Dislipidemia

 

CID-10: E78

Outros temas:

Valores de referência

Valores de referência desejáveis do perfil lipídico:
  • Colesterol total: < 190 mg/dL
  • HDL: > 40 mg/dL
  • Triglicérides: <150 mg/dL (com jejum 12h) ou <175 mg/dL (sem jejum)
  • LDL: depende do risco cardiovascular do paciente (avaliar o tópico abaixo).
    • Quando utilizar?
      • Deve ser utilizado como parâmetro de alvo terapêutico para todos os indivíduos, exceto se triglicérides > 400 mg/dL, no qual o valor de LDL pela fórmula de Friedewald não é confiável.
    • Como calcular? (fórmula de Friedewald)
      • LDL = Colesterol total – HDL – (Triglicérides / 5)
  • Não-HDL: depende do risco cardiovascular do paciente (avaliar o tópico abaixo).
    • Quando utilizar?
      • Deve ser utilizado como parâmetro de alvo terapêutico para indivíduos com triglicérides > 400 mg/dL, no qual o valor de LDL pela fórmula de Friedewald não é confiável.
    • Como calcular?
      • Não-HDL = Colesterol total – HDL
  • Apolipoproteína B ou ApoB: depende do risco cardiovascular do paciente (avaliar o tópico abaixo).
    • A medida da ApoB pode auxiliar na avaliação de risco cardiovascular e guiar a terapia em indivíduos
      com triglicérides > 150 mg/dL.
  • Lipoproteína(a) ou Lp(a): < 75 nmol/L (< 30 mg/dL).
    • Valor usado para estratificação de risco cardiovascular. Sem meta terapêutica definida.
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Estratificação de risco

 

  • Avaliar o risco cardiovascular calculado pelo escore PREVENT, da American Heart Association. 
    • Clique aqui para acessar a calculadora do escore PREVENT.

Meta terapêutica

Avaliar o risco cardiovascular de cada paciente conforme o tópico acima para definir o alvo terapêutico desejado.

  • Baixo risco:
    • LDL < 115 mg/dL
    • Não-HDL < 145 mg/dL
    • ApoB < 100 mg/dL
  • Intermediário risco:
    • LDL < 100 mg/dL
    • Não-HDL < 130 mg/dL
    • ApoB < 90 mg/dL
  • Alto risco: 
    • LDL < 70 mg/dL
    • Não-HDL < 100 mg/dL
    • ApoB < 70 mg/dL
  • Muito alto risco: 
    • LDL < 50 mg/dL
    • Não-HDL < 80 mg/dL
    • ApoB < 55 mg/dL
  • Extremo risco: 
    • LDL < 40 mg/dL
    • Não-HDL < 70 mg/dL
    • ApoB < 45 mg/dL

Tratamento não farmacológico

  • Controle de peso
    • A redução do peso por medidas não farmacológicas é recomendada para:
      • Aumentar os níveis de HDL-c.
      • Reduzir triglicerídeos.
      • Promover redução, menos pronunciada, de LDL-c.
  • Cessação do tabagismo
    • Reduz o desenvolvimento de aterosclerose.
    • Diminui o risco cardiovascular global.
  • Recomendações dietéticas
    • Gorduras totais: 20–35% da ingestão calórica.
    • Gorduras saturadas: < 7%.
    • Gorduras trans: evitar totalmente.
    • Ácidos graxos monoinsaturados: 15%.
    • Ácidos graxos poli-insaturados: 5–10%.
    • Fibras: 25 g/dia.
    • Carboidratos totais: 50–55% da ingestão calórica.
  • Espiritualidade e religiosidade
    • A abordagem deve fazer parte da consulta médica, pelo impacto positivo na saúde cardiovascular.
    • Força da recomendação: Condicional.
    • Certeza da evidência: Moderada.
  • Consumo de álcool
    • Não é recomendada a ingestão de álcool para prevenção ou tratamento da aterosclerose.
  • Atividade física
    • Adultos devem acumular semanalmente:
      • Pelo menos 150 minutos de atividade aeróbica moderada ou
      • 75 minutos de atividade vigorosa.
      • Combinação das duas modalidades é benéfica.
  • Suplementação dietética
    • Considerar no manejo das dislipidemias (recomendação condicional, evidência moderada).
    • Opções com impacto nos lipídios:
      • Redução de LDL-c: arroz de levedura vermelha, probióticos, fitoesteróis.
      • Redução de triglicerídeos: óleo de peixe (EPA/DHA).

