Esteatose hepática no adulto
CID-10: K76
Informações gerais
Doença hepática esteatótica metabólica (DHEM):
Espectro de manifestações hepáticas associadas a distúrbios metabólicos e cardiovasculares, como obesidade e/ou distribuição desfavorável de gordura, resistência à insulina, hipertensão arterial, dislipidemia e diabetes tipo 2 (DM2).
Caracterizada pelo aumento do conteúdo de gordura no fígado (ultrapassando 5% do parênquima hepático) e pode ser classificada como esteatose (quando há apenas excesso de gordura no fígado, com mínima inflamação) ou esteato-hepatite (quando há inflamação lobular e balonização de hepatócitos, com ou sem fibrose).
Classificações de Esteatose Hepática:
Alcoólicas: provocadas pelo consumo excessivo de álcool (regular ou esporádico);
Não alcoólicas: provocadas por hábitos e estilos de vida inadequados.
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Diagnóstico e sintomas
Diagnóstico envolve exames laboratoriais e de imagem:
Transaminases (ALT/AST):
Se ALT > AST: sugestivo de DHEM.
Se relação AST/ALT > 1: sugestivo de fibrose avançada.
Observação:
ALT = TGP
AST = TGO
Perfil Lipídico e Glicêmico: Importante para avaliação da síndrome metabólica.
Ferritina e Índice de Fibrose Hepática: Marcadores de fibrose avançada.
Elastografia Hepática: Avaliação de fibrose hepática.
Biópsia Hepática: Indicada em casos selecionados para avaliar fibrose avançada.
Sintomas e sinais:
Doença não provoca sintomas, estes são percebidos quando aparecem as complicações da doença.
Inicialmente, as queixas são dor, cansaço, fraqueza, perda de apetite e aumento do fígado.
Nos estágios mais avançados de esteato-hepatite, caracterizados por inflamação e fibrose que resultam em insuficiência hepática, os sintomas mais frequentes são ascite (acúmulo anormal de líquido dentro do abdome), encefalopatia (doenças no encéfalo) e confusão mental, hemorragias, queda no número de plaquetas do sangue, icterícia (pele e olhos amarelados).
Manejo não medicamentoso
- Perda ponderal:
- Em adultos com DHEM, deve-se recomendar a perda de peso induzida por terapia dietética e comportamental, visando à melhora da lesão hepática.
- Meta de perda ponderal:
- Redução sustentada de ≥ 5% para diminuir o acúmulo de gordura hepática.
- Redução sustentada de 7–10% para melhorar o processo inflamatório.
- Redução sustentada de ≥10% para favorecer a regressão da fibrose.
- Padrão alimentar de melhor qualidade:
- Semelhante à dieta mediterrânea: restrição ao consumo de alimentos ultraprocessados ricos em açúcares e gorduras saturadas, além da evitação de bebidas adoçadas com açúcar.
- Redução de alimentos ricos em gorduras e carboidratos simples, evitar bebidas industriais adocicadas (como refrigerantes, sucos) e alimentos pré-preparados.
- Aumentar ingesta de alimentos ricos em fibras, peixes ricos em ômega 3 (salmão, sardinha) e preferir carnes brancas, entre outras.
- Prática regular de atividade física:
- Idealmente > 150 minutos/semana de exercício em intensidade moderada ou 75 minutos/semana em intensidade vigorosa.
- Ajustar de acordo com as preferências e limitações individuais.
- Outras medidas importantes:
- Cessar uso de bebidas alcóolicas.
- Tratar comorbidades, como diabetes, hipertensão e dislipidemia.
- Considerações:
- Em adultos com DHEM e peso normal, as intervenções baseadas em dieta e exercício devem ser igualmente indicadas para reduzir a gordura hepática.
