Asma na criança (< 6 anos): ambulatorial

CID 10: J45

Outros temas:

Diagnóstico

O diagnóstico de asma em crianças pequenas com histórico de sibilos é mais provável se houver os seguintes critérios:

  • Sibilos ou tosse que ocorre durante o exercício, riso, choro ou na ausência de uma infecção respiratória.

  • História de outra doença alérgica (eczema ou rinite alérgica), sensibilização a alérgenos ou asma em parentes de 1º grau.

  • Sibilância recorrente (≥ 3 episódios no último ano).

  • Melhora clínica durante 2–3 meses de tratamento com corticoides inalatórios em doses baixas e beta-2 agonista de curta ação sob demanda, associado a piora após a interrupção.

  • Para crianças <1 ano com bronquiolite infecciosa, os SABAs geralmente são ineficazes.

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Classificação

Quanto à Gravidade

  • Leve: apresenta sintomas controlados com o Step 1 ou 2 de tratamento.

    • Responde bem a corticoide inalatório em baixa dose.

  • Moderada: apresenta sintomas controlados com o Step 3 ou 4 de tratamento.

    • Necessita dose dobrada de corticoide ou uso de antileucotrieno.

  • Grave: não há controle dos sintomas mesmo com medicações otimizadas em doses altas.


Quanto ao Controle dos Sintomas

  • Critérios de Controle (nas últimas 4 semanas):

    • Sintomas diurnos ≥ 1x/semana;

    • Limitação das atividades devido a asma;

    • Medicação de alívio ≥ 1x/semana;

    • Despertares noturnos.

  • Classificação:
    • Bem controlado: nenhum critério.
    • Parcialmente controlado: até 2 critérios.
    • Não controlado: ≥ 3 critérios.

Esquema Geral

Dispositivos Inalatórios:

  • Crianças <3 anos: espaçador com máscara.

  • Crianças ≥3 anos: espaçador com bocal.


Tratamento por Steps:

  • O manejo da asma segue um esquema de progressão terapêutica:

    • Step 1: Sibilância viral esporádica:

      • SABA conforme necessidade

    • Step 2: Sibilância frequente:

      • Corticoide inalatório em baixa dose contínua.

    • Step 3-4: Asma não controlada:

      • CI dose dobrada ou CI + antileucotrieno.


Siglas:

  • LABA: Beta 2 agonista de longa ação.

  • SABA: Beta 2 agonistas de curta ação.

  • LAMA: Antagonista muscarínico de longa ação.

  • CI: Corticoide inalatório.

Orientações gerais

Conduta frente a um episódio de sibilância:

  • A sibilância intermitente ou episódica pode representar um episódio isolado induzido por vírus, um episódio de asma induzida por alérgenos ou asma não controlada não reconhecida.

  • O tratamento inicial da sibilância é igual para todos esses quadros:

    • SABA a cada 4-6 horas conforme necessário até que os sintomas desapareçam, geralmente dentro de 1 a 7 dias.


Quando prescrever tratamento regular/contínuo?

  • Se a história e o padrão de sintomas sugerirem um diagnóstico de asma, os sintomas não estão controlados e/ou apresenta episódios de sibilância frequentes (≥ 3 por estação):

    • Iniciar corticoide inalatório em dose baixa associado ao SABA sob demanda.

    • O tratamento regular com corticoide inalatório também pode ser indicado em crianças com menos episódios, porém episódios mais graves.

  • Se o diagnóstico de asma estiver em dúvida e a terapia com SABA sob demanda precisa ser utilizada frequentemente (p. ex. a cada 6-8 semanas):

    • Considerar um teste terapêutico com corticoide inalatório em dose baixa associado ao SABA sob demanda.

    • Encaminhar para o especialista.


Considerações:

  • O tratamento pode ser escalonado ou recuado após a reavaliação clínica.

  • Após instituir um dos passos (steps), deve-se reavaliar em 2-3 meses ou antes, dependendo da urgência.

  • A escolha do dispositivo inalatório deve ser baseada na idade e capacidade da criança. O dispositivo preferido é um inalador de dose medida pressurizado com espaçador, com máscara facial para <3 anos e bocal para a maioria das crianças de 3 a 5 anos. As crianças devem ser trocadas de máscara facial para bocal assim que forem capazes de demonstrar uma boa técnica.

STEP 1

Quando?

  • Sibilância viral infrequente e nenhum ou poucos sintomas nos intervalos.


Considerações:

  • Questionar o controle ambiental (alérgenos, fumo passivo), avaliar a técnica inalatória, exercício físico e rever controle.

  • Reavaliar após 3 meses de tratamento e considerar step up ou step down.


Primeira linha:

  • Sob demanda: SABA


Alternativa:

  • Sob demanda: SABA E

  • Contínuo (por curtos períodos): Corticoide inalatório (dose baixa) - indicado se houver necessidade de uso de SABA para o alívio por > 2x/semana durante 1 mês.

STEP 2

Quando?

