Oclusão arterial aguda em membros inferiores no adulto
CID-10:I73
Considerações gerais
Emergência vascular caracterizada pela oclusão súbita de uma artéria.
Resulta em perda de irrigação e isquemia do segmento corporal correspondente.
Clinicamente, é definida pela hipoperfusão grave de um membro, com início agudo (< 2 semanas).
As principais etiologias são a trombose arterial e a embolia arterial.
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Quadro clínico
Dor intensa e súbita no membro afetado (queixa mais frequente).
Ausência de pulso distal.
Redução da temperatura.
Palidez do membro afetado.
Parestesia.
Paralisia ou redução da força muscular.
Diagnóstico
História clínica:
Em pacientes com doença arterial obstrutiva periférica (DAOP) prévia, com antecedente de claudicação intermitente e alterações tróficas crônicas no membro, deve-se considerar a hipótese de trombose arterial.
Em pacientes com valvopatia ou arritmias, que desenvolvem quadros isquêmicos mais graves e o membro contralateral apresenta todos os pulsos, deve-se considerar a hipótese de embolia arterial.
Exames Laboratoriais
Hemograma.
Coagulograma.
Marcadores de morte celular (CPK, mioglobina).
Avaliação do estado metabólico (ureia, creatinina, eletrólitos, TGO, TGP, gasometria venosa, lactato).
Avaliação de Fontes Embólicas
Eletrocardiograma (ECG) sempre solicitado.
Marcadores de necrose do miocárdio, se suspeita de síndrome coronariana aguda.
Ecocardiograma transtorácico ou transesofágico em casos de endocardite ou estenose de valva mitral.
Consultas e Exames de Imagem
Consultar um cirurgião vascular em casos suspeitos de OAA.
Ultrassonografia (USG) com Doppler colorido: avaliar fluxo e presença de trombos.
Angiotomografia com contraste: padrão-ouro para avaliação vascular.
Índice de Pressão Tornozelo-Braço (ITB): <0,4 sugere isquemia grave.
Diagnósticos diferenciais:
Trombose venosa profunda, cerulea dolens e alba dolens são os principais diagnósticos diferenciais.
Manejo inicial
O manejo inicial da OAA de membros inferiores inclui:
Suporte hemodinâmico e respiratório
Suplmentação com oxigênio.
Controle da dor (descrito em tópico abaixo)
Iniciar com analgésicos simples, porém é comumente necessário a associação com opioides.
Deve-se evitar o uso de antiinflamatórios em pacientes com fatores de risco para injúria renal aguda.
Anticoagulação plena (descrito em tópico abaixo)
É indicado o uso de heparina não fracionada ou heparina de baixo peso molecular em dose plena assim que confirmado o diagnóstico, com a finalidade de reduzir a propagação do trombo intra-arterial.
Em casos de OAA embólica também pode ser benéfico o uso de anticoagulação, considerando a redução do risco de novos eventos embólicos.
Aquecimento do membro
Manter o membro aquecido com enfaixamento frouxo de algodão e ataduras (aquecimento passivo) evita troca de calor com o ambiente externo, contribuindo para o controle da dor e minimizando o dano tecidual adicional.
Não é recomendado o aquecimento do membro com compressas quentes ou aquecedores térmicos, pois o membro acometido apresenta déficit de sensibilidade e, portanto, maior propensão a queimaduras.
Solicitar avaliação imediata de um cirurgião vascular
O tratamento definitivo deve ser avaliado pela equipe da cirurgia vascular, devendo-se individualizar a opção de escolha:
Intervenção cirúrgica aberta
Intervenção endovascular (P. ex. Trombólise intra-arterial)
O tratamento cirúrgico deve ser individualizado a depender da etiologia, localização da oclusão, duração da isquemia e viabilidade do membro.
Em caso de tratamento cirúrgico, o pós-operatório deve ser realizado em UTI, devido ao risco de evoluir com insuficiência renal e de complicações cardiovasculares.
Considerar início de terapias adjuvantes após a revascularização
Em pacientes com histórico de Doença Arterial Obstrutiva Periférica (DAOP) é indicado a prescrição de AAS (80-325 mg/dia) e a prescrição de estatinas também deve ser considerada, visto que elas foram relacionadas à redução da taxa de amputação quando comparadas ao placebo.