Manejo medicamentoso
- Considerações:
- O tratamento medicamentoso geralmente é reservada para pacientes que não atingem as metas de perda de peso e apresentam DHEM comprovado por biópsia, associado a fibrose em estágio ≥ 2. A estratégia terapêutica também deve levar em consideração a presença de diabetes tipo 2.
- Esquema:
- Tratamento medicamentoso em pacientes diabéticos:
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- Primeira linha: Pioglitazona OU Agonistas do receptor do GLP-1.
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- Segunda linha: Inibidores do SGLT2.
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- Alternativa: Metformina.
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- Evitar vitamina E em pacientes diabéticos.
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- Tratamento medicamentoso em pacientes não diabéticos:
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- Vitamina E.
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- Considerar Agonistas do receptor do GLP-1 em paciente obesos.
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- Tratamento específico para DHEM:
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- Resmetirom (não disponível no Brasil).
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- Glitazona
- Pioglitazona comp. 15mg ou 30mg ou 45mg
- Dose: 15 a 45 mg /dia
- Frequência: 1x/dia.
- Pioglitazona comp. 15mg ou 30mg ou 45mg
- Agonistas do receptor do GLP-1
- Liraglutida (Victoza®, Saxenda®) inj. 18mg/3ml
- Regulável para aplicar 0,6 ou 1,2 ou 1,8 ou 2,4 ou 3mg por aplicação.
- Dose: 0,6 a 1,8 mg/dia, subcutâneo.
- Frequência: 1x/dia.
- Liraglutida (Victoza®, Saxenda®) inj. 18mg/3ml
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- Dulaglutida (Trulicity®) inj. 0,75mg/caneta ou 1,5mg/caneta
- Canetas de uso único.
- Dose: 0,75 a 1,5 mg /semana, subcutâneo.
- Frequência: 1x/ semana.
- Dulaglutida (Trulicity®) inj. 0,75mg/caneta ou 1,5mg/caneta
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- Semaglutida (Ozempic®) inj. 2,01mg/1,5ml (1,34mg/ml)
- Regulável para aplicar 0,25 ou 0,5mg por aplicação.
- Dose: 0,25 a 1 mg /semana, subcutâneo.
- Frequência: 1x/semana.
- Semaglutida (Ozempic®) inj. 2,01mg/1,5ml (1,34mg/ml)
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- Semaglutida (Rybelsus®) comp. 3mg ou 7mg ou 14mg
- Dose: 3 a 14 mg /dia.
- Frequência: 1x/dia.
- Semaglutida (Rybelsus®) comp. 3mg ou 7mg ou 14mg
- Inibidores do SGLT2
- Dapagliflozina (Forxiga®) comp. 5mg ou 10mg
- Dose: 10 mg /dia
- Frequência: 1x/dia
- Dapagliflozina (Forxiga®) comp. 5mg ou 10mg
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- Empagliflozina (Jardiance®) comp. 10mg ou 25mg
- Dose: 10 a 25 mg /dia
- Frequência: 1x/dia
- Empagliflozina (Jardiance®) comp. 10mg ou 25mg
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- Canagliflozina (Invokana®) comp. 100mg ou 300mg
- Dose: 100 a 300 mg /dia
- Frequência: 1x/dia
- Canagliflozina (Invokana®) comp. 100mg ou 300mg
- Vitamina E
- Vitamina E comp. 400 a 800 UI
- Tomar 800 UI, VO, uma vez ao dia.
- Indicada para pacientes com DHEM sem diabetes e com esteato-hepatite e sinais de fibrose hepática.
- Considerações:
- O uso não é indicado para pacientes diabéticos. Não há evidências suficientes para se recomendar o uso de vitamina E para o tratamento da DHEM em pessoas com DM2. Alguns estudos indicaram piora da inflamação em pacientes diabéticos.
- O uso não é indicado para paciente com histórico pessoal ou familiar de câncer de próstata.
- Vitamina E comp. 400 a 800 UI
- Biguanidas
- Metformina comp. 500 ou 850 mg
- Tomar 1 cp, VO, de 1-4 vezes ao dia (máximo 2.550 mg/dia).
