Miíase
Considerações
- Etiologia:
- Infestação da pele ocasionada pelo desenvolvimento de larvas de uma grande variedade de espécies de moscas pertencentes à ordem Diptera, classe Insecta.
- Classificação:
- Primária ou furunculóide (berne):
- Larvas da mosca Dermatobia hominis (mosca berneira) se alimentam de tecido vivo.
- Geralmente ocorrem uma ou mais lesões nodulares com 1 a 3 cm, que apresentam um orifício central por onde a larva sai para respirar.
- Por ele pode sair secreção serosa, e o orifício é frequentemente doloroso e pode assemelhar-se a um furúnculo.
- Secundária (bicheira):
- Larvas da Cochliomya hominivorax (mosca varejeira), Callitroga macelaria ou espécies do gênero Lucilia, as quais se alimentam de tecidos saudáveis, ou mais raramente de tecidos necrosados da pele ou de mucosas.
- A miíase secundária pode ser cutânea ou cavitária.
- Na forma cutânea, as larvas são vistas movimentando-se na superfície da ulceração na pele, em meio à secreção purulenta.
- Na forma cavitária, as larvas são encontradas em cavidades e orifícios naturais infectados.
- Quadro clínico:
- Pode haver história de viagem para um país tropical, ambientes de campo com muitas moscas ou a existência de uma ferida anterior no local acometido.
- O tempo médio entre a exposição e o diagnóstico é de aproximadamente um mês e meio.
- As lesões podem ser dolorosas e/ou pruriginosas. Os pacientes geralmente têm a sensação de que algo se move sob a pele. Pode ocorrer infecção secundária com febre e adenite satélite.
- Miíase Furuncular:
- Pápula eritematosa pruriginosa que inicia seu desenvolvimento em 24 horas após sua penetração, aumentando até 1 a 3 cm de diâmetro e quase 1 cm de altura, com ponto central com fluido serossanguinolento; essa lesão pode se tornar purulenta e com crosta.
- É comum o paciente perceber o movimento das larvas, que podem se projetar através da abertura central.
- As lesões podem ser dolorosas. Pode ocorrer reação inflamatória peri-lesional com linfangite e linfadenopatia regional concomitante.
- Miíase Feridas:
- São larvas depositadas diretamente em uma ferida supurada ou em tecido em decomposição. Os vermes podem ser visíveis na superfície, dentro e/ou ao redor da ferida, ou podem se alojar abaixo da superfície.
- Miíase Migratória ou Cutânea rasteira:
- Geralmente ocorre em pessoas expostas a bovinos e equinos. Forma-se uma linha avermelhada tortuosa com uma vesícula terminal, muito semelhante à larva migrans cutânea.
- Miíase Cavitária:
- Pode acometer os olhos, o nariz, intestino, a boca, o ouvido, entre outros locais. Algumas espécies de mosca têm maior predileção por locais específicos, como a Oestrus ovis, que causa oftalmomiíase.
- Diagnóstico:
- O diagnóstico é clínico, feito pela identificação das larvas.
- O hemograma pode demonstrar leucocitose e eosinofilia.
- Casos específicos, com acometimento cerebral, facial ou orbitário, podem exigir exames de imagem (ultrassonografia, tomografia computadorizada ou ressonância magnética).
Miíase Feridas e Furunculóide
Remoção completa da larva da pele, com a prevenção e o controle da infecção secundária.
Infecção secundária pode ocorrer se a larva for rompida ou morta dentro da cavidade, sem remoção.
A terapia consiste em três técnicas gerais:
Hipóxia localizada (forçar a saída da larva)
A obstrução do orifício diminui a oxigenação da larva, obrigando-a a emergir à superfície, ajudando na extração subsequente com pinça. Para tanto, podem ser utilizados materiais como parafina líquida, cera de abelha, esmalte, fita adesiva, bacon ou vaselina.
A oclusão deve ser realizada por um período de 3-24h para ter o efeito desejado.
Note-se que as larva imaturas geralmente relutam em emergir. O risco da tentativa de oclusão é que o organismo pode morrer por asfixia, sem emergir; tais larvas mortas podem desencadear uma resposta inflamatória, com a formação de granuloma de corpo estranho e, eventualmente, progressão para calcificação.
A injeção de lidocaína a 1% (2 ml por nódulo) às vezes é usada para paralisar a larva, facilitando a extração.
O nitrogênio líquido pode ser usado antes da extração, ocasionando endurecimento da larva e ajudando em sua remoção.
Remoção mecânica ou cirúrgica das larvas.
Em alguns casos, pode ser necessária a excisão cirúrgica, com anestesia local com lidocaína, seguida de fechamento primário da ferida.
Em alguns casos pode ser necessário o desbridamento do tecido necrótico ao redor da lesão.
Aplicação de uma substância tóxica à larva e ao óvulo;
A ivermectina pode matar a larva dentro da lesão, com consequente reação inflamatória.
Ivermectina comp. 6 mg
0,2 mg/kg, em tomada única.
15 a 24 kg: meio comp
25 a 35 kg: 1 comp
36 a 50 kg: 1 comp + meio comp
51 a 65 kg: 2 comp
66 a 79 kg: 2 comp + meio comp
≥80 kg: 0,2 mg/kg
Não deve ser utilizada por gestantes ou crianças com menos de 15 kg.
prático e seguro!
Miíase Migratória
Consiste na identificação da posição das larvas e em sua remoção com uma agulha.
As larvas com localização mais profunda são mais facilmente removidas através de uma incisão.
Larvas que migram profundamente no tecido, tornando a extração impossível; nesses casos, há relato do uso de albendazol oral ou ivermectina previamente, o que facilitou a remoção cirúrgica.
Albendazol comp. 400mg
Tomar 1 cp 2x/dia, por cinco dias, OU
Ivermectina comp. 6 mg
0,2 mg/kg, em tomada única.
15 a 24 kg: meio comp
25 a 35 kg: 1 comp
36 a 50 kg: 1 comp + meio comp
51 a 65 kg: 2 comp
66 a 79 kg: 2 comp + meio comp
≥80 kg: 0,2 mg/kg
Não deve ser utilizada por gestantes ou crianças com menos de 15 kg.
Miíase Cavitária
Nesses casos, geralmente é necessário acompanhamento em conjunto com especialista para a remoção das larvas.
Após remoção mecânica das larvas, é necessário cuidado longitudinal com a ferida, com oclusão do local e reavaliação para prevenção de nova infestação.
A ivermectina oral tem se mostrado especialmente útil nos casos de envolvimento oral, orbital e nasal como adjuvante para o tratamento.
Ivermectina comp. 6 mg
0,2 mg/kg, em tomada única (considerar dose adicional em casos refratários)
15 a 24 kg: meio comp
25 a 35 kg: 1 comp
36 a 50 kg: 1 comp + meio comp
51 a 65 kg: 2 comp
66 a 79 kg: 2 comp + meio comp
≥80 kg: 0,2 mg/kg
Não deve ser utilizada por gestantes ou crianças com menos de 15 kg.
Referências
- Centers for Disease Control and Prevention. Parasites Home. Myiasis. Resources for health professionals. Georgia; 25 May 2020.
- Cardoso AEC, Cardoso AEO, Talhari C, Santos M. Update on parasitic dermatoses. An Bras Dermatol. [online];2020;95(1):1–14.
- TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Qual o tratamento para miíase? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; Nov 2020.
- Tratamento da miíase humana cavitária com ivermectina oral. Rev Bras Otorrinolaringol. V.67, n.6, 755-61, nov./dez. 2001


