Otite Média Aguda na Criança

CID-10: H65 (não-supurativa)

CID-10: H66 (supurativa)

Introdução

Conceito:

  • A otite média aguda (OMA) é decorrente do acometimento da orelha média, mastóide, ápice petroso e células peri labirínticas.

  • Pode ser de origem infecciosa ou inflamatória.

  • Geralmente é precedida por infecção de via aérea superior, sendo mais comum nos meses de inverno.

  • Durante sua evolução pode cursar com otite média supurada (presença de exsudação/otorreia com alívio da dor), otite média secretora (regressão do quadro) e otite média crônica se a perfuração manter-se por mais de 3 meses. 

  • Nos casos de otite média aguda com supuração, onde a otorreia se mantém por mais de 4 semanas, deve-se encaminhar com prioridade para avaliação com especialista para tentar evitar a evolução para otite média crônica.

Epidemiologia:

  • Principais agentes e suas frequências na OMA:

    • Streptococcus pneumoniae: ~40%

    • Haemophilus influenzae: ~25-30% (frequentemente produtor de beta-lactamase).

    • Moraxella catarrhalis: ~10-15% (alta produção de beta-lactamase).

    • Vírus respiratórios: associados a cerca de 20% dos casos isoladamente ou em coinfecção bacteriana.

  • Perfis de Resistência do pneumococo:

    • A vigilância brasileira identificou mudanças importantes na epidemiologia do pneumococo após ampla cobertura vacinal

      • Penicilina: cerca de 20% apresentam resistência intermediária, indicando necessidade de dose elevada de amoxicilina.

      • Macrolídeos: Resistência em aproximadamente 40% das cepas.

      • Cefalosporinas (3ª geração): Resistência baixa (<5%)

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Diagnóstico

Quadro clínico:

  • A criança pode apresentar-se com otalgia ou sintomas sugestivos inespecíficos em lactentes (febre, hiporexia, vômitos, diarreia, alteração do sono, puxar/esfregar/segurar a orelha, choro excessivo).

  • Abaulamento leve, moderado ou grave da membrana timpânica;

  • Novo início de otorreia não decorrente de otite externa aguda;

  • Início recente.

Sinais de Gravidade:

  • Otalgia intensa (sem melhora com analgésicos simples)

  • Otalgia persistente (>48 horas)

  • Febre ≥39°C

  • Otorréia recente (indicando possível ruptura da membrana timpânica)

  • Toxemia ou prostração significativa

Diagnóstico:

  • O diagnóstico é clínico, sendo necessário ao menos um dos seguintes critérios:

  • Abaulamento moderado ou severo de Membrana timpânica (MT); ou

  • Presença de otorréia de início recente não atribuível a otite externa; ou

  • Abaulamento leve de MT e mais:

    • Início recente (<48hs) de otalgia (em bebês podem apresentar manipulação excessiva da orelha); ou

    • Hiperemia importante de MT

  • Indicação de exames complementares: não é realizado de rotina, solicita apenas se suspeita de complicações como mastoidite (TC de mastoide), meningite (LCR), abcesso cerebral (TC ou RM de crânio), labirintite, paralisia facial, trombose

Manejo da Dor

Facilite o cálculo usando a Calculadora de doses de sintomáticos em pediatria.

Analgésicos simples:

  • Dipirona gotas 500mg/1mL/20 gotas

    • Dar 0,6 a 1 gota/kg (max 40 gotas), a cada 6 h se dor ou febre

    • Dose: 15 a 25 mg/kg/dose

    • Obs: > 3 meses de idade

  • Dipirona sol. oral 50mg/1mL

    • Dar 0,3 a 0,5 mL/kg (max 20 mL), a cada 6 h se dor ou febre

    • Dose: 15 a 25 mg/kg/dose

    • Obs: > 3 meses de idade

  • Dipirona injetável 1g/2mL ou 500mg/1mL

    • >= 8 kg: 0,1 a 0,2 mL IM

    • 9-15 kg: 0,2 a 0,5 mL IV ou IM

    • 16-23 kg: 0,3 a 0,8 mL IV ou IM

    • 24-30 kg: 0,4 a 1,0 mL IV ou IM

    • 31-45 kg: 0,5 a 1,5 mL IV ou IM

    • 46-53 kg: 0,8 a 1,5 mL IV ou IM

    • >= 54 kg: 2 mL IV ou IM

    •  a cada 6 h

    • Obs: Para menores de 1 ano deve-se utilizar via oral (VO) ou intramuscular (IM), sendo a via intravenosa (IV) reservada para maiores de 1 ano.

