Crupe bacteriano na criança
Informações gerais
Características gerais:
Conhecido também como traqueíte bacteriana, acomete crianças de até 6 anos, e é uma infecção grave da via aérea superior, caracterizada por inflamação e formação de exsudato purulento na traqueia, que pode evoluir com obstrução grave da via aérea superior.
Diferentemente do crupe viral, não responde à epinefrina inalatória e aos corticosteroides.
Agente etiológico mais comum:
S. aureus, S pneumoniae e P aeruginosa.
Sinônimos:
Crupe membranoso, laringotraqueobronquite aguda, crupe pseudomembranoso ou laringotraqueobronquite membranosa.
prático e seguro!
Quadro clínico e diagnóstico
Quadro clínico:
Manifestação clínica de crupe viral e epiglotite. Mas evoluem rapidamente para um quadro mais grave, com:
Tosse ladrante, rouquidão, estridor inspiratório e insuficiência respiratória.
Associado a febre alta, odinofagia e disfagia, baba, sonolência e cianose.
O desconforto respiratório pode progredir para obstrução total da via aérea.
Sem resposta a epinefrina inalatória e corticosteroides.
Diagnóstico:
O diagnóstico é clínico, baseado na evolução dos sintomas e ausência de resposta a terapias padrão para crupe viral. Os exames complementares incluem:
Radiografia de pescoço: pode revelar espessamento da parede traqueal ('sinal da vela derretida'), estreitamento traqueal subglótico (sinal campanário.
Laringoscopia direta: visualização de exsudato purulento sem sinais de epiglotite, malcheiroso bloqueando a luz da traqueia, de fácil remoção e sem hemorragia.
Hemograma e PCR elevados podem estar presentes.
Cultura de aspirado traqueal para identificação do agente etiológico.
Raio x pulmão: atelectasia, infiltração pulmonar, hiperinsuflação, edema pulmonar.
Manejo inicial
Pilares do tratamento:
Na suspeita do quadro de crupe bacteriano, deve-se internar paciente em UTI.
Estabilização hemodinâmica e respiratória, monitoramento constante.
Avaliação contínua das vias aéreas para avaliar a necessidade de IOT.
Antibioticoterapia agressiva.
Medidas gerais / cuidados de suporte:
Oxigênio suplementar e avaliação contínua das vias aéreas:
Oxigênio suplementar para manter SatO2 acima de 92%.
Se insuficiência respiratória iminente: Intubação orotraqueal imediato.
É recomendado realizar intubação em centro cirúrgico com endoscopia, IOT por 3 a 7 dias. A realização frequente de sucção da secreção para evitar obstrução do tubo.
A extubação é realizada após melhoria dos sinais sistêmicos, os requisitos são mínimos e detecção do fluxo de ar ao redor do tubo endotraqueal com o manguito desinflado.
Se alta suspeita clínica sem insuficiência respiratória: Broncofibroscopia e desbridamento de exsudatos traqueais por broncofibroscopia rígida.
Antibioticoterapia empírica.
Descrito em tópico abaixo.
Deve ser iniciada o mais breve possível.
Teste terapêutico com broncodilatador inalatório (Epinefrina e Salbutamol).
Considerando possíveis comorbidades associadas que poderiam responder ao tratamento (p. ex. asma, crupe viral).
Teste terapêutico com glicocorticoide.
Considerando possíveis comorbidades associadas que poderiam responder ao tratamento (p. ex. asma, crupe viral).
Também é usado na extubação.
Fluidoterapia.
Estabilização hemodinâmica: 20 mL/kg de solução salina isotônica IV.
Soroterapia de manutenção.
Controle da febre.
Dipirona inj. 1g/2mL ou 500mg/1mL
<= 8 kg: 0,1 a 0,2 mL IM
9-15 kg: 0,2 a 0,5 mL IV ou IM
16-23 kg: 0,3 a 0,8 mL IV ou IM
24-30 kg: 0,4 a 1,0 mL IV ou IM
31-45 kg: 0,5 a 1,5 mL IV ou IM
46-53 kg: 0,8 a 1,5 mL IV ou IM
>= 54 kg: 2 mL IV ou IM
Dose a cada 6 h
Observação:
Para menores de 1 ano deve-se utilizar via oral (VO) ou intramuscular (IM), sendo a via intravenosa (IV) reservada para maiores de 1 ano.
