Obesidade no adulto

CID-10: E66

Aspectos Gerais

  • Conceito

    • Doença crônica causada por acúmulo excessivo de gordura no corpo.

    • Aumento da morbimortalidade, risco de eventos cardiovasculares e diabetes.

    • Associada a:

      • Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2);

      • Doenças Cardiovasculares (DCV);

      • Esteatose hepática associada à disfunção metabólica (MASLD);

      • Apneia obstrutiva do sono;

      • Neoplasias relacionadas à obesidade;

      • Aumento de mortalidade por todas as causas.

  • Etiologia 

    • Doença multifatorial: causas monogênicas e endocrinológicas secundárias, mas a maioria dos pacientes com obesidade têm uma interação entre genes e fatores externos.

Seja plus e torne seu dia mais
prático e seguro!
Acesse ao conteudo completo

Diagnóstico e Classificação

Diagnóstico

  • IMC = peso / (altura x altura).

    • Peso em kg.

    • Altura em metros.

  • Índice de massa corporal (IMC):

    • Obesidade grau I: IMC entre 30,0 e 34,9 Kg/m2;

    • Obesidade grau II: IMC entre 35,0 e 39,9 Kg/m2;

    • Obesidade grau III: IMC igual ou superior a 40 Kg/m2;

    • Superobesidade: IMC igual ou superior a 50 Kg/m2.

  • Circunferência abdominal (risco cardiometabólico)

    • Homens ≥ 94 cm (risco aumentado)

    • Mulheres ≥ 80 cm (risco aumentado)

Nova abordagem conceitual (2025)

  • Obesidade pré-clínica

    • Excesso de adiposidade sem lesão orgânica estabelecida.

  • Obesidade clínica

    • Excesso de adiposidade com:

      • Comprometimento funcional;

      • Doença cardiometabólica;

      • Dano estrutural orgânico.

    • Implica necessidade de tratamento mais intensivo.

Avaliação Inicial

  • A avaliação inicial recomendada inclui:

    • História ponderal

    • Tentativas prévias de perda de peso

    • Avaliação alimentar

    • Nível de atividade física

    • Sono

    • Uso de medicamentos obesogênicos

    • Rastreamento de:

      • Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2)

      • Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)

      • Dislipidemia

      • Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS)

      • Depressão

      • Doença Hepática Esteatótica Associada à Disfunção Metabólica (MASLD)

Orientações Gerais

  • É complexo, multiprofissional e demanda múltiplas intervenções e envolvimento ativo do paciente. 

  • O objetivo é a perda sustentada de peso para obter benefícios em relação às comorbidades associadas e diminuição da mortalidade por todas as causas. 

  • Antes de começar o tratamento não farmacológico, é fundamental uma discussão sobre a motivação do paciente, os resultados esperados e frustrações associadas com o tratamento da obesidade, além da importância de associar diferentes intervenções e profissionais no tratamento. 

  • O tratamento pode ser farmacológico e não farmacológico.

Tratamento Não Farmacológico

Tem o objetivo de alcançar ou manter uma perda de peso de 5 a 10% através de uma combinação de mudanças dietéticas e atividade física.

Objetivos terapêuticos

  • Perda inicial ≥ 5% do peso (benefício metabólico comprovado).

  • Ideal:

    • ≥10% → melhora significativa metabólica

    • ≥15% → impacto em remissão de DM2

    • ≥20% → perfil semelhante à cirurgia em alguns casos.


Terapia nutricional:

  • Dietas com redução do número total de calorias (hipocalóricas). 

  • Dietas que alteram a proporção de macronutrientes (carboidratos, proteínas e gorduras). 

  • Dieta individualizada

  • Padrões possíveis:

    • Mediterrânea

    • Low-carb

    • DASH

    • Hipocalórica tradicional

  • Foco em:

    • Alimentos in natura

    • Proteína adequada

    • Redução ultraprocessados

Atividade física:

  • Utilizar como atividade física qualquer tipo de gasto energético acima do usual do paciente. Isso inclui, porém não se restringe a: 

    • Atividades recreativas ou de ócio como esportes individuais ou coletivos;

    • Deslocamentos a pé ou de bicicleta;

    • Atividades ocupacionais e tarefas domésticas

  • No mínimo 150 minutos semanais de atividade física aeróbica moderada ou 75 minutos de atividade física aeróbica vigorosa;

  • Recomenda-se realizar 2 vezes ou mais por semana atividade para fortalecimento muscular.