  • Paracetamol gotas 200mg/1mL/15 gotas

    • Dar 1 gota/kg (max 35 gotas), a cada 6 h

    • Dose: 10 a 15 mg/kg/dose (max 75 mg/kg/dia ou 4g/dia)

  • Paracetamol sol. oral 32mg/1mL

    • Dar 0,31 a 0,46 mL/kg (max 31 mL), a cada 6 h

    • Dose: 10 a 15 mg/kg/dose (max 75 mg/kg/dia ou 4g/dia)

  • Paracetamol sol. oral 100mg/1mL

    • Dar 0,1 a 0,15 mL/kg (max 10 mL), a cada 6 h

    • Dose: 10 a 15 mg/kg/dose (max 75 mg/kg/dia ou 4g/dia

AINEs:

  • Ibuprofeno gotas 100mg/1mL/10 gotas

    • Dar 1 gota/kg (max 20 gotas), a cada 8-6 h

    • Max de 20 gotas/dose (200mg) e 80 gotas/dia (800mg) 

    • Dose: 5 a 10 mg/kg/dose (max 800mg/dia)

  • Ibuprofeno gotas 50mg/1mL/10 gotas

    • Dar 1 a 2 gotas/kg (max 40 gotas), a cada 8-6 h

    • Max de 40 gotas/dose (200mg) e 160 gotas/dia (800mg) 

    • Dose: 5 a 10 mg/kg/dose (max 800mg/dia)

  • Ibuprofeno sol. oral 30mg/mL

    • Dar 0,16 a 0,33 mL/kg (max 7 mL), a cada 8-6 h

    • Max de 7 mL/dose (210mg) e 28 mL/dia (840mg) 

    • Dose: 5 a 10 mg/kg/dose (max 840 mg/dia)

Estratégias de Tratamento

A escolha depende da idade da criança, da gravidade da doença e da preferência dos pais. 

  • Monitoramento clínico, sem antibioticoterapia imediata:

    • Quando considerar?

      • Crianças com idade entre 6 a 24 meses com otite unilateral, com OMA não grave;

      • Crianças maiores de 2 anos com otite uni ou bilateral, com OMA não grave;

    • Considerações:

      • É fundamental um tratamento sintomático adequado e o acesso aos cuidados de acompanhamento.

      • Pode-se considerar a prescrição da antibioticoterapia e entrega da receita no momento do diagnóstico, juntamente com a orientação aos pais de uso apenas se os sintomas não melhorarem em 2 a 3 dias.

  • Quando indicar antibioticoterapia imediata? 

    • Crianças menores de 6 meses; 

    • Otorreia; 

    • Sintomas graves (otalgia persistente, febre alta, toxemia);

    • Dificuldade de acesso ao serviço de saúde; 

    • Risco aumentado de complicações (malformações craniofaciais, imunossuprimidos); 

    • Crianças com idade entre 6 a 24 meses com otite bilateral.

Antibióticos de Primeira Linha

Facilite o cálculo usando a Calculadora de doses de antibióticos em pediatria.

  • Esquema de tratamento:

    • Monoterapia com amoxicilina.

    • Duração: 

      •  < 2 anos ou sintomas graves:  10 dias;

      •  >2 anos com sintomas leves ou moderados: 7 dias

      • >2 anos com sintomas graves: 10 dias

    • Atenção para os sinais de gravidade:

      • Otalgia intensa (sem melhora com analgésicos simples)

      • Otalgia persistente (>48 horas)

      • Febre ≥39°C

      • Otorréia recente (indicando possível ruptura da membrana timpânica)

      • Toxemia ou prostração significativa

  • Amoxicilina sol. oral 250mg/5mL

    • Dar 0,5 a 0,6 mL/kg (max 10 mL - 500 mg), a cada 8h.