Garantir o conforto do paciente
Evitar agitação ou ansiedade devido piorarem o grau de desconforto respiratório e obstrução.
Antibioticoterapia
Ir para Calculadora de doses pediátricas - antibióticos.
Opção 1:
Esquema:
Vancomicina + (Ceftriaxona OU Cefotaxima OU Cefuroxima OU Cefepime OU Ampicilina-sulbactam) por 7 a 10 dias.
Vancomicina pó inj. 500mg ou 1g
Dose: 30mg/kg/dia, dividido a cada 8-12h (max 60mg/kg/dia e max 2g/dose)
Exemplo 70 kg:
Aplicar 2 amp (de 500mg) + 250mL SF0,9%, IV a cada 12h
Cefuroxima pó inj. 750mg
Diluir 1 amp + 3 mL diluente, IM a cada 8h (max 750 mg/sítio), OU
Diluir 1 amp + 100 mL SF0,9%, IV a cada 8h
Dose: 750mg a cada 6-8h (max 3 a 6g/dia
Cefepime pó inj. 1g ou 2g
Aplicar 1 amp (de 2g) + 100ml SF0,9% IV a cada 8h, por 7 dias.
Cefotaxima pó inj. 500mg ou 1g
Aplicar 1 a 2 amp de 1g (1-2g) + 40 ou 100ml SF0,9%, IV em 20-50 min de 12/12h
Ceftriaxona pó inj. 1g
Intravenoso:
Reconst. 1 amp p/ cada 10mL AD
Dose: 50-100 mg/kg/dia
Aplicar 0,25 a 0,5 mL/kg (max 10 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 12 h, OU
Aplicar 0,5 a 1 mL/kg (max 10-20 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 24 h
Obs:Não diluir em Ringer Lactato para administração IV
Intramuscular:
Diluir 1 amp para cada 3,5 mL lidocaína 1% (volume: 4,22 mL)
Dose: 50-100 mg/kg/dia
Aplicar 0,11 a 0,21 mL/kg IM, a cada 12 h, OU
Aplicar 0,21 a 0,42 mL/kg IM, a cada 24 h
Máx: 4,22 mL (1 g) a cada 12 h
Opção 2:
Esquema:
Monoterapia com Ceftarolina
Ceftarolina pó inj. 600mg
Dose de 10 mg/kg por infusão EV durante 120 minutos de 8/8 horas;
Reconstituir 600 mg em 20 mL de água para injeção estéril;
Diluição: Diluir a dose desejada em SF 0,9%, SG 5% ou Ringer lactato obtendo uma solução com concentração final de no máximo 12 mg/mL.
Opção 3:
Esquema:
Linezolida + (Ceftriaxona OU Cefotaxima OU Cefuroxima OU Cefepime OU A ampicilina - sulbactam) por 7 a 10 dias.
Linezolida inj. 600mg/300mL
<12 anos: 10mg/kg por dose a cada 8 horas. Dose máxima 600mg.
> 12 anos: 600mg por dose a cada 12 horas. Aplicar 1 bolsa, IV em 30 a 120 min, a cada 12h.
Cefuroxima pó inj. 750mg
Diluir 1 amp + 3 mL diluente, IM a cada 8h (max 750 mg/sítio), OU
Diluir 1 amp + 100 mL SF0,9%, IV a cada 8h
Dose: 750mg a cada 6-8h (max 3 a 6g/dia
Cefepime pó inj. 1g ou 2g
Aplicar 1 amp (de 2g) + 100ml SF0,9% IV a cada 8h, por 7 dias.
Cefotaxima pó inj. 500mg ou 1g
Aplicar 1 a 2 amp de 1g (1-2g) + 40 ou 100ml SF0,9%, IV em 20-50 min de 12/12h
Ceftriaxona pó inj. 1g
Intravenoso:
Reconst. 1 amp p/ cada 10mL AD
Dose: 50-100 mg/kg/dia
Aplicar 0,25 a 0,5 mL/kg (max 10 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 12 h, OU
Aplicar 0,5 a 1 mL/kg (max 10-20 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 24 h
Obs:Não diluir em Ringer Lactato para administração IV
Intramuscular:
Diluir 1 amp para cada 3,5 mL lidocaína 1% (volume: 4,22 mL)
Dose: 50-100 mg/kg/dia
Aplicar 0,11 a 0,21 mL/kg IM, a cada 12 h, OU
Aplicar 0,21 a 0,42 mL/kg IM, a cada 24 h
Máx: 4,22 mL (1 g) a cada 12 h
Opção 4:
Esquema:
Clindamicina + (Ceftriaxona OU Cefotaxima OU Cefuroxima OU Cefepime OU A ampicilina - sulbactam) por 7 a 10 dias.
