Exacerbação da asma (< 6 anos)

CID 10: J45

Outros temas:

Considerações gerais

  • A exacerbação da asma é caracterizada por um aumento progressivo dos sintomas de dispneia, tosse, sibilos, sensação de aperto no peito e diminuição progressiva da função pulmonar, representando uma alteração no estado basal do paciente que exige uma mudança no tratamento.

  • Uma breve história e exame físico devem ser realizados simultaneamente com início imediato da terapia.

    • Hora do início e possível causa da presente exacerbação 

    • Gravidade dos sintomas

    • Se existe sintomas de anafilaxia

    • Fatores de risco para morte relacionada à asma

    • Todos os medicamentos de alívio e manutenção usados anteriormente.

    • Verificar fatores desencadeantes:

      • Alérgenos;

      •  Infecções respiratórias;

      •  Exercício físico

      •  Fatores emocionais

      •  Rinite alérgica ou sinusite

      •  Medicamentos (AINEs e betabloqueadores).

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Classificação de gravidade

A classificação de exacerbações agudas de asma em crianças de 5 anos ou menos, segundo o GINA 2024 leva em consideração os seguintes critérios:

  • Leve / moderada:

    • Sem alteração do nível de consciência

    • Oximetria na apresentação (SpO2): >95% em ar ambiente

    • Consegue formular frases e sentenças (considerar o estágio de desenvolvimento da criança) 

    • Frequência cardíaca (FC) <100 bpm

    • Frequência respiratória (FR) ≤40 ipm

    • Ausência de cianose central

    • Intensidade do sibilo variável

  • Grave / muito grave:

    • Agitado, confuso ou sonolento

    • Oximetria na apresentação (SpO2): <92% em ar ambiente

    • Consegue expressar apenas palavras isoladas

    • Frequência cardíaca (FC) >180 bpm (0-3 anos)

    • Frequência cardíaca (FC) >150 bpm (4-5 anos)

    • Frequência respiratória (FR) >40 ipm

    • Presença provável de cianose central

    • Possível tórax silencioso


  • Observação:

    • Há risco de superestimação da saturação de oxigênio com oximetria de pulso em pessoas de pele negra, predispondo um possível quadro de “hipoxemia oculta”.


  • Frequência respiratória normal (GINA, 2024):

    • 0–2 meses: < 60 ipm 

    • 2–12 meses: < 50 ipm

    • 1–5 anos: < 40 ipm

Fluxograma de manejo


Oxigenioterapia

  • Oxigênio suplementar:

    • Administrar oxigênio suplementar se SpO2 <92%, por máscara ou cateter nasal, para manter a saturação em 94 a 98%.


  • Observação:

    • Há risco de superestimação da saturação de oxigênio com oximetria de pulso em pessoas de pele negra, predispondo um possível quadro de “hipoxemia oculta”.

SABA

Ir para Calculadora de doses na emergência pediátrica (secção broncodilatadores).


β2 inalatório de ação curta (SABA):
  • Em spray com espaçador:

    • Salbutamol Spray 100mcg/puff 

      • Aplicar 2 (leves) a 6 (graves) puffs a cada 20 minutos durante a primeira hora, depois reavaliar a gravidade (na prática normalmente se considera 1 puff para cada 3 kg, sendo no máximo 10 puffs).

      • Se os sintomas persistirem ou retornarem, administrar doses adicionais de 2 a 3 puffs por hora.

      • Se os sintomas melhorarem e o paciente receber alta, manter uso sob demanda ou 2 puffs a cada 4 a 6 horas por , se necessário).

    • Fenoterol Spray 100mcg/puff (alternativa na ausência de salbutamol)

      • Aplicar 2 (leves) a 6 (graves) puffs a cada 20 minutos durante a primeira hora, depois reavaliar a gravidade (na prática normalmente se considera 1 puff para cada 3 kg, sendo no máximo 10 puffs).

      • Se os sintomas persistirem ou retornarem, administrar doses adicionais de 2 a 3 puffs por hora.

      • Se os sintomas melhorarem e o paciente receber alta, manter uso sob demanda (2 puffs a cada 4 a 6 horas, se necessário).