    • Dose: 80 a 90 mg/kg/dia

  • Amoxicilina sol. oral 400mg/5mL

    • Dar 0,3 a 0,4 mL/kg (max 6 mL- 500 mg), a cada 8h.

    • Dose: 80 a 90 mg/kg/dia

  • Amoxicilina sol. oral 500mg/5mL

    • Dar 0,3 mL/kg (max 5 mL- 500 mg), a cada 8h.

    • Dose: 80 a 90 mg/kg/dia

Antibióticos de Segunda Linha

Facilite o cálculo usando a Calculadora de doses de antibióticos em pediatria.

  • Quando indicar?

    • Indicado se casos refratários, ou

    • Uso recente de amoxicilina (<30 dias), ou

    • Conjuntivite associada (H. influenza)

  • Esquema de tratamento:

    • Monoterapia com amoxicilina + clavulanato

    • Duração:

      • < 2 anos ou sintomas graves: 10 dias; 

      • >2 anos: 5 -7 dias;

  • Amoxicilina + clavulanato xp 125+31,25mg/5mL (apresentação pouco usada)

    • Dar 1,1 a 1,2 mL/kg (max 20 mL- 500 mg), a cada 8h

    • Dose de amoxicilina: 80 a 90 mg/kg/dia

  • Amoxicilina + clavulanato xp 250+62,5mg/5mL

    • Dar 0,5 a 0,6 mL/kg (max 10 mL- 500 mg), a cada 8h

    • Dose de amoxicilina: 80 a 90 mg/kg/dia

  • Amoxicilina + clavulanato xp 400+57mg/5mL

    • Dar 0,3 a 0,4 mL/kg (max 10 mL- 500 mg), a cada 12h

    • Dose de amoxicilina: 80 a 90 mg/kg/dia

  • Observação:

    • Deve-se orientar quanto a necessidade de armazenamento refrigerado (geladeira) da amoxicilina + clavulanato.

Alérgicos à Penicilina

Facilite o cálculo usando a Calculadora de doses de antibióticos em pediatria.

  • Indicado se alergia à penicilina. 

    • Não grave: Cefalosporinas (nas de segunda ou terceira geração - Cefuroxima, Cefdinir).
      Alergia grave (anafilaxia): Azitromicina (considerar resistência local elevada)

  • Esquema de tratamento:

    • Monoterapia com uma das opções abaixo.

  • Cefuroxima sol. oral 250mg/5mL

    • Indicação: Alternativa para crianças com reações leves não mediadas por IgE às penicilinas (ou seja, sem anafilaxia, broncoespasmo ou angioedema)

    • Dar 0,3 mL/kg (max 10 mL-500 mg), a cada 12 h

    • Dose: 30 mg/kg/dia

    • Regra prática: peso / 3,3 = mL a cada 12 h

    • Duração do tratamento é de 10 dias.

  • Azitromicina sol. oral 200mg/5mL

    • Indicação: Última opção devido à alta taxa de resistência do pneumoco. Apenas em casos de alergia grave com anafilaxia a beta-lactâmicos incluindo cefalosporina. Não deve ser utilizada em caso de refratariedade.

    • Dar 0,25 mL/kg (max 12,5 mL - 500 mg), a cada 24 h

    • Dose: 10 mg/kg/dia

    • Regra prática: peso / 4 = mL a cada 24 h

    • Duração do tratamento é de 5 dias

  • Cefdinir sol. oral 250mg/5mL 

    • Indicação: Alternativa para crianças com reações leves não mediadas por IgE às penicilinas (ou seja, sem anafilaxia, broncoespasmo ou angioedema)

    • Dar 0,28 mL/kg (max 12 mL- 600 mg), uma vez ao dia

    • Dose: 14 mg/kg/dia

    • Duração do tratamento é de 3 dias

  • Alternativas de administração parenteral:

    • Quando Indicar?

