Mastoidite aguda em crianças
CID 10: H70.0
Informações gerais
Mastoidite aguda é uma complicação supurativa mais comum da otite média aguda (OMA); caracterizada pela infecção das células aéreas da mastoide com evolução inferior a um mês. Pode levar a complicações extracranianas e intracranianas graves se não tratada adequadamente.
Patógenos principais:
Streptococcus pneumoniae, Streptococcus pyogenes
Haemophilus influenzae (não tipável), Staphylococcus aureus (incluindo MRSA)
Pseudomonas aeruginosa em infecções hospitalares ou crônicas.
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Classificação
- Mаѕtоidite aguda com periostite (também chamada de mаѕtοidiѕ incipiente):
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Presença de material purulento nas cavidades mastoideas sem destruição dos septos ósseos.
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O achado de líquido nas células aéreas da mastoide na imagem é inespecífico e é comumente observado em crianças com otite média aguda (ΟMA) ou otite média com derrame. Diagnóstico é baseado em achados clínicos, incluindo sensibilidade pós-auricular, febre, otalgia, eritema e edema com protrusão da aurícula.
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Mаѕtοidite coalescente (também chamada de "osteíte mastoidea aguda"):
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Destruição dos septos ósseos finos entre as células aéreas.
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Pode evoluir para formação de cavidades de abscesso e pela dissecção de pus em áreas adjacentes, a mais comum das quais é um abscesso subperiosteal.
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Sensibilidade pós-auricular, eritema, inchaço (com perda do sulco pós-auricular), flutuação (ou fístula drenante) ou massa, protrusão da aurícula e febre.
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Otoscopia: membrana timpânica geralmente revela achados anormais (por exemplo, abaulamento, derrame de orelha média, perfuração).
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Mastoidite subaguda e crônica:
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Inflamação persistente com destruição progressiva da mastoide, comum em OMA recorrente.
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Diagnóstico
- Clínico:
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Febre alta, otalgia intensa, edema e eritema pós-auricular com protrusão da aurícula.
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Sensibilidade à palpação e possível drenagem de secreção purulenta.
- Frequências relativas dos achados clínicos:
- Letargia/mal-estar (96%)
Membrana timpânica anormal (82%) - Eritema retroauricular, sensibilidade retroauricular e/ou protrusão do pavilhão auricular (80%)
- Febre (76%)
- Estreitamento do canal auditivo externo (71%)
- Otalgia (67%)
- Otorreia (50%)
- 40% das crianças possuem histórico de otite média anterior.
- Letargia/mal-estar (96%)
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Exames complementares:
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TC de mastoide: Indicado se sinais de complicação ou falha terapêutica.
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Hemograma e PCR: Avaliação de resposta inflamatória.
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Hemocultura e cultura de secreção otológica: Em casos graves.
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Doença não complicada
Pilares da terapia:
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Internação hospitalar.
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Terapia antimicrobiana
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Drenagem do ouvido médio e da mastoide.
Tratamento conservador inicial:
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Terapia antimicrobiana (ATB) intravenosa (IV) e drenagem da orelha média com miriոgοtоmia (com ou sem colocação de um tubo de timpanostomia [TT]).
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Reavaliação clínica diariamente e caso não melhora com persistência dos sintomas sistêmicos e locais em 48 horas, mastectomia simples deve ser realizada.
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Exames de imagem não são necessários, somente se não melhora em 48 horas após início da terapia com ATB.
Ferramenta útil:
Antibioticoterapia em crianças sem OMA recorrente ou antibióticos recentes:
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Esquema:
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Ampicilina-sulbactam OU Amoxicilina-ácido clavulânico.
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Duração: IV por 7 a 10 dias e depois transicionar para antibiótico VO por mais 4 semanas.
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Ampicilina-sulbactam sol inj. 1,5 g
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Dose 150 - 200 mg/kg/dia, IV, dividido a cada 6 horas; dose diária máxima de 12 g.
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Amoxicilina-ácido clavulânico pó inj. 500+100mg ou 1g+200mg
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Dose 50 mg/kg por dose, IV, a cada 8 horas.
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Amoxicilina - ácido clavulânico susp oral 125+31,25 mg/5mL ou 250+62,50 mg/5mL
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Dose 50 mg/kg por dose, VO, a cada 8 horas.
