Eclâmpsia e Pré-eclâmpsia
Síndromes hipertensivas
As síndromes hipertensivas na gestação podem se manifestar de 5 formas:Hipertensão gestacional:
Hipertensão arterial (≥ 140 x 90 mmHg), em gestante previamente normotensa, porém sem proteinúria ou manifestação de outros sinais/sintomas relacionados à pré-eclâmpsia.
Essa forma de hipertensão deve desaparecer até 12 semanas após o parto.
Pré-eclâmpsia:
Hipertensão arterial (≥ 140 x 90 mmHg) identificada após a 20ª semana de gestação, associada à proteinúria significativa e/ou disfunção de órgãos-alvo.
- Hipertensão arterial crônica:
Hipertensão reportada pela gestante ou identificada antes de 20 semanas de gestação.
Hipertensão arterial crônica sobreposta por pré-eclâmpsia:
Deve ser considerada se um desses estiver presente:
Aparecimento ou piora da proteinúria (> 3 vezes o valor inicial).
Quando portadoras de hipertensão arterial crônica necessitam de associação de anti-hipertensivos ou aumento de dose.
Surgimento de disfunção de órgãos-alvo.
Hipertensão do jaleco branco:
Hipertensão arterial (≥ 140 x 90 mmHg) durante as consultas pré-natais, porém inferior a 135 x 85 mmHg em avaliações domiciliares, na primeira metade da gestação.
Essa forma de hipertensão deve ser considerada apenas na primeira metade da gestação e não deve se confundir com a pré-eclâmpsia, que se manifesta na sua segunda metade.
Considerações:
A hipertensão arterial é considerada se ≥ 140 e/ou 90 mmHg, avaliada após um período de repouso, com a paciente em posição sentada e manguito apropriado.
É considerado proteinúria significativa se ≥ 300 mg em urina de 24 horas, OU relação proteína/creatinina urinárias (em mg/dL) ≥ 0,3, OU presença de pelo menos uma cruz em amostra de urina isolada (dipstick).
Diagnóstico
Pré-eclâmpsia- PA ≥ 140 x 90 após 20 semanas, associado a:
- Proteinúria significativa E/OU disfunção orgânica E/OU comprometimento placentário.
- Proteinúria significativa:
- ≥ 300 mg em urina de 24 horas OU relação proteína/creatinina urinárias (em mg/dL) ≥ 0,3 OU presença de pelo menos uma cruz em amostra de urina isolada (dipstick).
- Disfunção orgânica:
- Trombocitopenia
- Disfunção hepática
- Insuficiência renal
- Edema agudo de pulmão
- Iminência de eclâmpsia (epigastralgia, cefaleia occipital, turvação/escotomas visuais)
- Comprometimento placentário:
- A presença de sinais de comprometimento placentário também deve levantar a suspeita de pré-eclâmpsia.
- Por exemplo: restrição de crescimento fetal e/ou alterações dopplervelocimétricas.
- Caracteriza-se pela ocorrência de crise convulsiva tônico-clônica generalizada ou coma em gestante com pré-eclâmpsia, sendo uma das complicações mais graves.
Manejo inicial
- MOV (monitorização, oxigênio/oxímetro, acesso venoso) + anamnese e exame físico direcionados.
- Decúbito lateral esquerdo ou semi-sentada.
- Cateter nasal a 5L/min.
- Ir para Insuficiência Respiratória Aguda.
Esquema de Pritchard
Sulfato de Magnésio 5g/10ml (50%)
- Ataque:
- Aplicar 8ml (4g) + 12ml de SF0,9%, IV em 15-20min, E
- Aplicar 1 amp (5g) IM em cada glúteo (total: 10g).
- Manutenção:
- Aplicar 1 amp (5g) IM a cada 4h.
- Manter por 24h após resolução da gestação ou após última convulsão.
Esquema de Zuspan
Sulfato de Magnésio 5g/10ml (50%)
- Ataque:
- Aplicar 8ml (4g) + 12ml de SF0,9%, IV em 15-20min, OU
- Aplicar 8ml (4g) + 100ml de SF0,9%, IV em 20min (300ml/h).