Estatinas baixa intensidade

Reduz LDL em < 30%

  • Lovastatina comp. 10mg ou 20mg ou 40mg
    • Tomar 1 cp (de 20mg) a noite (20 mg/dia).
  • Sinvastatina comp. 10mg ou 20mg ou 40mg
    • Tomar 1 cp (de 10mg) a noite (10 mg/dia).
  • Pravastatina comp. 10mg ou 20mg ou 40mg
    • Tomar 1 cp (de 10 ou 20mg) a noite (10-20mg/dia).
  • Fluvastatina comp. 20mg ou 40mg
    • Tomar 1 cp(de 20 ou 40mg) à noite (20-40mg/dia).
  • Pitavastatina comp. 1mg ou 2mg ou 4mg
    • Tomar 1 cp (de 1mg) uma vez ao dia (1mg/dia).

Estatinas moderada intensidade

Reduz LDL em 30-50%

  • Lovastatina comp. 10mg ou 20mg ou 40mg
    • Tomar 1 cp (de 40mg) a noite (40 mg/dia).
  • Sinvastatina comp. 10mg ou 20mg ou 40mg
    • Tomar 1 cp (de 20 ou 40mg) à noite (20-40 mg/dia).
  • Pravastatina comp. 10mg ou 20mg ou 40mg
    • Tomar 2 cp (de 20 ou 40mg) à noite (40-80mg/dia).
  • Fluvastatina comp. 20mg ou 40mg
    • Tomar 1 cp (de 40mg) de 12/12h (80mg/dia).
  • Pitavastatina comp. 1mg ou 2mg ou 4mg
    • Tomar 1 cp (de 2 ou 4mg) uma vez ao dia (2-4mg/dia).
  • Atorvastatina comp. 10mg ou 20mg ou 40mg ou 80mg
    • Tomar 1 cp (de 10 ou 20mg) uma vez ao dia (10-20 mg/dia).
  • Rosuvastatina comp. 5mg ou 10mg ou 20mg ou 40mg
    • Tomar 1 cp (de 5 ou 10mg) uma vez ao dia (5-10mg/dia).

Estatinas alta intensidade

Reduz LDL em > 50%

  • Atorvastatina comp. 10mg ou 20mg ou 40mg ou 80mg
    • Tomar 1 cp (de 40 ou 80mg) uma vez ao dia (40-80 mg/dia).
  • Rosuvastatina comp. 5mg ou 10mg ou 20mg ou 40mg
    • Tomar 1 cp (de 20 ou 40mg) uma vez ao dia (20-40mg/dia).
  • Sinvastatina + Ezetimiba comp. 10+10mg ou 20+10mg ou 40+10mg
    • Tomar 1 cp (de 40+10mg) a noite (40+10mg/dia).
  • Ezetimiba comp. 10mg (é um inib. absorção do colesterol)
    • Tomar 1 cp uma vez ao dia, associado com sinvastatina 40mg/dia (usado nos casos de não disponibilidade do comprimido já associado).
    • Obs: ezetimiba é um inibidor da absorção do colesterol.

Fibratos

Indicação:

  • São recomendados como primeira linha de tratamento para pacientes com triglicérides ≥ 500 mg/dL, com o objetivo principal de reduzir o risco de pancreatite aguda.
  • O fenofibrato é preferido quando há necessidade de associação com estatinas, devido ao menor risco de miopatia. Com genfibrozila, essa associação é proscrita, dada a alta incidência de efeitos adversos musculares graves, como rabdomiólise.

Cautela nas seguintes condições:

  • Portadores de doença biliar; uso concomitante de anticoagulante oral, cuja posologia deve ser ajustada; pacientes com função renal diminuída; e associação com estatinas.

 

Ciprofibrato comp. 100mg

  • Tomar 1 cp uma vez ao dia (100 mg/dia)

Fenofibrato comp. 200mg

  • Tomar 1 cp uma vez ao dia (160-250 mg/dia)
  • Preferido quando há necessidade de associação com estatinas

Etofibrato comp. 500mg

  • Tomar 1 cp uma vez ao dia (500 mg/dia)

Bezafibrato comp. 200mg

  • Tomar 1 a 3 cp ao dia, fracionado ao longo do dia (200-600 mg/dia).

