Sangramento uterino anormal (SUA)

CID-10: N93

Aspectos gerais e classificação

  • Anormalidades em quantidade, duração e frequência de sangramento de origem uterina, na ausência de gravidez.

  • Classificação da SUA:

    • De acordo com a causa (PALM-COEIN):

      • Causas estruturais:

        • Pólpo;

        • Adenomiose;

        • Leiomioma (mioma);

        • Malignidade e hiperplasia.

      • Causas não estruturais:

        • Coagulopatia;

        • Disfunção Ovulatória;

        • Desordens Endometriais;

        • Iatrogênica;

        • Não classificado de outra forma.

    • De acordo com o tempo de evolução:

      • SUA Aguda

        • Episódio de sangramento intenso, na ausência de gravidez, em quantidade suficiente para determinar necessidade de intervenção imediata e pode ocorrer em vigência a um quadro crônico.

      • SUA Crônica:

        • Quadro que persiste por mais de seis meses e não necessita de intervenção médica imediata.

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Manejo inicial

  • Para iniciar o tratamento, deve-se considerar:

    • Cronicidade;

    • Causa;

    • Gravidade do sangramento;

    • Sintomas associados;

    • Comorbidades;

    • Planejamento reprodutivo

    • Riscos para tromboembolismo venoso;

    • Preferências da paciente.

  • Pacientes com SUA que não apresentam suspeita de alterações estruturais ou histológicas e para aquelas com leiomiomas que não distorcem a cavidade uterina, o manejo farmacológico é a medida inicial.





Manejo da fase aguda

O manejo da SUA na fase aguda com sangramento volumoso deve levar em consideração os seguintes aspectos:

  • Em caso de instabilidade hemodinâmica ou anemia grave sintomática (dispneia, taquicardia ou hipotensão), o atendimento em serviço de emergência se faz necessário. 

  • Após a avaliação inicial e estabilização hemodinâmica, está indicado o tratamento farmacológico com objetivo de controle do sangramento.


Com instabilidade hemodinâmica:

  •  As opções terapêuticas incluem:

    • Reanimação volêmica e administração de hemocomponentes;

    • Tamponamento intrauterino:

      • Utilizada em conjunto com administração de fluidos até abordagem definitiva ser implementada.

      • Usa-se balões intrauterinos

        • Coloque um espéculo na vagina e visualize o óstio cervical;

        • Assepsia do colo uterino e pinçamento do lábio cervical anterior;

        • Segure o balão com uma pinça kelly longa e insira-o através do óstio cervical;

        • O balão é inflado com 30 ml de solução salina ( podendo usar como alternativa o cateter de Foley);

        • Esse não pode passar de 24 horas de uso.

    • Antifibrinolíticos: 

      • Ácido tranexâmico comp. 250 mg

        • Tomar 4 cp (1g), VO, de 8/8h (dose máxima 4g/dia), OU

      • Ácido tranexâmico sol. inj. 250mg/5mL

        • Aplicar 1g IV, de 8/8h, (dose máxima 4g/dia).

        • Infusão lenta: 50mg/min.

    • Curetagem uterina;

    • Embolização da artéria uterina;

    • Histerectomia.


Sem instabilidade hemodinâmica:

  • Para pessoas na menacme com SUA volumoso, sem origem determinada, o tratamento hormonal é a primeira escolha, desde que não haja contraindicações.

    • Inicialmente, sugere-se utilizar altas doses hormonais até o controle do sangramento, com transição para dose habitual posteriormente. 

    • Múltiplos regimes de tratamento podem ser utilizados, podendo escolher uma das opções abaixo:

      • Anticoncepcional oral combinado com Etinilestradiol 30 a 35 µg 

        • Dose ataque: 1 comprimido, 6/6 h ou 8/8 h, até parar o sangramento (manter por 2 a 7 dias);

        • Manutenção: 1 comprimido, 1 x/dia, por 3 a 6 semanas; ou realizar pausa de 7 dias para sangramento de privação e, após, reiniciar com ACO, 1 x/dia para manutenção.

      • Acetato de medroxiprogesterona comp. 10 mg 

        • Dose ataque: 2 comprimidos, 8/8 h, por 7 dias. 

        • Manutenção: 2 comprimidos, 1 x/dia, por 3 semanas.

      • Acetato de noretisterona comp. 10 mg

        • Dose ataque: 1 comprimido, 1 x/dia, até parar o sangramento.

        • Manutenção: 1 comprimido, 1 x/dia, por 3 a 6 semanas.

    • Opções contendo progestágenos isolados, como o sistema intrauterino de levonorgestrel, o implante subdérmico de etonogestrel e o acetato de medroxiprogesterona de depósito ou noretisterona 0,35 mg (mini pílula) podem ser utilizadas como tratamento de manutenção para sangramento anormal, mas não são primeira linha para o manejo do quadro agudo.

  • Quando há contraindicações ao tratamento hormonal ou em pacientes com sangramento pós-menopausa:

    • Ácido tranexâmico comp. 250 mg

      • Tomar 2 a 3 cp, VO, 3 a 4 x/dia, por 3 a 4 dias.

      • Uso concomitante com contraceptivo hormonal.

Tratamento não hormonal

  • Utilizados nos períodos de sangramento, preferencialmente em pessoas que planejam engravidar, que não desejam utilizar ou que tenham contraindicações ao tratamento hormonal, ou em pacientes com sangramento pós-menopausa em investigação, para controle de quadro agudo.


  • Anti-inflamatórios não-esteroidais:

    • São iniciados no 1º dia do ciclo, até cessar a menstruação, por 4 a 5 dias. Redução de dismenorreia.