- Manutenção:
- Aplicar 1 amp (5g) + 490ml de SF0,9%, IV em BIC (correr 100ml/h).
- Manter por 24h após resolução da gestação ou após última convulsão.
Outras apresentações do magnésio
Sulfato de Magnésio 5g/10ml (50%)
- 4g = 8 ml e 5g = 10 ml
Sulfato de Magnésio 2g/10ml (20%)
- 4g = 20 ml e 5g = 25 ml
- Não usar IM (apenas IV)
Sulfato de Magnésio 1g/10ml (10%)
- 4g = 40 ml e 5g = 50 ml
- Não usar IM (apenas IV)
Cuidados com o magnésio
Se houver necessidade de referenciar a gestante para outro serviço, o esquema preferencial é o intramuscular (Pritchard), pois confere maior segurança para o transporte.
A dose inicial, adequadamente administrada, não oferece riscos de intoxicação.
- 1) Após a dose inicial, recomenda-se a monitorização dos seguintes parâmetros, a fim de se manter a dose endovenosa ou aplicar nova dose intramuscular:
- reflexo patelar presente
- frequência respiratória ≥ 16 irpm
- diurese ≥ 25 mL/h.
- 2) Diante de alterações nesses parâmetros, recomenda-se:
- redução ou parada da infusão endovenosa ou não realização da dose intramuscular.
- 3) Procede-se, então, à avaliação dos níveis de MgSO4 e da função renal.
- Diante de valores dentro dos limites de normalidade, deve-se reiniciar o tratamento.
- A concentração terapêutica do íon magnésio varia de 4 a 7 mEq/L (4,8 a 8,4 mg/dL), e o reflexo patelar fica abolido com 8 a 10 mEq/L e há risco de parada respiratória a partir de 12 mEq/L.
O Gluconato de cálcio deve ser utilizado nos casos de sinais de intoxicação pelo magnésio;
- Gluconato de cálcio 10% (1g/10ml)
- Aplicar 10 ml (1g) IV lentamente.
Outras considerações:
- Se presença de insuficiência renal (ou creatinina ≥ 1,2), a dose de manutenção deve ser a metade dose recomendada.
- Interromper infusão de Sulfato de Magnésio se diurese < 25 ml/h.
Anti-hipertensivo
Hidralazina 20mg/1ml
- Diluir 1 amp (20mg) + 19ml de SF 0,9%.
- Aplicar 5 ml dessa solução IV bolus a cada 20min (max 45mg/dia), OU
Nifedipino 10mg
- Tomar 1 cp a cada 20-30min (max 30mg/dia), OU
Nitroprussiato de sódio 50mg/2ml
- Aplicar 1 amp + 250ml SG 5%, IV em BIC
- Dose: 0,3 a 10 mcg/kg/min (> 3 mcg/kg/min: risco intoxicação tiocianato)
- Exemplo:
- 70kg: vazão 6,4 a 211 ml/h.
Meta terapêutica:
- PAD em torno de 85 mmHg.
- Na Hipertensão arterial grave:
- Diminuir a PA em 15% a 25%, atingindo-se valores da PAS entre 140 e 150 mmHg e da PAD entre 90 e 100 mmHg.
- Deve-se evitar quedas bruscas da PA, pelos riscos maternos (acidente vascular cerebral, infarto) e de se reduzir em demasia a perfusão uteroplacentária.
Exames
- Hemograma,
- DHL
- Bilirrubina total e frações
- Função renal
- AST/ALT
- Proteinúria
Referências
- Peraçoli JC, Borges VT, Ramos JG, Cavalli RC, Costa SH, Oliveira LG, et al. Pré-eclâmpsia/ eclâmpsia. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo); 2018. (Protocolo Febrasgo – Obstetrícia, nº 8/Comissão Nacional Especializada em Hipertensão na Gestação).
- Medicina de emergência: abordagem prática / professor titular e coordenador Irineu Tadeu Velasco. - 13. ed., rev., atual. e ampl. - Barueri [SP]: Manole, 2019.


