Eclâmpsia e Pré-eclâmpsia

CID-10: O14.9 (pré-eclâmpsia)
CID-10: O15.9 (eclâmpsia)

Síndromes hipertensivas

As síndromes hipertensivas na gestação podem se manifestar de 5 formas:
  • Hipertensão gestacional:

    • Hipertensão arterial (≥ 140 x 90 mmHg), em gestante previamente normotensa, porém sem proteinúria ou manifestação de outros sinais/sintomas relacionados à pré-eclâmpsia.

    • Essa forma de hipertensão deve desaparecer até 12 semanas após o parto.

  • Pré-eclâmpsia:

    • Hipertensão arterial (≥ 140 x 90 mmHg) identificada após a 20ª semana de gestação, associada à proteinúria significativa e/ou disfunção de órgãos-alvo.

  • Hipertensão arterial crônica:
    • Hipertensão reportada pela gestante ou identificada antes de 20 semanas de gestação.

  • Hipertensão arterial crônica sobreposta por pré-eclâmpsia:

    • Deve ser considerada se um desses estiver presente:

      • Aparecimento ou piora da proteinúria (> 3 vezes o valor inicial).

      • Quando portadoras de hipertensão arterial crônica necessitam de associação de anti-hipertensivos ou aumento de dose.

      • Surgimento de disfunção de órgãos-alvo.

  • Hipertensão do jaleco branco:

    • Hipertensão arterial (≥ 140 x 90 mmHg) durante as consultas pré-natais, porém inferior a 135 x 85 mmHg em avaliações domiciliares, na primeira metade da gestação.

    • Essa forma de hipertensão deve ser considerada apenas na primeira metade da gestação e não deve se confundir com a pré-eclâmpsia, que se manifesta na sua segunda metade.


Considerações:

  • A hipertensão arterial é considerada se ≥ 140 e/ou 90 mmHg, avaliada após um período de repouso, com a paciente em posição sentada e manguito apropriado.

  • É considerado proteinúria significativa se ≥ 300 mg em urina de 24 horas, OU relação proteína/creatinina urinárias (em mg/dL) ≥ 0,3, OU presença de pelo menos uma cruz em amostra de urina isolada (dipstick).

Diagnóstico

Pré-eclâmpsia
  • PA ≥ 140 x 90 após 20 semanas, associado a:
    • Proteinúria significativa E/OU disfunção orgânica E/OU comprometimento placentário.
  • Proteinúria significativa:
    • ≥ 300 mg em urina de 24 horas OU relação proteína/creatinina urinárias (em mg/dL) ≥ 0,3 OU presença de pelo menos uma cruz em amostra de urina isolada (dipstick).
  • Disfunção orgânica:
    • Trombocitopenia
    • Disfunção hepática
    • Insuficiência renal
    • Edema agudo de pulmão
    • Iminência de eclâmpsia (epigastralgia, cefaleia occipital, turvação/escotomas visuais)
  • Comprometimento placentário:
    • A presença de sinais de comprometimento placentário também deve levantar a suspeita de pré-eclâmpsia.
    • Por exemplo: restrição de crescimento fetal e/ou alterações dopplervelocimétricas.

Eclâmpsia
  • Caracteriza-se pela ocorrência de crise convulsiva tônico-clônica generalizada ou coma em gestante com pré-eclâmpsia, sendo uma das complicações mais graves.

Manejo inicial

  • MOV (monitorização, oxigênio/oxímetro, acesso venoso) + anamnese e exame físico direcionados.
  • Decúbito lateral esquerdo ou semi-sentada.

Esquema de Pritchard

Sulfato de Magnésio 5g/10ml (50%)

  • Ataque:
    • Aplicar 8ml (4g) + 12ml de SF0,9%, IV em 15-20min, E
    • Aplicar 1 amp (5g) IM em cada glúteo (total: 10g).
  • Manutenção:
    • Aplicar 1 amp (5g) IM a cada 4h.
    • Manter por 24h após resolução da gestação ou após última convulsão.

