Crise convulsiva na criança
Definição
- Manifestações físicas resultantes de descargas elétricas no cérebro. Elas podem se manifestar como movimentos involuntários em certas partes do corpo ou como tremores generalizados.
- A epilepsia é a condição que se caracteriza pela ocorrência frequente de convulsões.
- Estado do mal epilético (EME):
- Define-se como uma crise epiléptica prolongada, capaz de se tornar-se uma condição duradoura e invariável e suplantar os mecanismos orgânicos da homeostase
- Considera-se Estado Epiléptico quando:
- Duração crise deve durar mais de 5 minutos, OU
- Crises reentrantes que ocorrem em sequência, sem recuperação da consciência, com duração maior que 30 minutos.
Causas
- Fatores como uso ou falta de medicação
- Infecções
- Traumas cranianos
- Tumores
- Hemorragias intracranianas
- Doenças genéticas
- Febre pode desencadear convulsões
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Apresentação clínica e tipos
- Crise focal: afeta região específica do cérebro. Pode ou não haver alteração de consciência.
- Crise generalizada: envolve ambos hemisférios cerebrais desde o início. Exemplos: tônico-clônica, ausência, mioclônica, atônica.
- Crises de ausência: perda breve da consciência com olhar fixo.
- Crises atônicas: perda súbita do tônus muscular.
- Convulsão Febril (discutido em tema a parte):
- Simples: duração <15 min, generalizada, única em 24h.
- Complexa: duração >15 min, focal, ou recorrente em 24h.
Conduta inicial na emergência
Medidas gerais:
Colocar o paciente em um local seguro, mantendo posição neutra da cabeça.
MOV:
Monitorização (monitor cardíaco, oxímetro de pulso, pressão arterial não invasiva).
Oxímetro / Oxigenioterapia.
Obter acesso venoso.
Avaliar dextro:
Em caso de hipoglicemia: Glicose 10% IV bolus 2,5 mL/kg de peso. Se hipoglicemia refratária após 15 a 20 minutos, repetir bolus IV.
Se não for possível acesso venoso periférico:
Glucagon inj. 1 mg/1mL
Dose: 0,03 mg/kg IM ou SC ( máximo 1 mg).
Alternativa prática: 0,5 mg (se < 25kg) ou 1 mg (se > 25 kg).
Esquema terapêutico
Primeira linha:
Com acesso venoso (uma das opções):
Diazepam IV
Midazolam IV
Lorazepam IV (não disponível no Brasil)
Sem acesso venoso (uma das opções):
Midazolam IM, bucal ou intranasal (apresentações bucal ou intranasal não disponíveis no Brasil).
Diazepam via retal
Lorazepam IM (não disponível no Brasil)
Se houver persistência após 5 minutos, uma dose adicional pode ser considerada (SBP, 2023).
Segunda linha:
Considerar a segunda linha em caso de crises persistentes após o tratamento de primeira linha.
Drogas de escolha:
Fenitoína IV
Terceira linha:
Considerar terceira linha em casos persistentes de crise com o tratamento da segunda linha
Droga de escolha:
Fenobarbital IV
Quarta linha:
Em casos que não haja resolução da crise caracteriza-se o EME refratário.
Encaminhar o paciente para UTI, preparação para IOT.
As opções terapêuticas incluem Midazolam intravenoso contínuo, tiopental e propofol (na UTI).
OBSERVAÇÃO: o esquema citad acima não é válido para pacientes Recém Nascidos (termo: 28 dias de vida e pré termo: idade cronológica corrigida de 28 dias de vida).
Primeira linha
Esquema:
Com acesso venoso (uma das opções):
Diazepam IV
Midazolam IV
Sem acesso venoso (uma das opções):
Midazolam IM ou intranasal.
Diazepam intranasal ou via retal
Com acesso venoso (uma das opções - nesta via preferir o diazepam):
Diazepam sol. inj. concentração 5 mg/mL.
Aplicar IV bolus 0,2 a 0,6 mg/kg/dose (máx 10 mg/dose)
Convulsão persiste por mais que 5 minutos? repetir a dose (respeitando a dose máxima de 0,6 mg/kg/dia)
Midazolam sol. inj. concentração 5 mg/mL.
Aplicar IV bolus 0,2 a 0,6 mg/kg/dose (máx 5 mg/dose)
Convulsão persiste por mais que 5 minutos? repetir a dose (respeitando a dose máxima de 0,6 mg/kg/dia)
Sem acesso venoso (uma das opções):
Intramuscular
Midazolam sol. inj. concentração 5 mg/mL:
Dose: 0,2 mg/kg em dose única, máximo de 10 mg;
Dose fixa alternativa de:
5 mg para pacientes de 13 a 40 kg ou
10 mg para pacientes com mais de 40 kg
Intranasal
Midazolam sol. inj. concentração 5 mg/mL:
Dose: 0,2 mg/kg de solução parenteral por dose, dividir a dose entre as narinas, dose única máxima de 10 mg (recomenda-se o uso de um atomizador mucoso), podendo repetir uma vez a cada 10 minutos;
Observação: crianças ≥12 anos, spray nasal de midazolam 5 mg (uma aplicação) em uma narina, podendo repetir a cada 10 minutos.
Diazepam sol. inj. concentração 5 mg/mL:
A dosagem de diazepam intranasal é fixa e varia de acordo com a idade e o peso.
Crianças de 2 a 5 anos: 0,5 mg/kg
Crianças de 6 a 11 anos: 0,3 mg/kg
Via retal
Diazepam sol. inj. concentração 5 mg/mL.
Aplicar 0,5 mg/kg, máximo 20 mg.
