Hanseníase
CID-10 A30
Informações gerais
Doença infecciosa causada pelo Mycobacterium leprae (M. leprae), um bacilo álcool-ácido resistente, de multiplicação lenta e evolução crônica, curável;
A doença pode causar comprometimento da pele e dos nervos periféricos, levando a neuropatia sensitivo-motora progressiva.
O tratamento da hanseníase é baseado na Poliquimioterapia Uniforme (PQT-U), fornecida gratuitamente pelo SUS.
prático e seguro!
Diagnóstico de Hanseníase
Define-se um caso de hanseníase pela presença de pelo menos um ou mais dos seguintes critérios, conhecidos como sinais cardinais:
Lesão(ões) e/ou áreas(s) da pele com alteração de sensibilidade térmica e/ou dolorosa e/ou tátil;
Espessamento de nervo periférico, associado a alterações sensitivas e/ou motoras e/ou autonômicas;
Presença do M. leprae, confirmada na baciloscopia de esfregaço intradérmico ou na biópsia de pele.
Caso suspeito de hanseníase (indivíduo não contactante):
lesões de pele esbranquiçadas/ ou avermelhadas persistentes, com diminuição de sensibilidade, da sudorese e/ ou dos pelos;
áreas de pele com diminuição de sensibilidade, da sudorese e/ ou dos pelos;
infiltração ou nódulos na face e pavilhões auriculares; obstrução e/ ou sangramento nasal persistente;
queixas de dormência ou formigamento, sensação de agulhadas, nas mãos e/ou pés;
hipersensibilidade ou sensação de dor ou choque no trajeto de nervos periféricos;
áreas de dormência ou anestesia nas mãos e pés, especialmente quando há ferimentos ou queimaduras indolores;
diminuição da força muscular ou paralisias nas mãos, pés e/ou olhos;
incapacidades físicas adquiridas, visíveis nas mãos, pés e/ou olhos.
Classificação operacional
Hanseníase paucibacilar (PB):
Caracteriza-se pela presença de uma a cinco lesões cutâneas e baciloscopia obrigatoriamente negativo; comprometimento isolado de um nervo periférico.
Hanseníase multibacilar (MB):
- Caracteriza-se pela presença de mais de cinco lesões de pele e/ou baciloscopia positiva; mais de um nervo periférico comprometido, desde que devidamente documentada a perda ou diminuição de sensibilidade nos seus respectivos territórios.
Formas clínicas
A hanseníase pode se manifestar de diferentes formas clínicas, conforme a resposta imunológica do paciente:
Hanseníase Indeterminada:
Forma inicial com lesões hipocrômicas, hipoestesia discreta e pouca alteração autonômica.
Hanseníase
Tuberculoide: Apresenta lesões únicas ou em pequeno número, bem delimitadas, com comprometimento sensitivo evidente.
Hanseníase Dimorfa:
Forma intermediária com sinais mistos de hanseníase tuberculoide e virchowiana.
Hanseníase Virchowiana:
Pacientes apresentam infiltração cutânea difusa, madarose e acometimento simétrico dos nervos periféricos.
Caso definido
Medidas iniciais:
Definir grau de incapacidade física
Avaliar presença de reações hansênicas
Notificar no SINAN
- Definir classificação operacional:
- Paucibacilar (PB):
- Até 5 lesões de pele e baciloscopia negativa: iniciar tratamento com PQT-U por 6 meses; tratar reações hansênicas se houver.
- Multibacilar (MB):
- Mais de 5 lesões de pele e/ou 2 ou mais nervos periféricos comprometidos e/ou baciloscopia positiva: iniciar tratamento PQT-U por 12 meses; tratar reações hansênicas se houver.
Iniciar tratamento medicamentos conforme o tópico “Esquemas farmacológicos” descrito abaixo.
Caso suspeito (indivíduo não contactante)
Medidas iniciais:
Sinais clínicos de suspeita
Inspeção da pele em toda a superfície corporal
Avaliação da sensibilidade ( térmica, dolorosa e tátil) nas lesões de pele e /ou nas áreas referidas como dormentes;
Palpação dos nervos periféricos + avaliação sensitiva e motora nas mãos, pés e olhos.
Se presentes e confirmar diagnóstico pelo exame físico e anamnese:
Definir classificação operacional
Definir grau de incapacidade física
Avaliar presença de reações hansênicas
Notificar no SINAN
Iniciar tratamento medicamentos conforme o tópico “Esquemas farmacológicos” descrito abaixo.
Se testes duvidosos ou ausencia de lesoes cutaneas:
Solicitar baciloscopia:
- Se positivo:
Definir classificação operacional
Definir grau de incapacidade física
Avaliar presença de reações hansênicas
Notificar no SINAN
Iniciar tratamento medicamentos conforme o tópico “Esquemas farmacológicos” descrito abaixo.
- Se negativo:
Encaminha para a infectologista, para solicitar exames complementares:
Biópsia e exame histopatológico de pele e/ ou de nervos periféricos; eletroneuromiografia; ultrassonografia de nervos periféricos.