  • O padrão de sintomas não é compatível com asma, mas os episódios de sibilância ocorrem ≥ 3 vezes/ano. Nesse caso, deve-se realizar teste diagnóstico por 3 meses e referenciar ao especialista OU

  • O padrão dos sintomas é compatível com asma e os sintomas não estão bem controlados ou apresenta ≥ 3 exacerbações por ano.


Considerações:

  • Questionar o controle ambiental, avaliar a técnica inalatória, exercício físico e rever controle.

  • Reavaliar após 3 meses de tratamento e considerar step up ou step down.

  • Para crianças com sibilância viral intermitente e sem sintomas intervalares, particularmente aquelas com atopia subjacente, pode-se considerar o uso de ICS em alta dose intermitente.


Primeira linha:

  • Sob demanda: SABA E

  • Contínuo: Corticoide inalatório (dose baixa) diário.


Alternativa:

  • Sob demanda: SABA E

  • Contínuo: Corticoide inalatório dose baixa (curto período) OU antileucotrieno (diário)

STEP 3

Quando?

  • Crianças com diagnóstico de asma que não se encontra bem controlada com baixa dose de corticoide inalatório.


Considerações:

  • Questionar o controle ambiental, avaliar a técnica inalatória, exercício físico e rever controle.

  • Reavaliar após 3 meses de tratamento e considerar step up ou step down.

  • Referenciar ao especialista.


Primeira linha:

  • Sob demanda: SABA E

  • Contínuo: Corticoide inalatório em dose dobrada (dose baixa x 2) OU Dose baixa diária de corticoide sistêmico associado a SABA


Alternativa:

  • Sob demanda: SABA

  • Contínuo: Corticoide inalatório (dose baixa) + Antileucotrieno diários.

STEP 4

Quando?

  • Asma não bem controlada com dose dobrada de corticoide inalatório.


Considerações:

  • Questionar o controle ambiental, avaliar a técnica inalatória, exercício físico e rever controle.

  • Reavaliar após 3 meses de tratamento e considerar step up ou step down.

  • Referenciar ao especialista.


Conduta:

  • Sob demanda: SABA E

  • Contínuo: Corticoide inalatório em dose dobrada (dose baixa x 2) + Antileucotrieno

  • Curtos períodos: Corticoide inalatório em altas doses diário  OU Dose média diária de corticoide sistêmico associado a SABA.

Corticoide Inalatório

As doses abaixo estão classificadas como "baixa", considerando a faixa de idade ≤ 5 anos.

O uso de corticoide inalatório em doses baixas já  é capaz de promover o benefício clínico suficiente para a maioria das crianças com asma. Doses mais altas estão associadas a maiores riscos de eventos adversos, devendo-se avaliar o risco-benefício.


  • Budesonida susp.para nebulização 0,25 mg/mL e 0,50 mg/mL 

    • Dose baixa: 0,5 mg/dia, via nebulização.

    • Segurança comprovada para maiores de 1 ano.

  • Propionato de Fluticasona DPD HFA (Flixotide spray®) (60 ou 120 doses) 50mcg

    • Dose baixa: 50 mcg/dia. Utilizar com espaçador.

    • Segurança comprovada para maiores de 4 anos

  • Dipropionato de Beclometasona DPI cápsulas (60 doses) 100mcg

    • Dose baixa: 100 mcg/dia. Utilizar com espaçador.

    • Segurança comprovada para maiores de 5 anos

  • Dipropionato de Beclometasona DPD HFA partícula extrafina (Clenil spray®) (200 doses) 50mcg

    • Dose baixa: 50 mcg/dia. Utilizar com espaçador.

    • Segurança comprovada para maiores de 5 anos

SABA

Beta 2 agonistas de curta ação.

  • Salbutamol solução/nebulização 5 mg/mL
    • Fazer 0,1 mg/kg/dose (1 gota a cada 3 kg) no intervalo de 4-6 horas.
  • Salbutamol spray inalatório 100 mcg/dose
    • Inalar 1 a 2 doses, sob demanda, até de 4/4 ou 6/6 horas, com espaçador, em caso de sintomas respiratórios; ou
    • Inalar 1 dose antes do exercício ou da exposição inevitável ao alérgeno.
  • Fenoterol sol. nebulização 5mg/1mL/20 gotas
    • Diluir a dose em 3-4 mL de SF0,9% (não diluir em água destilada), e nebulizar a um fluxo de O2 de 6-8 L/min.
    • Doses conforme idade:
      • 1 a 6 anos: 5 a 10 gotas (1,25 a 2,5 mg), 3x/dia se necessário.
      • até 1 ano: 3 a 7 gotas (0,75 a 1,75 mg), 2 a 3x/dia se necessário.

SABA + CI

Beta 2 agonistas de curta ação + Corticoide inalatório.