Controle da dor
Considerações:
Iniciar com analgésicos simples, porém é comumente necessário a associação com opioides.
Deve-se evitar o uso de antiinflamatórios em pacientes com fatores de risco para injúria renal aguda.
Analgesia simples
Dipirona 500mg ou 1g
Tomar 1 cp de 6/6h (max 4g por dia)
Dipirona 1g/2ml
Aplicar 1 amp (1g) de 6/6h, IV bolus lento, se dor (max 4g por dia)
Paracetamol 500mg ou 750mg
Tomar 1 cp de 6/6h (max 4g por dia)
Opioide (uma das opções abaixo):
Codeína 30mg ou 60mg
Tomar 1 cp de 6/6h (max 360mg por dia)
Tramadol 50mg ou 100mg
Tomar 1 cp de 12/12h (max 400mg por dia)
Morfina 10mg ou 30mg
Tomar 1 cp de 12/12h (max 180mg por dia)
Oxicodona 10mg
Tomar 1 cp de 6/6h (max 120mg por dia)
Morfina 2mg/2ml ou 10mg/1ml
Aplicar 1 amp de 2mg + 100ml SF0,9%, IV lento (max 60mg/dia), OU
Diluir 1 amp de 10mg + 9 mL SF0,9%, e aplicar IV alíquotas de 2 mL conforme necessidade.
Observação:Cuidado com hipotensão e dessaturação
Tramadol 50mg/1ml ou 100mg/2ml
Aplicar 1 ml (50mg) + 100 ml SF0,9%, IV correr lento (max 400mg/dia)
Cloridrato de Nalbufina (Nubain®) 10mg/1ml
Aplicar 1 amp (10 mg) IV, repetir a cada 3-6h S/N (max 160mg/dia)
Dor neuropática (uma das opções abaixo):
Gabapentina comp 300 mg ou 400 mg ou 600 mg
Tomar 1 cp 1- 3 x/dia VO ( max 3600 mg )
Pregabalina 75mg ou 150mg
Tomar 1 cp de 12/12h (max de 600mg por dia)
Amitriptilina 25mg ou 75mg
Tomar 1 cp a noite (max 100mg por dia)
Nortriptilina 25mg ou 50mg ou 75mg
Tomar 1 cp de 8/8h ou 6/6h (max 100mg por dia)
Duloxetina 30mg ou 60mg
Tomar 1 cp uma vez por dia (max 120mg por dia)
Combinações (uma das opções abaixo):
Paracetamol + Codeína 500+30mg
Tomar 1 cp de 6/6h (max 2 cp de 6/6h)
Paracetamol + Tramadol 325+37,5mg
Tomar 1 cp de 6/6h (max 2 cp de 6/6h)
Anticoagulação parenteral
Considerações:
É indicado o uso de heparina não fracionada ou heparina de baixo peso molecular em dose plena assim que confirmado o diagnóstico, com a finalidade de reduzir a propagação do trombo intra-arterial.
Em casos de OAA embólica também pode ser benéfico o uso de anticoagulação, considerando a redução do risco de novos eventos embólicos.
Esquema:
enoxaparina OU heparina não fracionada (IV ou SC).
Enoxaparina seringa 20, 40, 60, 80 ou 100mg
Aplicar 1mg/kg SC, de 12/12h (max 200mg/dia)
Se > 75 anos: 0,75mg/kg de 12/12h
Se TFG ≤ 30 ml/min: 1mg/kg uma vez ao dia
Se > 75 anos e TGF ≤ 30 ml/min: 1mg/kg uma vez ao dia, OU
Heparina não fracionada 25.000U/5ml (intravenosa)
Ataque: 80 U/kg, IV bolus (max 5.000 UI)
50kg: 0,8 ml
70kg: 0,8 ml
90kg: 0,8 ml
Manutenção por infusão: 18 U/kg/h, IV em BIC
Diluir 1 amp (25.000 U) + 245 ml SF0,9%, IV em BIC
50kg: infundir 9 ml/h
70kg: infundir 12 ml/h
90kg: infundir 16 ml/h
Ajustar dose para manter TTPa 1,5-2,0.
