Leptospirose
CID-10: A27
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Considerações
Agente etiológico: bactéria Leptospira.
Sendo o grupo Leptospira interrogans o grupo patogênico.
Reservatórios: roedores das espécies Rattus norvegicus (ratazana ou rato de esgoto), Rattus rattus (rato de telhado ou rato-preto) e Mus musculus (camundongo ou catita).
Esses animais não desenvolvem a doença quando infectados e possuem a leptospira nos rins, eliminando-a viva no meio ambiente e contaminando água, solo e alimentos.
Transmissão: exposição direta, a partir do contato com animal infectado, ou indireta, via solo ou água contaminada com a urina de animais infectados.
A penetração do microrganismo ocorre através da pele com presença de lesões ou pele íntegra imersa por longos períodos em água contaminada.
Período de incubação: de 1 a 30 dias (média de 5 e 14 dias).
Diagnóstico
Quadro clínico
Pode variar desde formas assintomáticas e subclínicas até quadros graves com manifestações fulminantes.
Fase precoce (fase leptospirêmica)
Início abrupto de febre, comumente acompanhada de cefaleia, mialgia, anorexia, náuseas e vômitos, e podendo ser confundida com outras causas de doenças febris agudas.
A sufusão conjuntival é um achado característico da leptospirose e é observada em cerca de 30% dos pacientes, aparecendo no final da fase precoce.
Intensa mialgia, principalmente em região lombar e nas panturrilhas.
Fase tardia (fase imune)
15% dos pacientes evoluem com manifestações graves, que se iniciam após a primeira semana da doença, mas podem aparecer antes.
Síndrome de Weil, caracterizada pela tríade:
Icterícia rubínica (tonalidade alaranjada)
Insuficiência renal
Hemorragia (mais comumente pulmonar)
Na fase inicial, as alterações podem ser inespecíficas.
Quais exames solicitar?
Hemograma e bioquímica - ureia, creatinina, bilirrubina total e frações, TGO, TGP, gama glutamil transferase (GGT), fosfatase alcalina (FA), creatinoquinase (CPK), Na, K.
Radiografia de tórax, eletrocardiograma (ECG) e gasometria arterial.
Demais exames pertinentes ao caso.
Algumas alterações esperadas:
Elevação das bilirrubinas totais com predomínio da fração direta; Plaquetopenia; Leucocitose com neutrofilia e desvio à esquerda; Elevação de TGO, TGP e CPK
Métodos sorológicos
Ensaio imunoenzimático (ELISA-IgM)
Microaglutinação (MAT)
Hemocultura
O resultado é obtido após algumas semanas, o que garante apenas um diagnóstico retrospectivo.
Detecção do DNA do microrganismo pela técnica da reação em cadeia da polimerase (PCR).
Local de tratamento
Avaliar sinais de alerta:
- Dispneia, tosse e taquipneia
- Alterações urinárias, geralmente oligúria
- Fenômenos hemorrágicos, incluindo escarros hemoptoicos
- Hipotensão
- Alterações do nível de consciência
- Vômitos frequentes
- Arritmias
- Icterícia
Presença de 1 ou mais sinais de alerta?
- Encaminhar para unidade hospitalar de referência
- Iniciar manejo clínico conforme descrito abaixo em “Tratamento hospitalar”
- Preencher Ficha de Investigação da Leptospirose e coletar amostras para provas diagnósticas.
Ausência de sinais de alerta?
- Considerar acompanhamento ambulatorial com retorno em 24 a 72 horas.
- Preencher Ficha de Investigação da Leptospirose.
- Orientar o paciente sobre os sinais de alerta.
- Iniciar manejo conforme descrito abaixo em “Tratamento ambulatorial”
Tratamento ambulatorial
Consideração:
O tratamento deve ser iniciado no momento da suspeita clínica, não necessitando aguardar a confirmação dos resultados laboratoriais.
Antibioticoterapia:
Esquema:
Doxiciclina OU Amoxicilina
Alternativas (contraindicação ao uso dessas opções acima):
Azitromicina OU Claritromicina
Doxiciclina comp. 100mg
Adultos: Tomar 1 cp (100mg) de 12/12 horas por 5 a 7 dias.
Não deve ser utilizada em crianças menores de 9 anos, mulheres grávidas, nefropatas ou hepatopatas.
Amoxicilina comp. 500mg
Adultos: Tomar 1 cp (500 mg) de 8/8 horas, por 5 a 7 dias.
Amoxicilina xp 250mg/5mL
Crianças: Dar 0,33 mL/kg (max 10 mL), a cada 8h, por 5 a 7 dias.
Dose: 50 mg/kg/dia
Regra prática: peso / 3 = mL a cada 8h, por 5 a 7 dias.
Azitromicina comp. 500mg (alternativa)
Adulto: Tomar 1 cp (500mg) de 24/24 horas, por 5 dias.
