Colangite Biliar Primária
Informações gerais
É uma doença hepática colestática crônica progressiva, autoimune, caracterizada pela inflamação e destruição progressiva dos ductos biliares interlobulares de pequeno e médio calibre, anteriormente chamada cirrose biliar primária.
Trata-se de um distúrbio hepático raro que afeta predominantemente mulheres por volta dos 50 anos, e que pode evoluir para cirrose e doença hepática terminal.
Deve ser suspeitada em pacientes com anormalidades colestáticas persistentes, por mais de 6 meses, particularmente em mulheres com elevação inexplicada de fosfatase alcalina.
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Diagnóstico
O diagnóstico é baseado em achados clínicos, laboratoriais e exames de imagem.
Paciente típico: mulher de meia idade com queixas de fadiga e prurido.
Outros sinais e sintomas: dor abdominal no quadrante superior direito, anorexia, hiperpigmentação, xantelasma, hepatoesplenomegalia, icterícia, alteração no padrão do sono, osteoporose e síndrome de má-absorção.
A icterícia costuma ocorrer no curso mais avançado da doença.
Correlação com outras doenças autoimunes: síndrome de Sjögren, esclerodermia, síndrome de CREST, tireoidite, artrite, síndrome de Raynaud, doença celíaca e lúpus eritematoso sistêmico.
Confirmação diagnóstica é realizada na presença de 2 dos 3 critérios:
Elevação de enzimas colestáticas, especialmente da Fosfatase Alcalina (FA);
Presença de anticorpos antimitocondriais (AAM) e/ou anticorpo antinúcleo (AAN) por imunoflourescencia indireta, padrões nucleares tipo membrana nuclear e nuclear pontilhado com pontos isolados ou por Elisa, anti- gp210 e anti-sp-100;
Evidência histológica de colangite destrutiva não-supurativa.
A ausência de dilatação do ducto biliar indica que a causa da colestase deve ser intra-hepática, enquanto que a dilatação dos ductos sugere a avaliação de causas extra-hepáticas.
A ultrassonografia de fígado e vias biliares é o primeiro exame a ser feito para excluir obstrução extra-hepática biliar.
A colangiorressonância (preferível) ou a colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) são importantes na detecção de estenose e dilatação de ductos intra- e extra-hepáticos, e para diagnóstico de colangite esclerosante primária ou secundária.
Histologia:
A biópsia hepática é recomendada para diagnóstico em pacientes com AAM e AAN negativos, sem alterações ao exame de imagem mas com quadro clínico sugestivo.
O início do curso da doença é caracterizado por níveis séricos elevados de Fosfatase Alcalina (FA) e gama glutamiltransferase (GGT).
Como a evolução da doença, há elevação dos níveis séricos de AST, ALT e bilirrubina, e diminuição da albumina sérica.
A queda na albumina sérica e a plaquetopenia são indicadores do desenvolvimento de cirrose e de hipertensão portal.
A pesquisa de anticorpos antimitocondriais (AAM) é positiva quando for ≥1:40.
Indivíduos assintomáticos, AAM positivos, podem eventualmente desenvolver a doença.
Indivíduos com AAM negativo, recomenda-se a pesquisa de anticorpos antinúcleo (AAN).
A pesquisa de anticorpo antinúcleo (AAN) é positiva para colangite biliar primária quando houver padrões nucleares tipo membrana nuclear (perinuclear rims) e nuclear pontilhado com pontos isolados (nuclear dots) ou por Elisa, anti- gp210 e anti-sp-100.
Tratamento
Considerações:
Aproximadamente 65% dos pacientes respondem integralmente ao tratamento com ácido ursodesoxicólico e têm uma expectativa de vida normal.
O tratamento deve ser realizado de maneira contínua e a longo prazo, objetivando benefícios como retardo ou interrupção da evolução da doença.
Tratamento não medicamentoso:
Suspender o consumo de álcool e/ou tabaco e evitar o uso de alimentos e bebidas com a presença de cafeína.