Caso suspeito (indivíduo contactante)
Medidas iniciais:
Sinais clínicos de suspeita
Inspeção da pele em toda a superfície corporal
Avaliação da sensibilidade (térmica, dolorosa e tátil) nas lesões de pele e /ou nas áreas referidas como dormentes;
Palpação dos nervos periféricos + avaliação sensitiva e motora nas mãos, pés e olhos.
Se presentes e confirmar diagnóstico pelo exame físico e anamnese:
Definir classificação operacional
Definir grau de incapacidade física
Avaliar presença de reações hansênicas
Notificar no SINAN
Iniciar tratamento medicamentos conforme o tópico “Esquemas farmacológicos” descrito abaixo.
Se testes duvidosos ou ausencia de lesoes cutaneas:
Solicitar teste rápido:
Reagente: solicitar baciloscopia.
Se IB > 0,0 = caso definido de Hanseniase - Iniciar tratamento medicamentos conforme o tópico “Esquemas farmacológicos” descrito abaixo.
Negativo: encaminha para a infectologista, para solicitar exames complementares:
Biópsia e exame histopatológico de pele e/ ou de nervos periféricos; eletroneuromiografia; ultrassonografia de nervos periféricos.
Ver calendário vacinal
Se descartado caso de Hanseníase (devido anamnese e exame físico):
Verificar calendário vacinal.
Realizar teste rápido:
Reagente:
Não iniciar PQT-U.
Iniciar vigilância ativa com avaliação anual por 5 anos.
Negativo:
Vigilância passiva por meio do autoexame.
Retornar ao serviço se necessário.
Esquemas farmacológicos
PQT-U Adulto - Pacientes com peso acima de 50kg:
Dose mensal supervisionada:
Rifampicina 600mg + Clofazimina 300mg + Dapsona 100mg
Dose diária autoadministrada:
Clofazimina 50mg diariamente + Dapsona 100mg diariamente
Duração do tratamento:
- Multibacilar (MB): 12 meses.
- Paucibacilar (PB): 6 meses.
PQT-U Infantil - Crianças ou adultos com peso entre 30 e 50kg:
Dose mensal supervisionada:
Rifampicina 450mg + Clofazimina 150mg + Dapsona 50mg
Dose diária autoadministrada:
Clofazimina 50mg em dias alternados + Dapsona 50mg diariamente
Duração do tratamento:
- Multibacilar (MB): 12 meses.
- Paucibacilar (PB): 6 meses.
Adaptação da PQT-U Infantil - Crianças com peso abaixo de 30kg:
Dose mensal supervisionada:
Rifampicina 10mg/kg de peso + Clofazimina 6mg/kg de peso + Dapsona 2mg/kg de peso
Dose diária autoadministrada:
Clofazimina 1mg/kg de peso/dia + Dapsona 2mg/kg de peso/dia
Rifampicina também está disponível no SUS sob a forma de suspensão oral com 20mg/mL;
Para crianças com peso abaixo de 30kg, a administração diária de Clofazimina é dificultada, tendo em vista a sua disponibilidade apenas em cápsulas de 50 e 100mg.
Desse modo, recomenda-se calcular a dose semanal e dividi-la em duas ou três tomadas.
Por exemplo: uma criança com 15kg deverá receber 105mg de clofazimina ao longo de sete dias (1mg/kg x 15kg x 7 dias = 105mg), podendo receber uma cápsula de 50mg duas vezes por semana.

Seguimento e alta
Seguimento:
Avaliar clínica mensal, dose supervisionada mensal e avaliação neurológica simplificada trimestral.
Critérios de alta:
Confirmação de todas as doses supervisionadas, avaliação clínica e avaliação neurológica simplificada.
Deve-se avaliar a presença de resistência, se:
Caso novo de Hanseníase (Índice baciloscópico maior ou igual 2,0)
MB com suspeita de persistência da infecção ao fim de 12 doses de PQT-U.
Reações Hansênicas
Conceito:
São respostas inflamatórias exacerbadas que podem ocorrer antes, durante ou após o tratamento da hanseníase, podendo levar à piora da neuropatia e incapacidades físicas.
- São classificadas em:
- Reação Tipo 1 (Reação Reversa):
- Resposta inflamatória aguda com edema e dor em lesões cutâneas.
- Reação Tipo 2 (Eritema Nodoso Hansênico - ENH):
- Síndrome inflamatória sistêmica, caracterizada por nódulos subcutâneos dolorosos e febre.
Tratamento das reações
Adultos - Reação Hansênica tipo 1 ou reação reversa:
Esquema:
Corticoterapia com prednisolona + profilaxia (com albendazol OU ivermectina)
Prednisolona comp. 5mg ou 20mg
> 50 kg: 60 mg ao dia, por 5 meses.
< 50 kg: 45 mg ao dia, por 5 meses.
Realizar redução gradual (desmame) da dose ao final da terapia.
Prednisolona xp. 3 mg/mL
> 50 kg: 60 mg ao dia, por 5 meses.
< 50 kg: 45 mg ao dia, por 5 meses.
Realizar redução gradual (desmame) da dose ao final da terapia.
Albendazol comp. 400mg
Tomar 1 cp, VO, 1 por dia por 3 dias. Antes de iniciar a corticoterapia.