Antibioticoterapia em crianças com ОMA recorrente OU antibióticos recentes:
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Esquema:
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Piperacilina-tazobactam OU [(Ceftriaxona ou Ceftazidima) + (Metronidazol ou Clindamicina)]
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Duração: IV por 7 a 10 dias e depois transicionar para antibiótico VO por mais 4 semanas.
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Piperacilina-tazobactam sol inj. 2g+250 mg ou 4g+500 mg
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Dose 300 mg/kg/dia, IV, dividido a cada 6 horas; dose diária máxima de 16 g de Piperacilina.
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Infusão EV lenta (20-30 minutos), reconstituir 2,25 g OU 4,50 g em, respectivamente, 10 mL e 20 mL de SF 0,9% ou SG 5%;
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Diluir em 50-150 mL de SF 0,9%, SG 5% ou Ringer lactato.
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É necessária a modificação da dose para insuficiência renal.
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Ceftriaxona pó inj. 500mg ou 1.000mg
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Dose 100 mg / kg/ dia, IV, dividida a cada 12 horas.
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Reconstituir ampola em 5-10 mL, e aspirar dose correspondente.
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Diluir dose recomendada em 40-100 mL de SF 0,9% ou SG 5%, e aplicar IV em, no mínimo, 30 minutos.
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Ceftazidima sol inj. 1 g ou 2 g
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Dose 50 mg/kg por dose, IV, a cada 8 horas; máximo de 2 g por dose.
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Diluir a solução reconstituída em 50 a 100 mL de solução salina 0,9% ou glicose 5%, administrando ao longo de 15 a 30 minutos.
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É necessária a modificação da dose para insuficiência renal.
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Metronidazol sol inj. 5 mg/mL: Bolsa plástica: 500 mg/100 mL
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Dose 7,5 mg/kg por dose, IV, a cada 8 horas; dose diária máxima de 4 g.
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Infusão EV por 30-60 minutos; velocidade de infusão 5 mL/minuto.
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Clindamicina sol inj. 600 mg/4 mL.
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Dose 20 mg / kg/ dia, IV, dividida a cada 6horas.
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Não deve exceder 30 mg/minuto;
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Diluição (infusão IV): 300-600 mg + 50 mL de SF 0,9% ou ringer lactato ou Dextrose 5%; 900 mg + 50-100 mL de SF 0,9% ou ringer lactato ou Dextrose 5%;1.200 mg + 100 mL de SF 0,9 ou ringer lactato ou Dextrose 5%.
Para pacientes com hipersensibilidade não anafilática às penicilinas:
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Esquema:
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(Ceftazidima ou Cefepima) + (Metronidazol ou Clindamicina)
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Duração: IV por 7 a 10 dias e depois transicionar para antibiótico VO por mais 4 semanas.
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Ceftazidima sol inj. 1 g ou 2 g
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Dose 50 mg/kg por dose, IV, a cada 8 horas; máximo de 2 g por dose.
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Diluir a solução reconstituída em 50 a 100 mL de solução salina 0,9% ou glicose 5%, administrando ao longo de 15 a 30 minutos.
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É necessária a modificação da dose para insuficiência renal.
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Cefepime sol inj. 1 g ou 2 g
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Dose 50 mg/kg por dose, IV, a cada 8 horas; máximo de 2 g por dose.
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Reconstituir 1 a 2g em 10 mL de água estéril para injeção, SF 0,9% ou SG 5%.
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É necessária a modificação da dose para insuficiência renal.
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Metronidazol sol inj. 5 mg/mL (Bolsa plástica: 500 mg/100 mL)
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Dose 7,5 mg/kg por dose, IV, a cada 8 horas; dose diária máxima de 4 g.
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Infusão EV por 30-60 minutos; velocidade de infusão 5 mL/minuto.
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Clindamicina sol inj. 600 mg/4 mL.
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Dose 20 mg / kg/ dia, IV, dividida a cada 6 horas.
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Não deve exceder 30 mg/minuto;
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Diluição (infusão IV): 300-600 mg + 50 mL de SF 0,9% ou ringer lactato ou Dextrose 5%; 900 mg + 50-100 mL de SF 0,9% ou ringer lactato ou Dextrose 5%;1.200 mg + 100 mL de SF 0,9 ou ringer lactato ou Dextrose 5%.
