na corrigido = Na aferido + 2,4 x [(glicemia - 100) / 100].
- Ou utilize a Calculadora de distúrbios do sódio para calcular o sódio corrigido.
- Ânion-Gap:
- Ânion-gap = Na aferido - (Cl + HCO3)
- Valor normal: 4 a 12 mEq/L.
- Osmolaridade:
- Osm. plasmática efetiva = 2 x Na aferido + (glicemia / 18) + (ureia / 2,8)
- Osm. plasmática = 2 x Na aferido + (glicemia / 18)
- Valor normal: 285 a 295 mOsm/kg.
- Observações:
- Glicemia em mg/dL.
- Ureia em mg/dL.
- Na em mEq/L.
- Para o cálculo do ânion-gap e da osmolaridade é utilizado, por convenção, o sódio aferido, e não o sódio corrigido.
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Manejo inicial
- MOV (monitorização + oxigênio/oxímetro + acesso venoso) + suporte respiratório
- Ir para Insuficiência Respiratória Aguda.
- Ringer Lactato ou Soro Fisiológico 0,9%
- 15 a 20 ml/kg em 1 hora (primeira hora).
- Sempre avaliar sinais de insuficiência cardíaca ou renal para evitar sobrecarga hídrica.
- Solicitar exame de potássio (principal) e demais exames.
- Não iniciar insulinoterapia sem saber o K sérico.
Hidratação (após a primeira hora)
Se Na sérico corrigido < 150:
- Ringer Lactato ou SF 0,9%
- Aplicar 250 a 500 ml/h IV.
- Preferência para ringer lactato.
- Solução hipotônica a 0,45%
- Aplicar 250 a 500 ml/h, IV.
- Como preparar?
- Diluir 125 ml SF0,9% + 125 ml AD, OU
- Diluir 250 ml SF0,9% + 250 ml AD.
- Aplicar 125ml SF0,9% + 125ml SG5%, IV a cada hora.
O que fazer frente ao potássio?
- Potássio < 3,3 mEq/L:
- Apenas repor potássio.
- Não iniciar insulina.
- Potássio entre 3,3 e 5,2 mEq/L:
- Insulinização + repor potássio.
- Potássio > 5,2 mEq/L:
- Apenas insulinização.
- Não repor potássio.
- Observação:
- Se K sérico < 3,3: monitorar potássio de 1/1 hora.
- Se K sérico ≥ 3,3: monitorar potássio de 2/2 horas.
Reposição de potássio
Considerações:
- Recomendações na cetoacidose:
- Se potássio < 3,3: infundir 10 a 30 mEq a cada 1L de SF0,9% durante 1 hora.
- Se potássio ≥ 3,3: infundir 10 a 20 mEq a cada 1L de SF0,9% para manter potássio entre 4 e 5 mEq/L.
- Se potássio > 5,2: não administrar potássio.
- Ajustar concentração da solução de acordo com via de infusão:
- Se veia periférica: 40 mEq/L.
- Se veia profunda: 60 mEq/L.
- Ajustar velocidade de infusão:
- 10 mEq/hora (max 25-30 mEq/hora).
- Em veia periférica e correndo a 10 mEq/hora:
- Aplicar KCl 19,1% 8 ml (20 mEq) + 492 ml SF0,9%, IV em BIC, infundir 250 ml/h.
- Em veia periférica e correndo a 10 mEq/hora:
- Aplicar KCl 10% 15 ml (20 mEq) + 485 ml SF0,9%, IV em BIC, infundir 250 ml/h.
Insulinoterapia
A insulina regular intravenosa deve ser iniciada em todos os pacientes com cetoacidose diabética hiperglicêmica com potássio ≥ 3,3 mEq/L. Caso o potássio esteja abaixo de 3,3 mEq/L a insulinoterapia não deve ser inciada.
Insulina Regular inj. 100UI/ml
- Dose: 0,1 UI/kg/hora IV em BIC.
- Ajustar a dose para manter uma queda da glicose sérica de 50 a 70 mg/dL/hora, se necessário.
- Diluir 50 UI insulina Regular + 500ml SF0,9%, IV em BIC.
- Infusão:
- 50kg: vazão de 50 ml/h.
- 70kg: vazão de 70 ml/h.
- 90kg: vazão de 90 ml/h, OU
- Diluir 20 UI insulina Regular + 20ml SF0,9%, IV em Bomba de Seringa.
- Infusão:
- 50kg: vazão de 5 ml/h.
- 70kg: vazão de 7 ml/h.
- 90kg: vazão de 9 ml/h.
Considerações:
- Dosar a glicemia capilar de 1/1h.
- Quando glicemia estiver entre 200 e 250 mg/dl:
- Aplicar 125ml SF0,9% + 125ml SG5%, IV a cada hora.
Bicarbonato de sódio
- Quando indicar?
- pH ≤ 6,9 na Cetoacidose Diabética.
- Bicarbonato de Sódio 8,4% (1mEq/ml)
- Aplicar 50 a 100ml + 200 a 400 ml de AD, IV infundir em 2h.
- Monitorar bicarbonato a cada 2h até pH > 6,9.
Metas terapêuticas
- Obter queda da glicemia de 50-70 mg/dl por hora.
- Por isso, deve-se dosar a glicemia capilar de 1/1h.
- Observações:
- Se queda > 70 mg/dL/h:
- Reduzir infusão para 0,07 U/kg/h.
- Se ainda assim houver uma queda > 70 mg/dL/h da glicose, reduzir infusão para 0,05 U/kg/h.
- Se queda < 50 mg/dL/h:
- Checar funcionalidade do acesso venoso.
- Medidas para evitar adsorção da insulina no equipo: desprezar 10% do volume inicial e substituir o conjunto a cada 6 horas.
- Após a verificação dos itens acima, se ainda mantiver a queda < 50 mg/dL, a taxa de infusão de insulina deve ser dobrada a cada hora até que uma queda na glicose sérica entre 50-70 mg/dL seja alcançada.
Critérios de resolução
- Critérios de resolução da Cetoacidose:
- Glicemia < 200 mg/dL
- pH > 7,3
- Bicarbonato > 18 mEq/L
- Ânion-gap < 12 mEq/L
- Resolução da cetonemia.
- Observação:
- Negativação da cetonúria não é critério de resolução.
- Critérios de resolução do Estado Hiperosmolar:
- Glicemia < 200 mg/dL
- Osmolaridade < 315 mOsm/kg
- Paciente consciente e estável clinicamente.
Após atingir critérios de controle
- Após atingir critérios de controle, o paciente pode receber 1 dose de insulina NPH subcutânea, e após 1-2h, ser direcionado a enfermaria.
- Sempre buscar causas para a descompensação da Cetoacidose.
Referências
- Ana Teresa Santomauro, Augusto Cezar Santomauro Jr, Aline Bodart Pessanha, Roberto Abrão Raduan, Emerson Cestari Marino, Rodrigo Nunes Lamounier. Diagnóstico e tratamento da Cetoacidose Diabética. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2023).
- Medicina de emergência: abordagem prática / professor titular e coordenador Irineu Tadeu Velasco. - 13. ed., rev., atual. e ampl. - Barueri [SP]: Manole, 2019.