  • Nebulização:

    • Salbutamol Solução 5mg/ml

      • Nebulização com 2,5 mg (ou 0,15 mg/kg/dose) + 3-4 ml SF0,9%, a cada 20 min na primeira hora, depois reavaliar a gravidade.

      • Se os sintomas persistirem ou retornarem, administrar doses adicionais conforme necessidade.

    • Fenoterol Solução 5mg/ml (alternativa na ausência de salbutamol)

      • Nebulização com 0,05 mg/kg/dose + 3-4 ml SF0,9%, a cada 20 min na primeira hora, depois reavaliar a gravidade.

      • Se os sintomas persistirem ou retornarem,  administrar doses adicionais conforme necessidade.

Corticoide sistemico


Corticoterapia sistêmica:
  • Prednisolona sol. oral 3 mg/mL

    • Dose de 1 a 2 mg/kg/dia VO por 3- 5 dias, preferencialmente pela manhã.

    • Dose máxima: 

      • 20 mg/dia em crianças de 0 a 2 anos.

      • 30 mg/dia em crianças de 3 a 5 anos.

  • Dexametasona elixir 0,5mg/5mL (alternativa na ausência de prednisolona)

    • Dose de 0,1 a 0,3 mg/kg/dia VO por 3-5 dias, preferencialmente pela manhã.

    • Dose máxima: 

      • 3 mg/dia em crianças de 0 a 2 anos.

      • 4,5 mg/dia em crianças de 3 a 5 anos.

  • Metilprednisolona pó inj.125 mg ou 500 mg

    • Casos graves: 1 mg/kg IV a cada 6h no 1º dia. Após, 1 a 2 mg/kg/dia, IV, por 3- 5 dias (até 20 mg/dia em crianças de 0 a 2 anos e 30 mg/dia em crianças de 3 a 5 anos).

    • Reconstituir 125 mg do medicamento em 2 mL de diluente próprio OU 500 mg do medicamento em 8 mL de diluente próprio, e aspirar o volume recomendado.

    • Diluição: Se desejado, diluir o medicamento reconstituído em 50-200 mL de SF 0,9%, SG 5% em água ou em SF 0,45% ou 0,9%. Diluir na concentração de 2,5-20 mg/mL.

  • Dexametasona inj. 10mg/2,5mL (alternativa na ausência de metilprednisolona)

    • Aplicar 0,04 a 0,15 mL/kg/dia IV ou IM (a cada 24h ou fracionar a cada 12h).

    • Dose: 0,15 a 0,6 mg/kg/dia.

    • Obs: 0,3 mg/kg de dexametasona é equivalente a 2 mg/kg de prednisona.

Ipratrópio

Anticolinérgico:

  • Reservado para crises graves ou quando a resposta inicial ao SABA é insatisfatória.

  • Em spray com espaçador:

  • Brometo de Ipratrópio 20 mcg/puff

    • 1 a 2 puffs, se ausência de resposta inicial ao salbutamol.

  • Em nebulização:

Casos refratários

Sulfato de magnésio:

  • Indicado somente para quadros graves, sem resposta ao tratamento com SABA, ipratrópio e corticoide sistêmico. 

  • O uso é mais estabelecido para maiores de 2 anos, e pode ser administrado via nebulização ou intravenoso.

  • Sulfato de magnésio isotônico nebulizado

    • Administrar 150 mg, 3 doses, na primeira hora de tratamento para crianças com idade 2 anos com exacerbação grave.

  • Sulfato de magnésio inj. 1g/mL (10%)

    • Dose única de 40-50 mg/kg (máximo 2g) via infusão IV lenta (20-60 min). 


Terbutalina:

  • Normalmente é reservada para casos onde a terapia inalatória com SABA não é possível.
  • Intravenoso: 
    • Terbutalina sol. inj. 0,5mg/1mL
      • Diluir 5 mg (10 ampolas) + 1.000 mL de SG5% (concentração: 5 mcg/mL). 
      • Dose inicial em IV bolus de 2 mcg/kg durante 5 minutos. 
      • Seguida de infusão contínua 5 mcg/kg/h. 
  • Subcutâneo:
    • Terbutalina sol. inj. 0,5mg/1mL 
      • Adultos: 0,5 mL a 1 mL por via subcutânea, até o máximo de quatro vezes ao dia. 
      • Crianças: ¼ a ½ da dose do adulto, por via subcutânea, até o máximo de quatro vezes ao dia 
      • Obs: a dose de 0,5 mg não deverá ser excedida em um período de 4 horas.