Bezafibrato retard comp. 400mg

  • Tomar 1 cp ao dia (400 mg/dia)

Genfibrozila comp. 600mg

  • Tomar 1 cp uma vez ao dia ou de 12/12h (600-1.200 mg/dia)
  • Proscrito em associação com estatinas, dada a alta incidência de efeitos adversos musculares graves, como rabdomiólise

Genfibrozila retard comp. 900mg

  • Tomar 1 cp ao dia (900 mg/dia)
  • Proscrito em associação com estatinas, dada a alta incidência de efeitos adversos musculares graves, como rabdomiólise

Terapia combinada

  • Considerações:
    • A diretriz da SBC de 2025 preconiza terapia combinada precoce como estratégia inicial, com a combinação de estatina + ezetimiba ± anti-PCSK9, em pacientes de alto, muito alto ou extremo risco.
  • Estratégias iniciais conforme risco:
    • Alto risco cardiovascular
      • Estatina de alta intensidade + ezetimiba desde o início.
      • Força da recomendação: Forte | Evidência: Alta.
    • Muito alto risco cardiovascular
      • Estatina de alta intensidade + ezetimiba, podendo associar anti-PCSK9 precocemente.
      • Força: Forte | Evidência: Alta.
    • Extremo risco cardiovascular
      • Estatina de alta intensidade + ezetimiba + anti-PCSK9 como terapia inicial.
      • Força: Forte | Evidência: Alta.
    • Indivíduos que não atingirem a meta com estatina de alta intensidade + ezetimiba
      • Acrescentar anti-PCSK9 ou ácido bempedoico.
      • Força: Forte | Evidência: Alta.
  • Situações especiais:
    • HF ou LDL-c ≥ 190 mg/dL
      • Estatina de alta intensidade + ezetimiba como terapia inicial.
      • Força: Forte | Evidência: Alta.
    • Intolerância à estatina
      • Terapia combinada adaptada:
        • Ácido bempedoico + ezetimiba, ou
        • Anti-PCSK9 ± ezetimiba.
      • Força: Forte | Evidência: Alta.
  • Eficácia das combinações
    • Estatina de alta potência + ezetimiba: redução de LDL-c até 65%.
    • Estatina de alta potência + ezetimiba + anti-PCSK9: reduções > 85% (regime mais potente disponível).
    • Estatina moderada + ezetimiba: reduções adicionais de 20–25% (alternativa quando alta potência não é tolerada).
    • Estatina moderada + ácido bempedoico + ezetimiba: reduções até 60% (eficaz em intolerantes à alta intensidade).
    • Ácido bempedoico + ezetimiba + anti-PCSK9: redução > 75% (estratégia não estatínica, útil em intolerância ou contraindicação às estatinas).

Anti-PCSK9

  • Considerações:
    • A terapia anti-PCSK9 deve ser prescrita por médico especialista (cardiologista ou endocrinologista com experiência em dislipidemias).
    • Indicação deve ser individualizada e baseada em estratificação de risco e resposta terapêutica prévia.
  • Mecanismo de ação
    • A proteína PCSK9 degrada receptores de LDL nos hepatócitos.
    • Ao inibi-la, os receptores retornam à superfície celular, capturam mais partículas de LDL da circulação e reduzem os níveis séricos de LDL-c.
  • Principais agentes
    • Evolocumabe e alirocumabe
      • Anticorpos monoclonais subcutâneos, aplicados a cada 2–4 semanas.
      • Redução de 55–60% do LDL-c em usuários de estatina.
      • Ensaios clínicos demonstraram redução de 15% em eventos cardiovasculares maiores, com benefícios acentuados após o primeiro ano de tratamento.
      • Segurança mantida mesmo em pacientes com LDL-c < 25 mg/dL, sem alterações cognitivas em até 8,4 anos de seguimento.
    • Inclisirana
      • siRNA que inibe a produção de PCSK9.
      • Aplicação subcutânea a cada 6 meses em centro de saúde.
      • Redução de 50–55% do LDL-c em usuários de estatina.
      • Eficácia sustentada, sem efeitos adversos significativos relatados.
      • Ainda não há desfechos clínicos duros publicados, mas a redução do LDL-c justifica sua inclusão entre as terapias anti-PCSK9.
  • Indicações e recomendações
    • Considerada em pacientes de alto ou muito alto risco cardiovascular, que não atingem metas com estatina de alta intensidade e ezetimiba, ou em casos de intolerância.
    • Deve-se priorizar uso em pacientes com risco alto de eventos ateroscleróticos ou intolerância a estatinas.
    • Apesar da eficácia comprovada, o custo elevado limita sua ampla utilização no Brasil.