Azitromicina xp 200mg/5mL (alternativa)
Crianças: Dar 0,25 mL/kg (max 12,5 mL), a cada 24h
Dose: 10 mg/kg/dia
Regra prática: peso / 4 = mL a cada 24h
Exames:
Solicitar sorologia para leptospirose, que deve ser enviada para o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen).
Hemograma completo, ureia e creatinina, bilirrubinas e transaminases, sódio, potássio. Se necessário, solicitar radiografia de tórax e gasometria arterial. Demais exames pertinentes ao caso.
Orientação e vigilância:
Orientar o paciente quanto aos sinais de alerta e possibilidade de piora do quadro, devendo retornar ao serviço de saúde imediatamente.
Manter vigilância do paciente até a fase de convalescença (1 a 2 semanas).
Tratamento hospitalar
Estabilização hemodinâmica:
Ir para “Hipotensão e Choque”
Ir para “Drogas vasoativas”
Ir para “Taquiarritmias”
Considerar indicação de diálise se: injúria renal aguda (IRA) oligúrica, creatinina ≥4 mg/dL ou ureia ≥150 mg/dL.
Suporte respiratório:
Ir para “Insuficiência respiratória”
Ir para “Ventilação não invasiva”
Ir para “Intubação de sequência rápida”
Indicar internação precoce em UTI se houver acometimento respiratório.
Antibioticoterapia (uma opção)
Penicilina cristalina pó inj. 1 milhão UI ou 5 milhões UI
Adultos: 1.500.000 UI IV de 6/6 horas, por pelo menos 7 dias.
Crianças: 12,5 a 25 mil UI/kg IV de 6/6 horas, por pelo menos 7 dias (50 a 100 mil UI/kg/dia).
Ampicilina pó inj. 1g
Adultos: Aplicar 1 amp (1g) + 100ml SF0,9% IV de 6/6h, por pelo menos 7 dias.
Crianças: 12,5 a 25 mil UI/kg IV de 6/6 horas, por pelo menos 7 dias (50 a 100 mil UI/kg/dia).
Ceftriaxona pó inj. 500mg ou 1g
Adultos: Aplicar 2 amp de 1g (2g) + 40ml SF0,9% IV em 30 min de 24/24h (não usar Ringer), por pelo menos 7 dias.
Crianças: Reconstituir 1 ampola de 500mg p/ cada 10mL AD, e aplicar 0,5 mL/kg (max 10 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 12 h, por pelo menos 7 dias. Dose: 80-100 mg/kg/dia.
Cefotaxima pó inj. 500mg ou 1g
Adulto: Aplicar 1 amp de 1g + 40-100mL SF0,9% IV em 20-50 min de 6/6h, por pelo menos 7 dias.
Crianças: 12,5 a 25 mg/kg IV de 6/6 horas, por pelo menos 7 dias (50 a 100 mg/kg/dia).
Desastres climáticos (inundações)
Em situações de inundações e acometimento de um grande contingente populacional, recomenda-se uma definição de caso suspeito para leptospirose mais sensível:
"Indivíduo que apresenta febre e mialgia, especialmente na região lombar e panturrilha, e que teve contato com água ou lama da inundação no período de até 30 dias anteriores ao início dos sintomas."
Nessas situações, pode haver a ocorrência concomitante de outras doenças, devendo sempre ser considerado diagnósticos diferenciais:
Doenças respiratórias
Diarreia aguda
Infecções do trato urinário
Sepse
Hepatite A
Quimioprofilaxia
O seu uso como medida de prevenção em saúde pública em casos de exposição populacional em massa, não é uma ação recomendada, em virtude da insuficiência de evidências científicas robustas sobre benefícios e riscos para um grande contingente populacional.
Por outro lado, embora com nível de evidência baixa, a quimioprofilaxia para pessoas que estão atuando no resgate pode ser considerada, por estarem em exposição constante e com risco de infecção.
Esquemas possíveis: Doxiciclina OU Azitromicina
Doxiciclina comp. 100mg
Adultos: Tomar 2 cp (200mg) uma vez por semana, durante o tempo de exposição, OU
Azitromicina comp. 500mg (alternativa)
Adultos: Tomar 1 cp (500mg) uma vez por semana, durante o tempo de exposição.
Referências
Guia de vigilância em saúde : volume 3 [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de Ações Estratégicas de Epidemiologia e Vigilância em Saúde e Ambiente. – 6. ed. rev. – Brasília : Ministério da Saúde, 2024.
Ministério da Saúde: Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente; Departamento de Doenças Transmissíveis. NOTA TÉCNICA Nº 26/2024-CGZV/DEDT/SVSA/MS.
Randomized controlled trial of doxycycline prophylaxis against leptospirosis in an endemic area. Int J Antimicrob Agents. 2000.