Intervenção comportamental

  • Terapia cognitivo-comportamental

  • Monitoramento alimentar

  • Metas realistas

  • Prevenção de recaída

Tratamento Farmacológico

Indicação

  • Indicar farmacoterapia quando:

    • IMC ≥ 30 kg/m², OU

    • IMC ≥ 27 kg/m² + ≥ 1 comorbidade associada

      • Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2);

      • Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS);

      • Dislipidemia;

      • Doença cardiovascular estabelecida;

      • Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS);

      • Esteatose hepática associada à disfunção metabólica (MASLD)

  • Observação:

    • Pode ser considerada de forma precoce em pacientes de alto risco cardiovascular.

Avaliação pré-início

  • Antes de prescrever:

    • Estratificar risco cardiovascular (ASCVD)

    • Avaliar presença de DM2

    • História de pancreatite

    • História familiar de carcinoma medular de tireoide

    • Uso de antidepressivos / antiepilépticos

    • PA e FC

    • Função renal e hepática

Escolha do medicamento por perfil clínico

1) Paciente com DM2 ou alto risco cardiovascular

  • Esquema de primeira linha (preferencial, devido maior eficácia e benefício cardiovascular):

    • Tirzepatida OU Semaglutida

  • Tirzepatida (Mounjaro®) sol. inj. 2,5 mg, 5 mg, 7,5 mg, 10 mg, 12,5 mg ou 15 mg (caneta preenchida com 0,5 mL)

    • Iniciar 2,5 mg SC 1x/semana por 4 semanas. Após, aumentar para 5 mg/semana.

    • Se necessário, escalonar dose em incrementos de 2,5 mg, respeitando o intervalo de 4 semanas entre ajustes.

    • Dose máxima: 15 mg/semana.

    • Maior média de perda ponderal (≈15–22%).

  • Semaglutida (Wegovy®) sol. inj. 0,68 mg/mL (0,25 mg/dose), 1,34 mg/mL (0,5 e 1 mg/dose), 2,27 mg/mL (1,7 mg/dose) ou 3,2 mg/mL (2,4 mg/dose)

    • Iniciar 0,25 mg SC 1x/semana por 4 semanas.

    • Escalonar: 0,5 → 1,0 → 1,7 → 2,4 mg a cada 4 semanas.

    • Manutenção: 2,4 mg/semana (máx. 2,4 mg/semana).

    • Perda média ≈ 12–15%.

2) Paciente sem DM2 e risco cardiovascular intermediário

  • Opções terapêuticas:

    • Semaglutida OU Liraglutida

  • Semaglutida (Wegovy®) sol. inj. 0,68 mg/mL (0,25 mg/dose), 1,34 mg/mL (0,5 e 1 mg/dose), 2,27 mg/mL (1,7 mg/dose) ou 3,2 mg/mL (2,4 mg/dose)

    • Iniciar 0,25 mg SC 1x/semana por 4 semanas.

    • Escalonar: 0,5 → 1,0 → 1,7 → 2,4 mg a cada 4 semanas.

    • Manutenção: 2,4 mg/semana (máx. 2,4 mg/semana).

    • Perda média ≈ 12–15%.

  • Liraglutida sol. inj. 6mg/mL

    • Iniciar 0,6 mg SC 1x/dia por 7 dias.

    • Aumentar 0,6 mg/semana até 3 mg SC/dia.

    • Dose manutenção: 3 mg/dia (máx. 3 mg/dia)

    • Perda média ≈8–10%.

3) Paciente com compulsão alimentar ou componente depressivo

  • Bupropiona/Naltrexona comp. 8/90mg

    • Semana 1: 1 cp manhã.

    • Semana 2: 1 cp 12/12h.

    • Semana 3: 2 cp manhã + 1 cp noite.

    • Semana 4 em diante: 2 cp 12/12h (máx. 4 cp/dia).

    • Observações:

      • Perda média ≈6–9%.

      • Evitar em:

        • Epilepsia

        • TCE grave prévio

        • Transtornos alimentares purgativos

        • Uso de IMAO

4) Pacientes com obesidade e insuficiência cardíaca

  • Em pacientes com ICC:

    • Semaglutida demonstrou melhora funcional em FE (fração de ejeção) preservada.

    • Tirzepatida demonstrou melhora funcional e redução de eventos cardiovasculares.

