Neutropenia Febril

Definição

  • A definição de febre no paciente neutropênico pode variar conforme a literatura. 
    • Infectious Diseases Society of America:
      • 1 medida de temperatura oral ≥ 38,3 °C, OU
      • Temperatura ≥ 38,0 °C mantida por um período de 1 hora.
    • Protocolo Clínico UFTM / EBSERH:
      • 2 picos de temperatura axilar ≥ 37,8°C em 24 horas, OU
      • 1 pico de temperatura axilar igual a 38°C mantido por um período de 1 hora, OU
      • 2 episódios de temperatura axilar entre 37,5°C – 37,8°C em um intervalo de 12h.

 

  • A definição de neutropenia também pode variar conforme a literatura. 
    • Infectious Diseases Society of America:
      • Neutropenia: contagem de neutrófilos < 1.500 ou 1.000 células/μL. 
      • Neutropenia grave / severa:
        • Contagem de neutrófilos < 500 células/μL, OU
        • Expectativa de que a contagem de neutrófilos esteja < 500 células/μL nas próximas 48 horas.
      • Neutropenia profunda: contagem de neutrófilos <100 células/μL.
    • Protocolo Clínico UFTM / EBSERH:
      • Contagem de neutrófilos menor que 500 cels/mm³, OU
      • Contagem de neutrófilos entre 500-1000 cels/mm³ com expectativa de redução nas próximas 48 horas.
      • Neutropenia profunda: contagem de neutrófilos menor que 100 cels/mm3.

Solicitar exames

  • Hemograma completo;
  • Creatinina, ureia, eletrólitos, enzimas hepáticas e bilirrubinas;
  • Hemoculturas:
    • Com cateter venoso central (CVC): colher uma amostra em sangue periférico e outra amostra em cada via do cateter, simultaneamente;
    • Sem CVC: colher duas amostras de sangue periférico em punções diferentes;
    • Volume por Amostra: volume mínimo: 01mL | volume máximo: 5mL (indicação de 1 - 3mL)
  • Urina 1 + Urocultura;
  • Proteína C Reativa (pode ser considerada como marcador evolutivo);
  • Situações especiais: 
    • Pacientes com diarreia:
      • Pesquisa de Clostridium difficile e cultura nas fezes.
    • Pacientes com sinais e sintomas neurológicos:
      • Coleta de líquor e realização de tomografia (TC) de crânio.
    • Pacientes com lesõa de pele suspeita:
      • Aspirado ou biópsia de lesão de pele.
    • Pacientes com sintomas respiratórios:
      • Radiografia de tórax.
    •  Pacientes com sintomas de trato gastrointestinal:
      •  Considerar Ultrassonografia (US) abdominal ou TC abdome, a depender da gravidade e da sintomatologia.
    • Casos específicos:
      • Cultura de líquidos e secreções de outros locais específicos, se indicado.
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Classificação de risco

Alto risco:

  • Pontuação < 21 no escore MASCC.
  • Expectativa de duração da neutropenia maior que 7 dias.
  • Neutropenia profunda (neutrófilos ≤ 100/mm3).
  • Comorbidades significativas (DPOC, neoplasia não controlada, idade avançada, performance status ruim).
  • Instabilidade hemodinâmica.
  • Sintomas gastrointestinais como dor abdominal, náusea, vômitos ou diarreia.
  • Alterações neurológicas ou do estado mental de início agudo.
  • Leucemia aguda em atividade.
  • Mucosite severa que interfere na absorção ou que causa dificuldade de deglutição ou diarreia.
  • Infecção do sítio de implantação do catéter.
  • Hipoxemia ou novo infiltrado pulmonar no raio-X.
  • Evidências de insuficiência hepática ou renal (TGO/TGP > 5x o normal ou TFG < 30ml/min).
  • Observação:
    • Pacientes neutropênicos sem febre, mas que apresentam sinais de infecção como apatia e hipotensão, devem ser tratados como pacientes de alto risco.

 

Baixo risco:

  • Pacientes com previsão de tempo de neutropenia curto (< 7 dias).
  • Clinicamente estáveis.
  • Ausência de comorbidades ou das complicações incluídas no alto risco.
  • Funções hepática e renal adequadas.

 

Alto risco

Considerações:

  • Os paciente classificados como de alto risco (MASCC < 21) devem ser internados para início de antibioticoterapia empírica intravenosa.
  • A antibioticoterapia deve ser iniciada em até 1 hora após a hipótese diagnóstica.

 

Esquema de antibioticoterapia empírica inicial:

  • Sem instabilidade clínica:
    • Cefepime OU Piperacilina-tazobactam
    • Se colonização prévia por ESBL: Meropenem
  • Com instabilidade clínica:
    • Vancomicina + Meropenem
    • Se neutropenia prolongada (≥ 10 dias) e oncohematológicos:
      • Considerar cobertura empírica com Anidulafungina OU Micafungina, devido maior risco de candidemia.