Epinefrina:

  • Indicado se suspeita de quadro anafilático associado, podendo apresentar angioedema ao exame (Ir para Anafilaxia).

  • Epinefrina 1mg/ml

    • Aplicar 0,01 mL/kg (max 0,3 mL) IM na face ântero-lateral da coxa, podendo repetir dose em até 2 vezes, em intervalos de 5 a 15 min (monitorar toxicidade pela frequência cardíaca).

    • Dose: 0,01 mg/kg/dose (máximo 0,3 mg/dose).

Corticoide Inalatório

Considerações:

  • Caso a criança receba alta após o controle do episódio de exacerbação, o uso de corticoides inalatórios pode ser considerado.
    • Para crianças que não faziam uso de CI anteriormente, uma dose inicial de duas vezes a dose diária (dose dobrada) pode ser administrada e continuada por algumas semanas ou meses, com orientações de retorno ambulatorial para ajuste ou suspensão.
    • Para crianças que já faziam uso de CI, este deve ser mantido, com orientações de retorno ambulatorial para ajuste.
  • O uso de corticoide inalatório em doses baixas já é capaz de promover o benefício clínico suficiente para a maioria das crianças com asma. Doses mais altas estão associadas a maiores riscos de eventos adversos, devendo-se avaliar o risco-benefício.
  • As doses abaixo estão classificadas como "baixa", considerando a faixa de idade ≤ 5 anos.


Corticoides inalatórios:

  • Budesonida susp.para nebulização 0,25 mg/mL e 0,50 mg/mL 

    • Dose baixa: 0,5 mg/dia, via nebulização.

    • Segurança comprovada para maiores de 1 ano.

  • Propionato de Fluticasona DPD HFA (Flixotide spray®) (60 ou 120 doses) 50mcg

    • Dose baixa: 50 mcg/dia. Utilizar com espaçador.

    • Segurança comprovada para maiores de 4 anos

  • Dipropionato de Beclometasona DPI cápsulas (60 doses) 100mcg

    • Dose baixa: 100 mcg/dia. Utilizar com espaçador.

    • Segurança comprovada para maiores de 5 anos

  • Dipropionato de Beclometasona DPD HFA partícula extrafina (Clenil spray®) (200 doses) 50mcg

    • Dose baixa: 50 mcg/dia. Utilizar com espaçador.

    • Segurança comprovada para maiores de 5 anos

Critérios de alta e seguimento

  • Considerar alta da emergência se
    • Resposta rápida ao tratamento inicial.
    • Ausência de sinais de gravidade.
    • Completa recuperação funcional (PFE > 70% e oximetria de pulso, se disponível, com saturação > 95% em ar ambiente).

    • Salbutamol inalatório sob demanda ou 100 mcg 4 a 6x/dia por 3 dias. 
      • Após, a dosagem de salbutamol deve ser desmamada conforme tolerado, com o objetivo de descontinuar no 5º a 7º dia.
    • Corticoide oral por 5 dias (se houve necessidade de corticoterapia no atendimento da emergência).
    • Considerar início de corticoide inalatório para as crianças que não faziam uso prévio (descrito em tópico acima).

Referências

  • Global Initiative for Asthma. Global Strategy for Asthma Management and Prevention, 2024.

  • Global Initiative for Asthma. Global Strategy for Asthma Management and Prevention, 2023.

  • Recomendações para o manejo da asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia – 2020. J Bras Pneumol. 2020.

  • DUNCAN, Bruce B. et al. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 4. ed.

  • Firmida M, Borgli D. Abordagem da exacerbação da asma em pediatria. - Revista de Pediatria SOPERJ. 2017;17(supl 1)(1):36-44

Autoria e Curadoria

As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.