  • Monitorar a cada ajuste de dose:

    • Função renal

    • Eletrólitos

    • PA

    • Necessidade de ajuste de anti-hipertensivos e antidiabéticos.

5) Opções de menor eficácia (uso seletivo)

  • Opções terapêuticas:

    • Orlistate OU Topiramato OU Sibutramina

  • Orlistate cáps. 120mg

    • Dose: 1 cáps 8/8h junto às principais refeições com gordura (máx. 360mg/dia).

    • Perda média ≈ 5–7%.

  • Topiramato comp. 25–100mg

    • Dose inicial: iniciar 25 mg/noite.

    • Titular gradualmente até 100 mg 12/12h conforme tolerância (máx. 200 mg/dia).

    • Uso off-label isolado.

    • Monitorar efeitos cognitivos.

  • Sibutramina cáps. 10 ou 15mg

    • Dose: 10 mg pela manhã.

    • Pode aumentar para 15 mg após 4 semanas se PA/FC controladas.

    • Suspender se perda <5% em 3 meses (máx. 15 mg/dia).

    • Evitar em:

      • Doença cardiovascular

      • HAS não controlada

      • Alto risco CV

    • Uso atualmente restrito devido risco cardiovascular.

Duração do tratamento

  • Obesidade é uma doença crônica.

  • A duração do tratamento deve considerar:

    • A suspensão da medicação geralmente leva à recuperação ponderal.

    • O tratamento deve ser mantido enquanto houver benefício e segurança.

Monitorização

  • Reavaliar após 12 semanas na dose plena:

    • Perda ≥ 5% → manter terapia

    • Perda < 5% → considerar:

      • Escalonar dose (se possível)

      • Trocar classe

      • Associar abordagem intensiva

  • Monitorar:

    • Peso

    • PA

    • FC

    • Glicemia

    • Perfil lipídico

    • Sintomas gastrointestinais

    • Sintomas psiquiátricos

Tratamento Cirúrgico

  • Critérios para cirurgia bariátrica:

    • Indivíduos maiores de 18 e menores de 60 anos de idade;

    • Indivíduos que apresentem IMC³ > 50 Kg/m²;

    • Indivíduos que apresentam IMC³ > 40 Kg/m² (e < 50Kg/m²), com ou sem comorbidades, sem sucesso no tratamento clínico longitudinal realizado na Atenção Primária à Saúde (APS) e/ou na atenção ambulatorial especializada, por no mínimo dois anos e que tenham seguido protocolos clínicos;

    • Indivíduos com IMC > 35 kg/m² (e < 40Kg/m²) com comorbidades, tais como pessoas com alto risco cardiovascular, Diabetes Mellitus e/ou Hipertensão Arterial Sistêmica de difícil controle, apneia do sono, doenças articulares degenerativas, sem sucesso no tratamento clínico. 

  • Critérios para exclusão para cirurgia bariátrica:

    • Insuficiência cardíaca grave

    • Doença arterial coronariana instável

    • Doença pulmonar em estágio terminal

    • Tratamento ativo do câncer

    • Hipertensão portal

    • Dependência de drogas/álcool

    • Limitação intelectual significativa

    • Pacientes sem suporte familiar adequado.

    • Transtorno psiquiátrico não controlado, incluindo uso contínuo de álcool ou drogas ilícitas.

      • No entanto, quadros psiquiátricos graves, alcoólatras e adictos sob controle não são contraindicações à cirurgia.

Referências

  • American College of Cardiology (ACC). Scientific Statement on the Management of Obesity in Adults With Heart Failure. 2025. Disponível em: https://www.acc.org

  • Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade – Atualização 2026. São Paulo: ABESO; 2026. Disponível em: https://abeso.org.br

  • Lancet Diabetes & Endocrinology Commission. Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology. 2025.

  • Ministério da Saúde (Brasil). Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Sobrepeso e Obesidade em Adultos. 2020. Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude

  • UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL. Faculdade de Medicina. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Telecondutas: obesidade. Porto Alegre, 28 dez. 2022.

  • Valerio CM, et al. 2025 Brazilian evidence-based guideline on the management of obesity and prevention of cardiovascular disease and obesity-associated complications: a position statement by five medical societies. 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s13098-025-01954-8

  • World Health Organization (WHO). Guideline on the use of glucagon-like peptide-1 (GLP-1) therapies for the treatment of obesity in adults. 2025. Disponível em: https://www.who.int

Autoria e Curadoria

As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.