Artrite Séptica em adultos

Considerações

  • É uma inflamação das articulações secundária a uma etiologia infecciosa, como bactérias, fungos, micobactérias, vírus ou outros patógenos. Geralmente é monoarticular; no entanto, também pode ocorrer artrite séptica poliarticular, envolvendo muitas articulações ou articulações menores.
  • A artrite séptica de origem bacteriana costuma ser uma forma destrutiva de artrite aguda e pode apresentar mortalidade de 5-18% em 1 ano.
  • Fatores predisponentes:
    • Idade avançada
    • Infecção de pele ou tecidos moles
    • Doença articular pré-existente
    • Cirurgia ou infiltração articular recente
    • Cateteres implantados
    • Uso de drogas injetáveis
    • Imunossupressão (incluindo diabetes)

Etiologia

  • Etiologia em Crianças
    • Agente mais comum: Staphylococcus aureus
    • Idade específica:
      • < 2–3 anos: Kingella kingae (bactéria gram-negativa mais frequente).
      • Neonatos: Streptococcus grupo B, S. aureus, Neisseria gonorrhoeae, bacilos gram-negativos.
      • Adolescentes sexualmente ativos: N. gonorrhoeae.
    • Condições associadas:
      • Doença falciforme → Salmonella.
      • Terapia antibiótica prolongada → risco de fungos.
      • Feridas perfurantes e drogas injetáveis → Pseudomonas aeruginosa.
    • Articulação mais acometida: quadril.

 

  • Etiologia em Adultos
    • Agente mais comum: Staphylococcus aureus.
    • Outros agentes relevantes: Streptococcus pneumoniae (menos frequente, mas significativo).
    • Condições específicas:
      • Jovens sexualmente ativos → N. gonorrhoeae.
      • Doença falciforme → Salmonella.
      • Trauma/perfuração → Pseudomonas.
      • Infecções indolentes → fungos e micobactérias (diagnóstico difícil; biópsia sinovial positiva em 95%).
    • Articulações mais acometidas: joelho (mais comum), seguido por quadril.

 

  • Situações Especiais
    • Infecções polimicrobianas: ~5% (trauma ou infecção abdominal).
    • Articulações específicas em usuários de drogas IV: esternoclavicular e sacroilíaca (envolvendo Serratia e Pseudomonas).
    • Pacientes com leucemia: maior suscetibilidade a Aeromonas.
    • Articulações previamente danificadas (ex.: artrite reumatoide): maior risco de infecção, com destruição da cartilagem nas bordas articulares.
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Quadro clínico

  • Apresentação Clínica Geral
    • Quadro clássico: dor articular monoarticular aguda + febre + inchaço + limitação ou recusa de movimento.
    • Febre: presente em 40–60% (achado inespecífico).
    • Localização mais comum: membros inferiores (joelho mais frequente em adultos).
    • Distribuição articular:
      • Monoarticular: padrão mais comum.
      • Oligoarticular (~20%): sepse grave, imunossupressão, artrite reumatoide, múltiplas comorbidades.
    • Situações específicas:
      • Drogas injetáveis → sacroilíaca e esternoclavicular.
      • Artrite gonocócica → adultos jovens, sexualmente ativos; clínica: dermatite, tenossinovite, artrite migratória não erosiva.

 

  • Crianças
    • Sintomas locais: dor, inchaço, calor, limitação de movimento, claudicação, pseudoparalisia.
    • Sintomas sistêmicos: febre, taquicardia, irritabilidade, inapetência, aparência doente.

 

  • Exame Físico
    • Articulações mais envolvidas: joelho > quadril > ombro > tornozelo.
    • Achados típicos: derrame articular, dor à palpação, amplitude de movimento reduzida.
    • Padrão de acometimento conforme agente:
      • Staphylococcus aureus → geralmente monoarticular.
      • Neisseria gonorrhoeae → frequentemente poliarticular.
      • Estreptococos do grupo B → esternoclavicular e sacroilíaca.
    • Próteses articulares: geralmente apresentam seio de drenagem.

Diagnóstico

  • Artrocentese e análise do líquido sinovial (exame mais útil)
    • Cultura, coloração de Gram, análise de cristais.
    • Contagem de leucócitos > 50.000/mm³ com ≥ 90% neutrófilos → sugestivo de causa bacteriana.
    • Confirmação diagnóstica: isolamento de bactéria na cultura.
    • Contagem baixa pode ocorrer em: leucopenia periférica, fase inicial da infecção, artrite gonocócica disseminada, prótese articular.
    • Em próteses: ≥1100 leucócitos/mm³ com ≥64% neutrófilos sugere artrite séptica.
  • Exames laboratoriais complementares
    • Hemograma completo: leucocitose com desvio à esquerda.
    • VHS e PCR: geralmente elevados, úteis como suporte, mas não específicos.
    • Hemoculturas: sempre coletar duas séries (descartar bacteremia).
    • Suspeita de Neisseria: coletar culturas de colo uterino, reto e orofaringe.
  • Estudos de imagem
    • Radiografia simples: útil para avaliar o grau de dano articular e pode mostrar aumento do espaço articular, abaulamento de partes moles ou alterações subcondrais (achados tardios); exame normal não exclui artrite séptica.
    • Ultrassonografia: detecta e quantifica derrame; guia aspiração por agulha.
    • Ressonância magnética: sensível na fase precoce; avalia fluido, tecidos moles, osso e extensão do acometimento cartilaginoso.
    • Cintilografia óssea: não específica (não diferencia infecção de inflamação estéril); útil para articulação sacroilíaca e quadril.