Esquema de Zuspan

Sulfato de Magnésio 5g/10ml (50%)

  • Ataque:
    • Aplicar 8ml (4g) + 12ml de SF0,9%, IV em 15-20min, OU
    • Aplicar 8ml (4g) + 100ml de SF0,9%, IV em 20min (300ml/h).
  • Manutenção:
    • Aplicar 1 amp (5g) + 490ml de SF0,9%, IV em BIC (correr 100ml/h).
    • Manter por 24h após resolução da gestação ou após última convulsão.

Outras apresentações do magnésio

Sulfato de Magnésio 5g/10ml (50%)

  • 4g = 8 ml e 5g = 10 ml

Sulfato de Magnésio 2g/10ml (20%)

  • 4g = 20 ml e 5g = 25 ml
  • Não usar IM (apenas IV)

Sulfato de Magnésio 1g/10ml (10%)

  • 4g = 40 ml e 5g = 50 ml
  • Não usar IM (apenas IV)

Cuidados com o magnésio

Se houver necessidade de referenciar a gestante para outro serviço, o esquema preferencial é o intramuscular (Pritchard), pois confere maior segurança para o transporte.


A dose inicial, adequadamente administrada, não oferece riscos de intoxicação.

  • 1) Após a dose inicial, recomenda-se a monitorização dos seguintes parâmetros, a fim de se manter a dose endovenosa ou aplicar nova dose intramuscular:
    • reflexo patelar presente
    • frequência respiratória ≥ 16 irpm
    • diurese ≥ 25 mL/h.
  • 2) Diante de alterações nesses parâmetros, recomenda-se:
    • redução ou parada da infusão endovenosa ou não realização da dose intramuscular.
  • 3) Procede-se, então, à avaliação dos níveis de MgSO4 e da função renal.
    • Diante de valores dentro dos limites de normalidade, deve-se reiniciar o tratamento.
    • A concentração terapêutica do íon magnésio varia de 4 a 7 mEq/L (4,8 a 8,4 mg/dL), e o reflexo patelar fica abolido com 8 a 10 mEq/L e há risco de parada respiratória a partir de 12 mEq/L.


O Gluconato de cálcio deve ser utilizado nos casos de sinais de intoxicação pelo magnésio;


Outras considerações:

  • Se presença de insuficiência renal (ou creatinina ≥ 1,2), a dose de manutenção deve ser a metade dose recomendada.
  • Interromper infusão de Sulfato de Magnésio se diurese < 25 ml/h.

Anti-hipertensivo

Hidralazina 20mg/1ml

  • Diluir 1 amp (20mg) + 19ml de SF 0,9%.
  • Aplicar 5 ml dessa solução IV bolus a cada 20min (max 45mg/dia), OU

Nifedipino 10mg

  • Tomar 1 cp a cada 20-30min (max 30mg/dia), OU

Nitroprussiato de sódio 50mg/2ml

  • Aplicar 1 amp + 250ml SG 5%, IV em BIC
  • Dose: 0,3 a 10 mcg/kg/min (> 3 mcg/kg/min: risco intoxicação tiocianato)
  • Exemplo:
    • 70kg: vazão 6,4 a 211 ml/h.

Meta terapêutica:

  • PAD em torno de 85 mmHg.
  • Na Hipertensão arterial grave:
    • Diminuir a PA em 15% a 25%, atingindo-se valores da PAS entre 140 e 150 mmHg e da PAD entre 90 e 100 mmHg.
    • Deve-se evitar quedas bruscas da PA, pelos riscos maternos (acidente vascular cerebral, infarto) e de se reduzir em demasia a perfusão uteroplacentária.

Exames

  • Hemograma,
  • DHL
  • Bilirrubina total e frações
  • Função renal
  • AST/ALT
  • Proteinúria

Referências

  • Peraçoli JC, Borges VT, Ramos JG, Cavalli RC, Costa SH, Oliveira LG, et al. Pré-eclâmpsia/ eclâmpsia. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo); 2018. (Protocolo Febrasgo – Obstetrícia, nº 8/Comissão Nacional Especializada em Hipertensão na Gestação).
  • Medicina de emergência: abordagem prática / professor titular e coordenador Irineu Tadeu Velasco. - 13. ed., rev., atual. e ampl. - Barueri [SP]: Manole, 2019.

Autoria e Curadoria

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