Segunda linha
Considerar solicitar vaga de UTI, o paciente já se encontra em Estado do mal epilético (EME)
Considerar a segunda linha em caso de crises persistentes APÓS pelo menos duas doses de um benzodiazepínico (dose máxima total de 0,6 mg/kg)
Primeira droga de escolha: Fenitoína OU Fosfenitoína (preferível) ou
Alternativa: Valproato
A fosfenitoína é considerada preferível pois não exige o excipiente propileno glicol; ela apresenta menos risco de hipotensão e disritmia cardíaca; ela não causa séria reação de extravasamento, síndrome da luva roxa; e pode ser administrada via intramuscular quando o acesso intravenoso não for possível.
Fenitoína inj. 250mg/5mL
Dose Ataque: 10 a 20 mg/kg/dose, IV (máx 1.000 mg/dia ou 30 mg/kg/dia).
Se a crise convulsiva persistir após 15 minutos, realizar dose adicional de 10 mg/kg se necessário (dose máxima 30 mg/kg/dia)
Orientações:
Diluição: 50-100 mL de SF 0,9% (não diluir em SG 5%).
Infusão: em 30 minutos
Manter monitorização cardíaca
Se cessar crise convulsiva, no dia seguinte se prescrever dose de manutenção 5-10 mg/kg/dia de 12/12h EV ou VO
Fosfenitoína (Cerebyx®) inj. 75 mg/mL (equivalente a 50 mg/mL de fenitoína)
Dose: 20 mg PE/kg, IV (máx 1.000 mg PE) (PE: equivalentes da fenitoína).
Orientações:
Diluição: diluir em SF 0,9% o necessário para obter concentração de 1,5 a 25 mg/mL (bula Cerebyx®).
Infusão: em 30 minutos
Manter monitorização cardíaca.
Valproato sol. inj. 100 mg/ml
Dose de ataque de 20 a 40 mg/kg IV (diluído 1:1 com SF 0,9% ou SG 5%) durante 5 a 10 minutos (máximo de 3000 mg por dose) e pode ser repetido após 10 a 15 minutos
Manter monitorização cardíaca.
Terceira linha
Fenobarbital sol. inj. 200mg/2mL
Dose: 10- 20 mg/kg, IV em 10 min (máx 1000 mg/dia ou 40 mg/kg/dia).
Se a crise convulsiva persistir após 15 minutos, realizar dose adicional de 20 mg/kg se necessário (dose máxima 40 mg/kg/dia)
Orientações:
Diluição: infusão lenta, sem necessidade de diluição
Infusão: 5-10 minutos
Manter monitorização cardíaca
Se cessar crise convulsiva, no dia seguinte se prescrever dose de manutenção 5 mg/kg/dia de 12/12h EV ou VO
Quarta linha
Em casos que não haja resolução da crise com a terceira linha de tratamento, caracteriza-se o EME refratário.
O paciente deve ser encaminhado para UTI.
As opções terapêuticas para indução anestésica incluem:
Midazolam, tiopental ou propofol (intravenoso contínuo em bomba de infusão) sendo necessário intubação e monitorização continua.
O manejo deve ser realizado em unidade intensiva, preferencialmente aos cuidados do Intensivista Pediátrico.
Complicações
- Complicações possíveis em situações de Estado de Mal Epiléptico:
- Hipoxemia
- Acidemia
- Hiperglicemia (fase inicial) ou hipoglicemia (EME prolongado)
- Hipertensão (fase inicial) ou hipotensão (EME prolongado)
- Hipertermia
- Rabdomiólise
- Hipercalemia
- Mioglobinúria
- Insuficiência renal aguda
Convulsão febril
- Ir para Convulsão Febril.
- Trata-se de um evento benigno que ocorre em crianças a partir de 6 meses de idade, geralmente associado a febres que não são resultantes de infecções no sistema nervoso central.
- Essas convulsões se manifestam em crianças sem histórico de crises neurológicas. Aproximadamente 5% das crianças com até 5 anos podem apresentar esse tipo de convulsão.
- Elas podem ser classificadas como:
- Simples: ocorrem em mais de 80% dos casos e duram menos de 15 minutos.
- Recorrentes: na mesma condição febril, que podem incluir déficits focais. As convulsões complexas, por sua vez, têm uma duração superior a 15 minutos.
- É indicado investigação adicional se crise convulsiva febril recorrente ou prolongada (> 5min).
- Exames a ser solicitados: Eletroencefalograma; Tomografia ou ressonância de crânio; Eletrólitos; Cálcio; Fósforo; Magnésio; Hemograma; Glicemia; Urina; Creatinina; Liquor se suspeita de meningite com cultura.
Referências
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Estado de mal epiléptico. Diagnóstico e tratamento. Data de Aprovação: 11/06/2018.
- Sociedade brasileira de Pediatria. Management protocols for status epilepticus in the pediatric emergency room: systematic review article. Artigo de revisão julho de 2017.
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Convulsão e epilepsia, Informativo para as Escolas Fevereiro de 2023.
- Pronto Socorro. Coordenadores Cláudio Schartsman,editores da coleção Clóvis Artur Almeida da Silva,Filumena Maria da Silva Gomes,Magda Carneiro-Sampaio. 4.ed. Malone 2023.
- Label. Buccolam. European Medicines Agency.
- Revista de associação médica brasileira.Alternativa para sedação pré-anestésica e para procedimentos em crianças: uso do midazolam intranasal.2013
- Bula do profissional de saúde: Fenobarbital, CRISTÁLIA - Produtos Químicos Farmacêuticos Ltda ,2014.