 

  • Diagnósticos diferenciais da artrite monoarticular aguda:
    • Infecção: bacteriana, fúngica, viral, espiroqueta, micoplasma
    • Artropatias induzidas por cristais: gota aguda, pseudogota, oxalato de cálcio, colesterol, cristais de hidroxiapatita
    • Osteoartrite
    • Lesão intra-articular: Fratura, ruptura meniscal, osteonecrose, corpo estranho, sinovite por espinho vegetal
    • Artrite inflamatória: artrite reumatoide, síndrome de Bechet, espondiloartropatias soronegativas, como espondilite anquilosante, artrite psoriática, artrite reativa, artrite relacionada à doença inflamatória intestinal; sarcoidose, lúpus eritematoso sistêmico, doença de Still
    • Infecção sistêmica: endocardite bacteriana, vírus da imunodeficiência humana, artrite de Lyme
    • Tumor: Metástase, sinovite vilonodular pigmentada
    • Outros: Hemartrose, distúrbios de coagulação ou terapia anticoagulante, artropatia neuropática, amiloidose relacionada à diálise, necrose avascular 

Manejo geral

  • O tratamento da artrite séptica envolve as seguintes medidas:
    • Terapia antimicrobiana (iniciar IV logo após artrocentese e coleta de culturas).
    • Drenagem do líquido articular (artrotomia, artroscopia ou aspiração diária por agulha).
    • Ortopedia: envolvimento precoce do cirurgião ortopédico é essencial.

 

  • Antimicrobianos empíricos
    • Cobertura antiestafilocócica obrigatória:
      • Nafcilina, oxacilina ou vancomicina.
      • Preferência para vancomicina se houver suspeita de MRSA com base em dados comunitários e institucionais.
    • Adicionar cefalosporina de 3ª geração (ceftriaxona, ceftazidima, cefotaxima) se:
      • Imunossuprimido.
      • Usuário de drogas IV.
      • Coloração de Gram negativa.
    • Ajustes conforme risco/idade/cultura:
      • Salmonella → cefalosporina de 3ª geração.
      • Neisseria gonorrhoeae → ceftriaxona.

 

  • Duração do tratamento
    • Artrite séptica não gonocócica:
      • IV: 2 semanas → Oral: +1–2 semanas (total 3–4 semanas).
      • Pseudomonas aeruginosa: 4–6 semanas.
    • Artrite gonocócica:
      • Ceftriaxona IV até melhora clínica (24–48h) → depois via oral.

 

  • Situações especiais
    • Sem melhora em 5–6 dias:
      • Reaspirar articulação.
      • Considerar doença de Lyme, fungos ou artrite reativa.
      • Solicitar imagem para descartar osteomielite.
    • Próteses articulares:
      • Desbridamento agressivo ± remoção da prótese.
      • Nova prótese com cimento impregnado de antibiótico.

 

  • Suporte adicional
    • Imobilização articular: apenas nos primeiros 2–3 dias.
    • Fisioterapia precoce e intensiva: essencial para restaurar função e prevenir atrofia muscular.

Antibioticoterapia empírica

Considerações:

  • A terapia antimicrobiana intravenosa empírica deve ser iniciada imediatamente após a aspiração articular ser concluída e as culturas obtidas.
  • A terapia antimicrobiana deve ser ajustada de acordo com os dados de suscetibilidade antimicrobiana da cultura e antibiograma, quando disponíveis.

 

Coloração de gram não disponível:

  • Esquema de tratamento:
    • Cobertura antiestafilocócica para todos
      • Oxacilina OU Vancomicina (se suspeita de MRSA).
    • Considerar adicionar cefalosporina de 3ª geração:
      • Adicionar se: imunossuprimido ou usuário de drogas IV.
      • Ceftriaxona OU Ceftazidima OU Cefotaxima
    • Ajustes específicos conforme fatores individuais:
      • Jovens sexualmente ativos → Suspeita de N. gonorrhoeae → Ceftriaxona
      • Doença falciforme → Suspeita de Salmonella → Cefalosporina de 3ª geração.
  • Oxacilina póinj. 500mg
    • Aplicar 2 amp (1g) + 500ml SF0,9%, IV, de 4/4h.
  • Vancomicina pó inj. 500mg ou 1g
    • Dose: 30mg/kg/dia, de 12/12h (max 60mg/kg/dia e max 2g/dose).
    • Aplicar 2 amp (de 500mg) + 250ml SF0,9%, IV, de 12/12h.
  • Ceftriaxona pó inj. 500mg ou 1g
    • Aplicar 2 amp (2g) + 40ml SF0,9%, IV em 30 min de 24/24h (não diluir em ringer).
  • Cefotaxima pó inj. 500mg ou 1g
    • Aplicar 1 a 2 amp de 1g (1-2g) + 40 ou 100ml SF0,9%, IV em 20-50 min de 12/12h.
  • Ceftazidima pó inj. 1g
    • Aplicar 1 amp + 50ml SF0,9%, IV em 30 min de 8/8h.

 

Coloração de gram disponível:

  • Esquema de tratamento:
    • Cocos Gram-positivos: Vancomicina.
    • Bacilos Gram-negativos
      • Passo 1: Avaliar risco para Pseudomonas (imunossuprimido? Úsuário de drogas IV?):
        • Sem risco para Pseudomonas: Ceftriaxona OU Ceftazidima OU Cefotaxima
        • Com risco para Pseudomonas: Avaliar fatores de risco adicionais abaixo.
      • Passo 2: Avaliar fatores de risco adicionais se houver risco para Pseudomonas (Sepse? Neutropenia e bacteremia? Queimaduras graves? Local com alto índice de resistência?)
        • Sem fator de risco adicional: Cefepime OU Ceftazidima.
        • Com fator de risco adicional: Combinar 2 agentes antipseudomonas de diferentes classes. Por exemplo: (Cefepime + Ciprofloxacino) OU (Piperacilina-tazobactam + Meropenem). 
    • Diplococos Gram-negativos: considerar infecção gonocócica disseminada (Ceftriaxona IV) - Ir para Gonorreia.
  • Vancomicina pó inj. 500mg ou 1g
    • Dose: 30mg/kg/dia, de 12/12h (max 60mg/kg/dia e max 2g/dose).
    • Aplicar 2 amp (de 500mg) + 250ml SF0,9%, IV, de 12/12h.
  • Ceftriaxona pó inj. 500mg ou 1g
    • Aplicar 2 amp (2g) + 40ml SF0,9%, IV em 30 min de 24/24h (não diluir em ringer).
  • Cefotaxima pó inj. 500mg ou 1g
    • Aplicar 1 a 2 amp de 1g (1-2g) + 40 ou 100ml SF0,9%, IV em 20-50 min de 12/12h.
  • Ceftazidima pó inj. 1g
    • Aplicar 1 amp + 50ml SF0,9%, IV em 30 min de 8/8h.
  • Ciprofloxacino bolsa 200mg/100ml ou 400mg/200ml
    • Aplicar 1 bolsa (400mg) IV, de 12/12h.
  • Cefepime pó inj. 1g ou 2g
    • Aplicar 2g + 100ml SF0,9%, IV de 8/8h.
  • Meropenem pó inj 500mg ou 1g
    • Aplicar 1g + 100ml SF0,9% IV de 8/8h.
  • Piperacilina-tazobactam 4g-0,5g / 20mL
    • Aplicar 4+0,5g + 250 ml SF0,9%, IV de 6/6h.

Prognóstico

  • Mortalidade hospitalar: 7–15%.
  • Morbidade: ocorre em ~1/3 dos pacientes.
  • Fatores que aumentam morbimortalidade:
    • Idade avançada.
    • Comorbidades.
    • Doença articular pré-existente.
    • Presença prévia de material intra-articular sintético.
  • Agentes específicos: a Neisseria gonorrhoeae é raramente fatal, enquanto o Staphylococcus aureus pode apresentar altas taxas de mortalidade.
  • Implicação clínica: necessidade de alto índice de suspeita, diagnóstico precoce e tratamento imediato, sobretudo em pacientes com fatores de risco.

Referências

  • Momodu II, Savaliya V. Artrite Séptica. [Atualizado em 3 de julho de 2023]. Em: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; jan. de 2025.
  • Margaretten ME, et al. Does this adult patient have septic arthritis? JAMA. 2007.
  • Elsissy JG, et al. Bacterial Septic Arthritis of the Adult Native Knee Joint: A Review. JBJS Rev. 2020.
  • Medicina de emergência: abordagem prática / professor titular e coordenador Irineu Tadeu Velasco. - 13. ed., rev., atual. e ampl. - Barueri [SP]: Manole, 2019.
  • Manual do Residente de Clínica Médica. Milton de Arruda Martins, Barueri, SP. Manole, 2015.
  • Medicina de emergência : revisão rápida / editores Herlon Martins...[et al.]. – Barueri, SP : Manole, 2017.

Autoria e Curadoria

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