  • Salbutamol + Beclometasona sol. nebulização (Clenil Compositum A®) 1.600/800 mcg/2ml (10 fr de 2ml)
    • Meio flaconete (1 mL), a cada 24 horas (1 vez ao dia) ou a cada 12 horas (2 vezes ao dia). 
    • Cada meia dose contém 800 mcg de salbutamol e 400 mcg de dipropionato de beclometasona.
    • O limite máximo diário de administração recomendado em crianças é de 800 mcg de dipropionato de beclometasona e 1600 mcg de salbutamol, ou seja, 1 flaconete.

Antileucotrienos

  • Montelucaste sachê 4 mg
    • Dar 1 sachê diluído em 5 ml de líquido VO 1x/dia (2-5 anos de idade), a noite.
    • Obs: este método deve ser iniciado pelo especialista.

Corticoterapia Sistêmica

  • Prednisolona susp oral 3 mg/mL
    • Dose de 1-2 mg/kg/dia, uma vez ao dia, pela manhã, por 3 a 7 dias, com redução gradual da dose (0,5 a 2 mg/kg/dia - max 20 mL/dia).
    • Apenas após casos de exacerbação da asma moderada a grave.
      • Ir para Exacerbação na asma (< 5 anos).

Cuidados com a corticoterapia

Estratégias para equilibrar segurança e eficácia com o uso de corticóides inalatórios são:

  • Seleção e uso do corticóide:

    • Selecionar o fármaco mais seguro;

    • Usar a dose mínima efetiva;

    • Quando usar dose única diária, administrar pela manhã;

    • Se o controle for pobre, tentar outra droga associada antes de dobrar a dose do corticóide;

    • Enxaguar a boca após o uso.

    • Limpar a pele ao redor do nariz e da boca após a inalação de ICS via máscara facial ou nebulizador para evitar efeitos colaterais locais, como erupção cutânea por esteroides.

  • Estratégias para poupar corticóide inalatório:

    • Reduzir a exposição a alérgenos, principalmente fumaça de cigarro;

    • Diagnosticar e tratar doenças associadas (rinite).

  • Monitorar:

    • Monitorar crescimento em todas as crianças que usam corticóide.

    • Monitorar olhos (catarata, glaucoma) e densidade mineral óssea quando usar doses ≥ a 1.600 µg/dia.

Fatores de Risco para Exacerbações

  • Sintomas:

    • Sintomas não controlados são um importante fator de risco para exacerbações.

  • Medicamentos:

    • Uso elevado de SABA (aumento da mortalidade se ≥1 frasco por mês);

    • CI inadequado: CI não prescrito, baixa adesão ou uso incorreto do inalador.

  • Outras Condições Médicas:

    • Obesidade, rinossinusite crônica, DRGE, alergia alimentar confirmada e gravidez.

  • Exposições:

    • Tabagismo, cigarros eletrônicos, exposição a alérgenos, poluição do ar.

  • Psicossocial:

    • Problemas psicológicos ou socioeconômicos graves.

  • Função Pulmonar:

    • Baixo VEF1 (especialmente <60% do previsto), elevada responsividade ao broncodilatador.

  • Marcadores Inflamatórios:

    • Eosinófilos sanguíneos mais elevados, FeNO (concentração fracionária de óxido nítrico exalado) elevado (em adultos com asma tomando CI).

  • História de Exacerbação:

    • Já intubado ou em unidade de terapia intensiva devido asma; Exacerbação grave nos últimos 12 meses.

Encaminhar ao especialista

  • Sintomas neonatais ou de início muito precoce (especialmente se associados à falta de crescimento)
  • Vômito associado a sintomas respiratórios

  • Chiado contínuo

  • Falha na resposta aos medicamentos para asma (step 1 e 2)

  • Nenhuma associação de sintomas com gatilhos típicos, como IVAS viral

  • Sinais pulmonares ou cardiovasculares focais ou baqueteamento digital

  • Hipoxemia fora do contexto de doença viral.

Diagnósticos diferenciais

  • Infecções virais recorrentes do trato respiratório

  • Refluxo gastroesofágico

  • Aspiração de corpo estranho

  • Coqueluche

  • Bacteriana persistente bronquite

  • Traqueomalácia

  • Tuberculose

  • Doença cardíaca congênita

  • Fibrose cística

  • Discinesia ciliar primária

  • Anel vascular

  • Displasia broncopulmonar

  • Deficiência imunológica

Referências

  • Global Initiative for Asthma. Global Strategy for Asthma Management and Prevention, 2024.

  • Global Initiative for Asthma. Global Strategy for Asthma Management and Prevention, 2023.

  • Recomendações para o manejo da asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia – 2020. J Bras Pneumol. 2020.

  • DUNCAN, Bruce B. et al. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 4. ed.

  • Firmida M, Borgli D. Abordagem da exacerbação da asma em pediatria. - Revista de Pediatria SOPERJ. 2017;17(supl 1)(1):36-44

  • Corticoterapia na asma infantil – Mitos e fatos. Sociedade Brasileira de Pediatria. J Pneumol 28(suppl 1) – Junho de 2002.

  • Terapia inalatória – Vantagens sobre o tratamento oral. Sociedade Brasileira de Pediatria.

Autoria e Curadoria

As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.