Incentivar a prática de exercícios físicos regulares, e a adoção de uma dieta balanceada.
Tratamento inicial (primeira linha):
Ácido ursodesoxicólico comp. 50mg ou 150mg ou 300 mg
Tomar 13 a 15 mg/kg/dia, via oral, dose única ou dividida em até quatro doses diárias, uso contínuo por toda a vida.
Alguns pacientes podem apresentar piora do quadro clínico no início do tratamento, por exemplo, piora do prurido ou diarreia.
Neste caso, a dosagem do ácido ursodesoxicólico deve ser reduzida até a melhora dos sintomas e gradualmente aumentado de acordo com a tolerância do paciente.
Em caso de persistência dos sintomas a terapia deve ser descontinuada.
Observação:
Caso seja necessário o uso concomitante de drogas que inibem a absorção intestinal de ácidos biliares (colestiramina, colestipol ou antiácidos à base de alumínio), estas devem ser tomadas ao menos 2 horas antes ou após do ácido ursodesoxicólico.
A melhora dos níveis de fosfatase alcalina é normalmente observada em até 3 meses do início da terapia. No entanto, sintomas como fadiga podem não melhorar com o tratamento.
Segunda linha / alternativas:
Em pacientes com resposta inadequada ao ácido ursodesoxicólico (fosfatase alcalina elevada após um ano de terapia), mas sem cirrose, pode ser considerado a associação de um segundo medicamento, dentre as opções abaixo.
Ácido obeticólico (OCA)
- Agonista do receptor ativado por proliferador de peroxissoma (PPAR)
Elafibranor
Bezafibrato comp. 200mg (off-label)
Tomar 1 cp a cada 12h (400 mg/dia).
Fenofibrato comp. 200mg (off-label)
Tomar 1 cp uma vez ao dia (200 mg/dia).
Budesonida (off-label)
9 mg/dia
Manejo para prurido:
Colestiramina 4g/sache
Diluir 1 sachê (4g) em copo d’água, e tomar VO de 6/6h
Monitorizar níveis de vitaminas lipossolúveis
Rifampicina comp. 300mg ou 150mg
Adulto: Tomar 1 cp, 1x/dia, por 4 dias (máx 600 mg/dia)
Monitorar enzimas hepáticas.
Naltrexona comp. 50mg
Tomar meio a 1cp ao dia.
Sertralina comp. 25mg ou 50mg e 100mg
Dose diária inicial: 25 a 50 mg, pela manhã.
Dose diária máxima: 200 mg (dose única diária).
Transplante hepático:
O transplante hepático deve ser considerado quando as demais intervenções disponíveis se mostrarem ineficazes e em quadros avançados.
Monitorização
A melhora dos níveis de fosfatase alcalina é normalmente observada em até 3 meses do início da terapia. No entanto, sintomas como fadiga podem não melhorar com o tratamento.
A resposta bioquímica ao tratamento deve ser reavaliada após 1 ano do início do tratamento com testes bioquímicos hepáticos, como Fosfatase Alcalina (FA) e bilirrubina total e frações.
O paciente que não responder adequadamente deve ser avaliado em relação à adesão terapêutica e quanto à possibilidade de outros diagnósticos associados, tais como síndrome de sobreposição ou doença celíaca.
As medidas de Fosfatase Alcalina (FA) e bilirrubina são importantes variáveis na avaliação prognóstica.
Referências
Sociedade Brasileira de Hepatologia. Recomendações da sociedade brasileira de hepatologia para diagnóstico e tratamento das doenças colestáticas e hepatite autoimune - parte II. 2015.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Colangite Biliar Primária [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias e Inovação em Saúde. – Brasília: Ministério da Saúde, 2020.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Resumido. Ministério da Saúde. Colangite Biliar Primária. SCTIE/SAES/MS Nº 11 DE 09 DE SETEMBRO DE 2019.
Relatório de recomendação CONITEC. Ministério da Saúde. Ácido ursodesoxicólico para colangite biliar primária. Outubro de 2018.