Doença complicada
Pacientes com complicações extracranianas ou intracranianas supurativas de mаѕtoidite aguda que não seja paralisia do nervo facial:
Sugere-se o tratamento cirúrgico inicial com mastoidectomia, além de terapia antimicrobiana IV e miriոgοtоmia (com inserção de TT).
Mastoidectomia simples (em conjunto com antibioticoterapia e miriոgοtοmia) se houver achados clínicos indicando a presença de um abscesso subperiosteal (por exemplo, flutuação ou massa pós-auricular) ou se a tomografia computadorizada (TC), se realizada, mostrar uma coleção considerável.
Na ausência de achados clínicos, pacientes com apenas uma pequena coleção subperiosteal na TC podem ser tratados de forma conservadora inicialmente.
Complicações supurativas intratemporais ou intracranianas podem exigir intervenções cirúrgicas adicionais para tratar a complicação específica (p. ex., drenagem de coleções intratemporais ou intracranianas).
Doenças agudas complicadas pela paralisia isolada do nervo facial podem ser tratadas de forma conservadora inicialmente (realizando o manejo como não complicada).
Se houver sinais clínicos de sepse no momento da apresentação:
Esquema:
(Vancomicina ou Linezolida) + Metronidazol.
Duração: individualizar conforme respostas e perfil do paciente.
Vancomicina sol inj. 500 mg e 1.000 mg.
Dose 15 mg/kg por dose, IV, a cada 6 horas; máximo de 1 g por dose.
Infusão EV por 60-120 minutos. Não ultrapassar 10 mg/minuto;
Reconstituir 500 mg em 10 mL de água para injetáveis ou 1.000 mg em 20 mL de água para injetáveis;
Diluição: 10 mL da solução reconstituída + 100 mL SF 0,9% ou SG 5% ou Ringer lactato, ou 20 mL + 200-250 mL (concentração final: 4-5 mg/mL).
É necessária a modificação da dose para insuficiência renal.
Linezolida sol inj 600mg/300mL
Dose 10 mg/kg por dose, IV, a cada 8 em 8 horas para crianças <12 anos e de 12 em 12 horas para crianças ≥12 anos; máximo de 600 mg por dose.
Infusão EV por 30-120 minutos.
Metronidazol sol inj. 5 mg/mL (Bolsa plástica: 500 mg/100 mL)
Dose 7,5 mg/kg por dose, IV, a cada 8 horas; dose diária máxima de 4 g.
Infusão EV por 30-60 minutos; velocidade de infusão 5 mL/minuto.
Quando encaminhar ao especialista
Início do curso da doença;
Para realização da aspiração e a drenagem do ouvido médio para fins diagnósticos e terapêuticos;
A consulta com um neurocirurgião pode ser justificada para crianças com evidência clínica ou radiológica de uma complicação intracraniana.
Complicações da mastoidite
Complicações extracranianas: abscesso subperiosteal, paralisia do nervo facial, perda auditiva, labirintite, osteomielite, abscesso de bezold.
Complicações intracranianas: meningite, lobo temporal ou abscesso cerebelar, abscesso epidural ou subdural, trombose do seio venoso.
Indicações para mastoidectomia
Achados clínicos compatíveis com abscesso subperiosteal, como flutuação ou massa pós-auricular, independentemente dos achados tomográficos;
Outras complicações supurativas de mаѕtoiѕ agudas: abscesso de Bezold, osteomielite envolvendo outras partes do crânio, labirintite supurativa, meningite, abscesso subdural, abscesso epidural, abscesso cerebral, abscesso cerebelar ou trombose séptica do seio dura;
Complicações supurativas intratemporais ou intracranianas podem exigir intervenção cirúrgica adicional, como drenagem de coleções intratemporais ou intracranianas;
Evidência de TC de uma coleção considerável de fluido, coalescência das células aéreas da mastoide ou erosão óssea cortical;
Doenças agudas em uma criança com otite média supurativa crônica ou colesteatoma;
Progressão do edema pós-auricular ou flutuação ou persistência de febre, dor de ouvido ou drenagem, apesar da terapia antimicrobiana intravenosa (IV) apropriada e miringotomia.
Referências
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