Clindamicina inj. 300mg/2mL ou 600mg/4mL ou 900mg/6mL
Dose 40 mg/kg por dia em 3 doses divididas. Dose máxima diária 2,7 g.
Aplicar 2 amp (de 300mg) + 100mL SF0,9%, IV a cada 6h, OU
Aplicar 1 amp (de 900mg) + 100mL SF0,9%, IV a cada 8h
Cefuroxima pó inj. 750mg
Diluir 1 amp + 3 mL diluente, IM a cada 8h (max 750 mg/sítio), OU
Diluir 1 amp + 100 mL SF0,9%, IV a cada 8h
Dose: 750mg a cada 6-8h (max 3 a 6g/dia)
Cefepime pó inj. 1g ou 2g
Aplicar 1 amp (de 2g) + 100ml SF0,9% IV a cada 8h, por 7 dias.
Cefotaxima pó inj. 500mg ou 1g
Aplicar 1 a 2 amp de 1g (1-2g) + 40 ou 100ml SF0,9%, IV em 20-50 min de 12/12h
Ceftriaxona pó inj. 1g
Intravenoso:
Reconst. 1 amp p/ cada 10mL AD
Dose: 50-100 mg/kg/dia
Aplicar 0,25 a 0,5 mL/kg (max 10 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 12 h, OU
Aplicar 0,5 a 1 mL/kg (max 10-20 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 24 h
Obs:Não diluir em Ringer Lactato para administração IV
Intramuscular:
Diluir 1 amp para cada 3,5 mL lidocaína 1% (volume: 4,22 mL)
Dose: 50-100 mg/kg/dia
Aplicar 0,11 a 0,21 mL/kg IM, a cada 12 h, OU
Aplicar 0,21 a 0,42 mL/kg IM, a cada 24 h
Máx: 4,22 mL (1 g) a cada 12 h
Pacientes com alergia a beta-lactâmicos (penicilina ou cefalosporina):
Esquema:
Levofloxacino ou Ciprofloxacina podem substituir Cefalosporina e Ampicilina do regime.
Levofloxacino inj. 500mg/100mL ou 750mg/150mL
6 meses a 5 anos: 10mg/kg por dose a cada 12 horas. Dose máxima diária 500mg.
> 5 anos: 10mg/kg por dose uma vez ao dia. Dose diária máxima 500mg.
Aplicar 1 bolsa IV em 60-90 min, a cada 24h
Ciprofloxacino inj. 200mg/100ml ou 400mg/200ml
Dose: 20 a 30mg/kg por dia em 2 doses divididas. Dose diária máxima 800mg.
Aplicar 1 bolsa (de 400mg) IV a cada 12h
Terapia adjuvantes
Tentativa de terapia broncodilatadora inalatória com Epinefrina:
Epinefrina nebulizada se estridor: epinefrina racêmica ou L-epinefrina
L-epinefrina:
Dose de 0,5 mL/kg/dose (máximo 5 mL) na concentração de 1 mg/mL, administrada em via nebulizador ao longo de 15 minutos.
Epinefrina racêmica:
Dose de 0,05 mL/kg/dose (máximo 0,5mL) de uma solução de 2,25% diluída para um volume total de 3mL com solução salina normal, administrada em via nebulizador ao longo de 15 minutos.
Tentativa de terapia broncodilatadora inalatória com Salbutamol:
Salbutamol se estridor:
Salbutamol 100mcg/puff
Dose 1,25 a 5 mg,1 puff para cada 2-3 kg (máx 10 puffs), a cada 20 minutos na primeira hora e manutenção a cada 4 a 6 horas;
Salbutamol 1mg/1mL
Neb. 0,15 mL/kg (max 10 mL) + 3 a 4 ml SF0,9%, a cada 20 min na 1ª hora. Nebulização.