- Considerações:
- A metformina não está associada a benefícios específicos relacionados à DHEM.
- Observou-se nos estudos que, apesar da melhora do controle glicêmico, houve redução apenas modesta de enzimas hepáticas, e não houve benefícios sobre a rigidez hepática, um marcador de fibrose. A metformina também não levou à melhora nos parâmetros inflamatórios, radiológicos e histológicos relacionados à DHEM, apesar de promover redução de peso e da hemoglobina A1c.
- Metformina comp. 500 ou 850 mg
- Agonistas do receptor de hormônio tireoidiano direcionados ao fígado
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- Resmetirom comprimidos 60, 80 e 100 mg (não disponível no Brasil)
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O uso deve ser considerado em adultos com DHEM não cirrótico e fibrose hepática significativa (estágio ≥2).
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Esse fármaco demonstrou eficácia histológica tanto na esteato-hepatite quanto na fibrose.
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- Resmetirom comprimidos 60, 80 e 100 mg (não disponível no Brasil)
Outras medicações (off-label)
Considerações:
As opções seguintes são citadas pelas diretrizes, mas não há evidência científica robusta de eficácia que sustente a recomendação dessas medicações.
Uso off-label.
Orlistat (xenical) comp. 120mg
Tomar 1 cp VO 3x/dia, nas refeições principais (durante ou até 1 hora após cada refeição);
Usado como droga auxiliar para o controle do peso corporal, mas não age diretamente sobre a esteatose.
Ômega 3 caps. 1000mg
Tomar 1 cápsula, VO ao dia.
Rastreio de fibrose
- O rastreio para avaliação do risco de fibrose avançada associada à DHEM é recomendado em todos os adultos com pré-diabetes ou diabetes tipo 2.
- O rastreio pode ser realizado com escores clínicos-laboratoriais como o Fibrosis-4 (FIB-4).
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- Disponível através do link: https://www.hepatitisc.uw.edu/page/clinical-calculators/fib-4.
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- Interpretação:
- FIB-4 ≥ 1,3: sugere risco indeterminado ou alto de fibrose avançada (sensibilidade de 84,4% e especificidade de 68,5).
- Nesses casos (FIB-4 ≥ 1,3), deve-se realizar investigação adicional com elastografia transitória.
- FIB-4 ≥ 1,3: sugere risco indeterminado ou alto de fibrose avançada (sensibilidade de 84,4% e especificidade de 68,5).
- Interpretação:
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- FIB-4 for < 1,3: descarta-se o risco de fibrose avançada (valor preditivo negativo de 91%).
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- Observações:
- O FIB-4 é calculado a partir de dados clínicos e laboratoriais, que incluem idade, níveis de alanina aminotransferase (ALT), aspartato aminotrasferase (AST) e contagem de plaquetas.
- Observações:
Encaminhamento para gastroenterologia
- Elevação persistente de transaminases sem melhora após 6 meses de tratamento na Atenção Primária à Saúde (APS).
- Suspeita de fibrose hepática avançada/cirrose por presença de:
- Plaquetopenia <150.000/mm³ (sugestivo de fibrose avançada);
- Sinais clínicos de cirrose (por exemplo: eritema palmar, aranhas vasculares, icterícia);
- Achados ecográficos de cirrose (por exemplo: fígado irregular, esplenomegalia, ascite);
- Ferritina acima de 1,5 vezes o limite superior da normalidade.
Referências
- Silva Júnior WS, Valério CM, Araujo-Neto JM, Godoy-Matos AF, Bertoluci M. Doença hepática esteatótica metabólica (DHEM). Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2024).
- EASL – European Association for the Study of the Liver: Guidelines for NAFLD, 2024.
- AASLD – American Association for the Study of Liver Diseases: Management of Fatty Liver Disease, 2023.