    • Utilizados como adjuvantes à terapia hormonal ou no tratamento de sangramento por escape associado ao método hormonal;

    • Pode-se optar por uma das opções abaixo:

      • Ibuprofeno comp. 600 mg

        • Tomar 1cp, VO, três vezes ao dia;

      • Ácido mefenâmico comp. 500 mg

        • Tomar 1 cp, VO, três vezes ao dia;

      • Naproxeno comp. 500 mg, 

        • Tomar 1 cp, VO, uma a duas vezes ao dia;

      • Diclofenaco comp. 50 mg, 

        • Tomar 1 cp, VO, uma a três vezes ao dia;


  • Ácido tranexâmico:

    • Considerado para o tratamento de sangramento uterino aumentado em casos refratários ao uso de outras opções terapêuticas.

    • Ácido tranexâmico comp. 250 mg

      • Tomar 2 a 3 comprimidos, VO, três a quatro vezes ao dia, por 3 a 4 dias. Iniciar no 1º dia do ciclo.

Tratamento hormonal

Considerações:

  • O tratamento hormonal é a primeira linha para pacientes na menacme. 

  • Os contraceptivos combinados são mais eficazes em relação aos progestágenos isolados na cessação do sangramento. Contudo, em caso de contraindicação aos estrogênios, progestogênios isolados estão indicados.


Anticoncepcionais orais combinados - ACO (estrógeno + progestágeno)

  • Utilizados de maneira cíclica ou contínua. Tornam o sangramento mais regular (se uso cíclico), reduzem seu volume, reduzem dismenorreia associada, além de promoverem contracepção.

  • Quando os escapes forem persistentes, pode-se optar por:

    • Conduta expectante, quando o escape for de pequeno volume e duração inferior a 3 meses; ou

    • Troca por ACO com dose maior de estrógeno (etinilestradiol 30 a 35 µg); ou

    • Uso concomitante de AINE; ou

    • Associar ao ACO um estrógeno por curto período (estrógeno conjugado 0,625 mg, 2 comprimidos, 1 x/dia,por 7 dias ou estradiol 2 mg, 1 x/dia, por 7 dias).

  • As opções terapêuticas incluem (escolher uma das opções):

    • Levonorgestrel + etinilestradiol (Ciclo 21®) comp. 0,15 + 0,03mg

      • Tomar 1 cp ao dia por 21 dias, pausa de 7 dias, e retorno no 8º dia.

      • Iniciar uso no primeiro dia do ciclo.

    • Desogestrel + etinilestradiol (Femina®) comp. 0,15 + 0,02mg

      • Tomar 1 cp ao dia por 21 dias, pausa de 7 dias, e retorno no 8º dia.

      • Iniciar uso no primeiro dia do ciclo.

    • Gestodeno + etinilestradiol (Siblima®) comp. 60 + 15mcg (microgramas)

      • Tomar 1 cp ao dia por 24 dias, pausa de 4 dias, e retorno no 5º dia.

      • Iniciar uso no primeiro dia do ciclo.


Progestágenos isolados

  • Acetato de medroxiprogesterona (Depo®Provera®) inj. 150mg/1mL

    • Aplicar 1 amp IM, no 1º dia do ciclo menstrual, e em seguida de 3 em 3 meses.

    • Se o período entre as injeções for maior do que 13 semanas (91 dias), deve certificar-se que a paciente não esteja grávida antes da administração da próxima injeção.

  • Desogestrel comp. 75 mcg

    • Tomar 1 cp, VO, uma vez ao dia, contínuo, iniciando no 1º dia do ciclo menstrual.

  • SIU liberador de levonorgestrel 52 mg

    • Colocar DIU com a renovação a cada 5 anos;

  • Acetato de medroxiprogesterona comp. 10 mg

    • Tomar 1 cp, VO, uma vez ao dia, do 5º ao 26º dia do ciclo ou contínuo;

  • Acetato de noretisterona comp. 10 mg

    • Tomar 1 cp, uma vez ao dia, do 5º ao 26º dia do ciclo ou contínuo.

  • Observações:

    • A noretisterona 0,35 mg, conhecida como “minipílula”, e o implante subcutâneo de etonogestrel não são eficazes no tratamento da SUA.

    • Pacientes que não se sentem confortáveis com a amenorreia ou que desejam gestar em curto prazo devem ser aconselhadas a utilizar outro método.


Observações:

  • Para pacientes que desejam intervenção para o sangramento por escape, sugere-se:

    • Tratamento inicial com AINE (por 5 a 7 dias).

    • Se o sangramento for persistente, e não houver contraindicação ao uso de estrógenos, pode-se utilizar concomitantemente um ACO combinado em baixa dosagem (etinilestradiol ≤ 30 µg + progestágeno) ou estrógeno isolado (estrógenos conjugados 0,625 mg, 2 comprimidos, 1 x/dia ou estradiol 2 mg, 1 x/dia), fornecidos por 7 dias. 

    • Não se recomenda reduzir o intervalo entre as aplicações da medroxiprogesterona injetável para tratar o sangramento por escape.

Tratamento cirúrgico

  • Indicado para pacientes com descendência constituída ou com falha da abordagem clínica. 
  • Opções cirúrgicas:
    • Dilatação e curetagem;
    • Ablação endometrial;
    • Embolização da artéria uterina;
    • Histerectomia.
  • Histerectomia pode ser indicada principalmente nos casos de miomatose com sintomas compressivos relacionados ao volume uterino e adenomiose refratária a tratamento clínico.

Referências

  • Sangramento uterino anormal. -- São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), 2017.
  • Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. TelessaúdeRS-UFRGS TeleCondutas: Sangramento Uterino Anormal [recurso eletrônico] / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. TelessaúdeRS-UFRGS. – 2. ed. – Porto Alegre: UFRGS, 2024.

Autoria e Curadoria

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