Dose: 0,15 mg/kg/dose
Salbutamol 2mg/1mL
Neb. 0,07 mL/kg (max 5 mL) + 3 a 4 ml SF0,9%, a cada 20 min na 1ª hora.Nebulização.
Dose: 0,15 mg/kg/dose
Salbutamol 5mg/1mL
Neb. 0,03 mL/kg (max 2 mL) + 3 a 4 ml SF0,9%, a cada 20 min na 1ª hora.Nebulização.
Dose: 0,15 mg/kg/dose
Solução salina hipertônica nebulizada:
A solução salina hipertônica nebulizada (3%) não é uma parte rotineira dos cuidados respiratórios para crianças com traqueíte bacteriana, considerando a ausência de evidência científica que suporte o seu uso.
No entanto, o uso pode ser considerado quando a drenagem inadequada de secreções prejudica a troca gasosa e/ou a expansão pulmonar em certos pacientes que se encontram intubados. Nesses casos, a aplicação de solução salina hipertônica pode exercer um papel auxiliar na remoção dessas secreções das vias aéreas.
Solução de salina hipertônica a 3% para nebuliazção
Preparação: 0,5 ml de NaCl 20% + 2,8 ml de AD, e nebulizar com fluxo de oxigênio a 6 L/min.
Se houver resposta à terapia com salina hipertônica nebulizada, considerar manter a nebulização com NaCl 3% de 4/4 horas.
Corticoides
Considerar teste terapêutico com glicocorticoide, considerando possíveis comorbidades associadas que poderiam responder ao tratamento (p. ex. asma, crupe viral). Também é usado na extubação.
Prednisolona xp.1 mg/mL ou 3 mg/mL;
Dar 1 mL/kg/dia VO pela manhã.
Dose: 0,33-0,67 mL/kg/dia (1-2 mg/kg/dia).
Dose máxima: 20 mL/dia (60 mg/dia);
Obs: 1 mg/kg de prednisolona é equivalente a 1 mg/kg de prednisona.
Dexametasona inj. 2 mg/mL e 4 mg/mL
Aplicar 0,25 mL/kg dose única IV ou IM , se suspeita de crupe ou antes da extubação. Dose máxima 16 mg.
Dose: 0,5 mg/kg/dose
Dose máxima: 5 mL/dose (10 mg/dose);
Obs: 0,3 mg/kg de dexametasona é equivalente a 2 mg/kg de prednisona
Dexametasona xp.0,1 mg/mL
Dar 6 mL/kg/dose (0,6 mg/kg) VO, dose única.
Dose máxima: 160 mL/dose (16 mg/dose);
Hidrocortisona pó inj. 100mg e 500MG
Intravenosa
Dose de 0,56-8 mL/kg/dia (0,56-8 mg/kg/dia) ou 20-240 mL/m2/dia (20-240 mg/m2/dia) IV de 6/6 ou 8/8 horas.
Infusão IV em 30 segundos (dose de 100 mg) ou 10 minutos (doses ≥ 500 mg);
Diluição: 2-4 mL + 500-1.000 mL de SG 5% ou SF 0,9%.
Dose máxima: 240 mL/dose (240 mg/dose ).
Intramuscular
Dose de 20-120 mg/m2 IM de 12/12 horas ou de 24/24 horas;
Reconstituir 100 mg em 2 mL de água para injetáveis OU 500 mg em 4 mL de água para injetáveis;
Referências
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento de Emergências. Crupe viral e bacteriana. 2017.
- Casazza G,Graham ME, Nelson D, et al. Traqueíte bacteriana pediátrica- A entidade variável: série de casos com revisão da literatura. Otolarynol Head Neck Surg 2019; 160:546.
- Ferrari, M. E. M., Nogueira, R. A., Pacheco, N. M., de Oliveira, J. M. M., Leal, V. V. S. B., Jaegge, N. A. R., Guerra, D. R. da S. B., Barcelos, M. G. R., Boniolo, R. F., Boniolo, V. F., de Albuquerque, E. L. da S., da Silva , T. C., Silveira , M., Ferreira , A. C. M., & Mosquini, J. da C. E. (2024). Atualizações sobre laringotraqueobronquite na infância: uma revisão bibliográfica. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, 6(9), 3400–3415.