Cefepime pó inj. 1g ou 2g

  • Aplicar 2g + 100ml SF0,9%, IV de 8/8h.

Meropenem pó inj 500mg ou 1g

  • Aplicar 1g + 100ml SF0,9% IV de 8/8h.

Piperacilina-tazobactam 4g-0,5g / 20mL

  • Aplicar 4+0,5g + 250 ml SF0,9%, IV de 6/6h.

Vancomicina pó inj. 500mg ou 1g

  • Dose de ataque: 20-25mg/kg (máx 3g/dose).
  • Dose de manutenção (12 horas após dose de ataque): 15-20 mg/kg/dia (máx 2g/dose), dividido em 12/12 ou 8/8h.

Baixo risco

Considerações:

  • Os pacientes classificados como baixo risco podem ser tratados no hospital com terapia sequencial IV-VO (intravenosa-via oral) ou antibioticoterapia oral desde o início, após avaliação criteriosa.
  • Considerar tratamento ambulatorial em casos selecionados, e somente se houver possibilidade de retorno ao hospital em menos de 1h (se novos episódios de febre ou piora clínica).
  • A antibioticoterapia deve ser iniciada em até 1 hora após a hipótese diagnóstica.

 

Esquema:

  • Amoxicilina-clavulanato + Ciprofloxacino
  • Individualizar duração da antibioticoterapia conforme resposta, etiologia e quadro clínico.

Amoxicilina-clavulanato comp. 500+125mg ou 875+125mg

  • Tomar 1 cp de 8/8h (500+125mg) ou 12/12h (850+125mg).

Ciprofloxacino comp. 500mg

  • Tomar 1 cp de 12/12h.

 

Alternativa se alergia a penicilinas:

  • Esquema:
    • Clindamicina + Ciprofloxacino

Quando associar vancomicina?

A associaçõa da vancomicina ao esquema antibiótico deve ser considerada se:

  • Instabilidade hemodinâmica ou outra evidência de sepse grave.
  • Pneumonia documentada radiologicamente.
  • Hemocultura com crescimento de bactéria gram-positiva.
  • Suspeita de infecção relacionada ao cateter (celulite no local ou calafrios durante infusão).
  • Infecções de pele ou tecidos moles em qualquer região.
  • Mucosite grave em casos específicos, como em:
    • Pacientes que estavam recebendo profilaxia com quinolona sem atividade contra estreptococos.
    •  Pacientes em que a ceftazidima está sendo usada como terapia empírica.
    • Observação: o protocolo clínico da UFTM não considera mucosite grave com indicação de vancomicina.

Seguimento

  • Deve-se guiar a antibioticoterapia baseado nos agentes isolados em cultura, bem como nos resultados do antibiograma, ou na reclassificação de risco do paciente.
  • A duração da antibioticoterapia depende do tempo até a defervescência e da identificação (ou não) de um foco infeccioso. 
    • Fonte identificada: a duração do tratamento deve ser determinada pelo sítio da infecção, pelo patógeno envolvido, pela resposta clínica e pela contagem de neutrófilos. Os antibióticos devem ser mantidos por, pelo menos, a duração padrão indicada para a infecção específica.
    • Fonte não identificada: pode ser considerado, após a defervescência e afebril por pelo menos 72h, a troca dos antibióticos de amplo espectro por antibiótico profilático. Outra abordagem é manter a antibioticoterapia empírica até que o paciente esteja afebril por pelo menos 2 dias consecutivos e a contagem de neutrófilos seja ≥ 500 células/μL, com tendência de aumento.

Referências

  • Protocolo Clínico - Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), EBSERH. Manejo da neutropenia febril no paciente oncológico pediátrico. Emissão: 18/7/2024.
  • Clinical practice guideline for the use of antimicrobial agents in neutropenic patients with cancer: 2010 update by the infectious diseases society of america. Clin Infect Dis. 2011.
  • Hospital Albert Einstein. Guia do Episódio de Cuidado: Neutropenia Febril. Data de revisão: 23/11/2023.
  • Medicina de emergência: abordagem prática / professor titular e coordenador Irineu Tadeu Velasco. - 13. ed., rev., atual. e ampl. - Barueri [SP]: Manole, 2019.
  • Manual do Residente de Clínica Médica. Milton de Arruda Martins, Barueri, SP. Manole, 2015.
  • Medicina de emergência : revisão rápida / editores Herlon Martins...[et al.]. – Barueri, SP : Manole, 2017.

Autoria e Curadoria

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