      • Falha de tratamento ou dificuldade para aceitação via oral

    • Ceftriaxona pó inj. 500mg (intramuscular)

      • Diluir 1 amp para cada 2 mL lidocaína 1% (volume: 2,36 mL)

      • Dose: 50 mg/kg/dia

      • Aplicar 0,12 mL/kg IM, a cada 12 h, OU

      • Aplicar 0,24 mL/kg IM, a cada 24 h

      • Máx: 4,72 mL (1 g) a cada 12 h

      • Duração do tratamento é de 3 dias

    • Ceftriaxona pó inj. 1g (intramuscular)

      • Diluir 1 amp para cada 3,5 mL lidocaína 1% (volume: 4,22 mL)

      • Dose: 50 mg/kg/dia

      • Aplicar 0,11 mL/kg IM, a cada 12 h, OU

      • Aplicar 0,21 mL/kg IM, a cada 24 h

      • Máx: 4,22 mL (1 g) a cada 12 h

      • Duração do tratamento é de 3 dias

    • Ceftriaxona pó inj. 500mg (intravenoso)

      • Reconst. 1 amp p/ cada 5 mL SF0,9%

      • Dose: 50 mg/kg/dia

      • Aplicar 0,25 mL/kg (max 10 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 12 h, OU

      • Aplicar 0,5 mL/kg (max 10-20 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 24 h

      • Duração do tratamento é de 3 dias

    • Ceftriaxona pó inj. 1g (intravenoso)

      • Reconst. 1 amp p/ cada 10mL SF0,9%

      • Dose: 50 mg/kg/dia

      • Aplicar 0,25 mL/kg (max 10 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 12 h, OU

      • Aplicar 0,5 mL/kg (max 10-20 mL) + 35 a 100 mL SF0,9% IV em 30 min, a cada 24 h

      • Duração do tratamento é de 3 dias

Critérios de Internação / Observação Hospitalar

  • Irritabilidade ou prostração excessiva; 

  • Idade menor que três meses;  

  • Desnutrição;  

  • Defeitos anatômicos das vias aéreas; 

  • Cardiopatia congênita com repercussão hemodinâmica;

  • Imunodeficiência;  

  • Doença neurológica ou neuromuscular;

  • Bradicardia ou taquicardia persistente (FC > 180bpm)  

  • Letargia ou agitação excessiva;  

  • Desidratação;  

  • Indisponibilidade de via oral;  

  • Presença de complicações que necessitem de antibioticoterapia venosa.

Orientação aos Pais

  • Retornar à unidade de pronto atendimento, quando:

    • Febre persistente, após 48-72 horas do início do tratamento;

    • Agravamento da otalgia ou evoluir com complicações;

    • Impossibilidade de via oral;

    • Prostração intensa.

Critérios de Alta Hospitalar

  • Considerar alta hospitalar se todos os critérios abaixo estiverem presentes:

    • Boa resposta ao tratamento instituído;

    • Ingestão oral adequada;  

    • Família bem orientada e confiante de que pode prestar cuidados em casa.

Referências

[1] Flint PW. Cummings otolaryngology: head and neck surgery. 5th ed. St Louis: Mosby; 2010.

[2] Schilder AGM, Marom T, Bhutta MF, et al. Panel 7: Otitis Media: Treatment and Complications. Otolaryngol head Neck Surg. 2017;156(4_supp): S88-S105.

[3] Revista Eletrônica Acervo Saúde | ISSN 2178-2091. O manejo clínico da otite média aguda em crianças: uma revisão bibliográfica. REAS | Vol.15(8)

[4] Protocolo colaborativo Manejo da Otite Média Aguda na Criança e Adolescente. Comissão dos Protocolos Colaborativos do Sistema Único de Saúde do SUS-BH em dezembro de 2020. https://prefeitura.pbh.gov.br/sites/default/files/estrutura-de-governo/saude/2021/protocolo-otite-media-aguda.pdf

[5] PROTOCOLO DE MANEJO E ACESSO À OTORRINOLARINGOLOGIA. Protocolo singularizado para o Município de Jundiaí - 2022 Versão I.

[6] Damoiseaux RAMJ, Van Balen FAM, Leenheer WAM, Kolnaar BGM. Otite média aguda em crianças Resumo de diretriz NHG M09.

[7] Hospital Albert Einstein. Guia do Episódio de Cuidado: Otite Média Aguda em Crianças e Adolescentes Diretrizes para o Diagnóstico e Tratamento. 06/08/2025. Disponível em: https://medicalsuite.einstein.br/

Autoria e Curadoria

As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.