Heparina não fracionada 5.000U/0,25ml (subcutâneo)
Aplicar 0,5 a 1ml (10.000 a 20.000 UI), SC, de 12/12h.
Ajustar para manter TTPa 1,5-2,0.
Trombólise sistêmica
O uso de terapia trombolítica sistêmica em paciente com OAA de membros inferiores apresenta resultados divergentes na literatura;
Alguns estudos comprovaram o benefício dessas medicações como forma de revascularização no paciente com OAA, porém com baixo índice de sucesso (40%) e alto risco de sangramento.
Dois ensaios clínicos compararam a administração de rtPA por via intra-arterial com a administração por via intravenosa para tratamento da OAA de membros inferiores.
O rtPA intra-arterial resultou em maior recuperação completa em 30 dias, enquanto a sobrevivência livre de amputação foi semelhante entre as vias.
Observou-se maior incidência de complicações hemorrágicas com rtPA intravenoso em comparação ao rtPA intra-arterial, embora as taxas gerais de complicações tenham sido semelhantes.
- Segundo a European Society of Vascular Surgery (2020), a trombólise sistêmica (intravenosa) não é recomendada para tratamento da OAA de membros inferiores.
Anticoagulação oral
- Esquema:
Uma das opções descritas abaixo.
Geralmente é reservada para profilaxia após a resolução definitiva do quadro, transicionando a anticoagulação parenteral, para via oral.
A duração do tratamento irá depender da causa da OAA, e deve ser individualizada caso a caso.
Varfarina (Marevan®) comp. 5mg
Tomar 1/2 ou 1cp, uma vez ao dia, e ajustar dose para manter INR entre 2-3.
Iniciar juntamente com heparina ou enoxaparina, até atingir INR 2-3 (suspender heparina após 2 dias consecutivos de INR 2-3)
Monitorização periódica do INR.
Manter medicação se paciente com FA.
Dabigatrana (Pradaxa®) comp. 75mg ou 110mg ou 150mg
Dose terapêutica: 150mg de 12/12h
Dose profilática: 110mg no primeiro dia, e após 220mg de 24/24h
Contraindicação: TFG < 30ml/min
Para pacientes sem fonte embólica cardíaca.
Duração: 3 meses se evento transitório ou indefinido (contínuo) se fator de risco persistente.
Rivaroxabana (Xarelto®) comp. 10mg ou 15mg ou 20mg
Dose terapêutica: 15mg de 12/12h por 3 semanas. Após, 20mg de 24/24h
Dose profilática: 10mg de 24/24h
Contraindicação: TFG < 30ml/min
Para pacientes sem fonte embólica cardíaca.
Duração: 3 meses se evento transitório ou indefinido (contínuo) se fator de risco persistente.
Apixabana (Eliquis®) comp. 2,5mg ou 5mg
Dose terapêutica: 10mg de 12/12h por 7 dias. Após, 5mg de 12/12h
Se > 80 anos ou Creatinina >1,5 ou Peso < 60kg:
Dose de 2,5mg de 12/12h
Dose profilática: 2,5mg de 12/12h
Contraindicação: TFG < 15ml/min
Para pacientes sem fonte embólica cardíaca.
Duração: 3 meses se evento transitório ou indefinido (contínuo) se fator de risco persistente.
Edoxabana (Lixiana®) comp. 15mg ou 30mg ou 60mg
Dose terapêutica: 60mg de 24/24h
Se TFG 15-50 ou Peso ≤60kg:
Dose de 30mg de 24/24h
Dose profilática: não consta nas diretrizes.
Contraindicação: TFG < 15ml/min
Para pacientes sem fonte embólica cardíaca.
Duração: 3 meses se evento transitório ou indefinido (contínuo) se fator de risco persistente.
Referências
- Medicina de emergência : abordagem prática/ professor titular e coordenador Iríneu Tadeu Velasco ; editor chefe Rodrigo Antonio Brandão Neto ; editores Heraldo Possolo de Souza ... [et ai.]. - 13. ed., rev., atual. e ampl. - Barueri [SP]: Manole, 2019.
- HAJJAR,L.A. Medicina na Emergência USP: abordagem prática,18 ed. São Paulo: Malone 2024.
- European Society of Vascular Surgery. Guidelines for Acute Limb Ischemia, 2020.