Ivermectina comp. 6mg
Tomar 0,2 mg/kg VO, dose única. Antes de iniciar a corticoterapia.
Dose máxima: 200 microgramas/kg/dia;
Adultos - Reação Hansênica tipo 2 ou eritema nodoso:
Esquema:
talidomida (de escolha) ou pentoxifilina (alternativa).
Talidomida comp. 100mg
Tomar de 100mg a 400mg ao dia conforme a intensidade dos sintomas;
Associar ácido acetilsalicílico se uso associado de corticoterapia;
Ácido acetilsalicílico comp. 100mg
tomar 1 cp VO ao dia.
Indicação de corticoterapia:
Nos pacientes que apresentam quadros associados: orquite, episclerite e/ou neurite aguda (definida pela palpação dos nervos periféricos e pela avaliação da função neural), o tratamento deverá ser feito com corticosteroides, como descrito para a reação tipo 1.
Se a corticoterapia estiver indicada para a reação tipo 2, ela deverá ser administrada nas mesmas doses preconizadas para a reação tipo 1.
Pentoxifilina comp. 400mg
Opção terapêutica para os casos de contraindicação da talidomida e quando não houver indicação para o uso de corticoterapia, como em mulheres com potencial reprodutivo e sem neurite.
Tomar 1 cp, VO, ao dia.
Criança- Reação Hansênica tipo 1 ou reação reversa:
Esquema:
corticoterapia + profilaxia (com albendazol OU ivermectina)
Prednisolona xp. 3 mg/mL
Dose: 1 mg/kg em dias alternados.
Albendazol susp 40mg/mL
≥ 2 anos: dar 10ml, VO, dose única, por 3 dias. Antes de iniciar a corticoterapia.
Ivermectina comp. 6mg
Tomar 0,2 mg/kg VO, dose única. Antes de iniciar a corticoterapia.
Dose máxima: 200 microgramas/kg/dia;
Indicado uso em crianças com > 5 anos de idade ou com mais de 15 kg.
Criança - Reação Hansênica tipo 2 ou eritema nodoso:
Esquema:
Monoterapia com clofazimina.
Clofazimina caps 50 ou 100mg
Dose 1,5 a 2 mg por kg, 3 vezes ao dia no primeiro mês;
Dose 1,5 a 2 mg por kg, 2 vez ao dia no segundo mês;
Dose 1,5 a 2 mg por kg, 1 vez ao dia no terceiro mês.
Não ultrapassar a dose máxima de 300mg ao dia;
Risco de dor abdominal aguda associada a uma sobrecarga de clofazimina.
Se presente a dose diária total deve ser fracionada, administrada com alimentos para reduzir os efeitos gastrointestinais e suspensa por alguns dias no caso de gastroenterite aguda.
Tratamentos de segunda linha
Esquema de segunda linha na falha terapêutica por reação adversa à rifampicina:
Hanseníase paucibacilar (PB):
Dose mensal supervisonada:
Clofazimina300 mg + Ofloxacino 400mg + Minociclina 100mg
Dose diária autoadministrada:
Clofazimina 50mg + Ofloxacino 400mg + Minociclina 100mg
Duração do tratamento de 6 meses
Hanseníase multibacilar (MB):
Dose mensal supervisonada:
Clofazimina 300mg + ofloxacino 400mg (ou minociclina 100mg)
Dose diária autoadministrada:
Clofazimina 50mg + ofloxacino 400mg (ou minociclina 100mg)
Duração de 18 meses subsequentes
Esquema de segunda linha na falha terapêutica por reação adversa à dapsona:
Hanseníase paucibacilar (PB)
Dose mensal supervisonada:
Rifampicina 600mg + clofazimina 300mg + ofloxacino 400mg (ou minociclina 100mg)
Dose diária autoadministrada:
Clofazimina 50mg + ofloxacino 400mg (ou minociclina 100mg)
Duração de 6 meses
Hanseníase multibacilar (MB)
Dose mensal supervisonada:
Rifampicina 600mg + clofazimina 300mg + ofloxacino 400mg (ou minociclina 100mg)
Dose diária autoadministrada:
Clofazimina 50mg + ofloxacino 400mg (ou minociclina 100mg)
Duração de 12 meses
Esquema de segunda linha na falha terapêutica por reação adversa à clofazimina:
Hanseníase paucibacilar (PB)
Dose mensal supervisonada:
Rifampicina 600mg + dapsona 100mg + ofloxacino 400mg (ou minociclina 100mg)
Dose diária autoadministrada:
Dapsona 100mg + ofloxacino 400mg (ou minociclina 100mg)
Duração de 6 meses
Hanseníase multibacilar (MB)
Dose mensal supervisonada:
Rifampicina 600mg + dapsona 100mg + ofloxacino 400mg
Dose diária autoadministrada:
Dapsona 100mg + ofloxacino 400mg (ou minociclina 100mg)
Duração de 12 meses
Referências
- Ministério da Saúde – Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase, 2023.
- Organização Mundial da Saúde – Guidelines for the Diagnosis, Treatment and Prevention of Leprosy, 2023.