Eventos adversos

Estatinas: os eventos adversos são raros no tratamento com estatinas. Dentre estes, os efeitos musculares são os mais comuns e podem surgir em semanas ou anos após o início do tratamento. Variam desde mialgia, com ou sem elevação da Creatinoquinase (CK), até a rabdomiólise.

Fibratos: distúrbios gastrintestinais, mialgia, astenia, litíase biliar (mais comum com clofibrato), diminuição de libido, erupção cutânea, prurido, cefaleia e perturbação do sono. Raramente, observa-se aumento de enzimas hepáticas e/ou CPK. 

  • Não associar estatinas com genfibrozila devido ao risco de rabdomiólise.

Quando dosar CPK e enzimas hepáticas ?

A CPK e as enzimas hepáticas (TGO e TGP) devem ser avaliadas nas seguintes situações:

  • Início do tratamento.
  • Ajuste de dose.
  • Adição de outro medicamento com potencial de interação.
  • Sinais e sintomas suspeitos:
    • Miopatia: dor, sensibilidade, rigidez, câimbras, fraqueza e fadiga localizada ou generalizada.
    • Hepatopatia: fadiga ou fraqueza, perda de apetite, dor abdominal, urina escura ou aparecimento de icterícia.

Sintomas musculares relacionados às estatinas

Considerações:

  • Valorizar todas as queixas musculares (dor, fraqueza ou câimbras), não apenas dor muscular, e levar em conta o histórico de queixas musculares prévias, comorbidades e uso de outros fármacos.
  • Reconhecer a temporalidade usual entre o início da terapia com estatina e o início dos sintomas musculares, que é habitualmente de 4 a 12 semanas (raramente após mais de 1 ano).
  • Em geral, o padrão de dor muscular e fraqueza ocorre em forma simétrica e proximal e afeta grandes grupos musculares, como nádegas, coxas, panturrilhas e musculatura dorsal. As queixas musculares tendem a ser mais frequentes em pacientes que praticam atividades físicas.
  • Se suspeita de sintomas musculares relacionados às estatinas, solicitar CPK imediatamente.

CPK abaixo de 3x o Limite Superior da Normalidade

  • Assintomático:
    • Manter terapia conforme indicação.
  • Com sintomas musculares toleráveis:
    • Redução temporária de dose ou mudança da estatina, mas sem maiores preocupações adicionais.
  • Sintomas musculares intoleráveis:
    • Suspensão transitória da estatina e a monitorização periódica dos níveis de CPK a cada 4 a 6 semanas.

CPK entre 3 a 7x o Limite Superior da Normalidade

  • Sintomas musculares toleráveis ou assintomáticos:
    • Troca para regime de baixa intensidade e a monitorização mais cuidadosa da CPK a cada 4 a 6 semanas
  • Sintomas musculares intoleráveis:
    • Suspensão transitória da estatina e a monitorização periódica dos níveis de CPK a cada 4 a 6 semanas.
    • Solicitar dosagem sérica de ureia, creatinina e mioglobinúria.

CPK acima de 7x o Limite Superior da Normalidade

  • Com ou sem sintomas musculares:
    • Suspensão da estatina deve ser realizada por 4 a 6 semanas, seguida de nova dosagem de CPK e reavaliação
    • Caso não haja redução da CPK para níveis abaixo de 7x o LSN em até 6 semanas sem estatinas, deve ser avaliado a presença de causa secundária (função renal, TSH, T4 livre, VHS, FAN)

Referências

  • Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025.
  • Faludi AA, Izar MCO, Saraiva JFK, Chacra APM, Bianco HT, Afiune Neto A et al. Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2017. Arq Bras Cardiol 2017; 109(2Supl.1):1-76.
  • Izar MCO, Giraldez VZR, Bertolami A, Santos Filho RDS, Lottenberg AM, Assad MHV, et al. Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Atualização da Diretriz Brasileira de Hipercolesterolemia Familiar – 2021. Arq Bras Cardiol. 2021; 117(4):782-844

Autoria e Curadoria

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