Anemia falciforme: manejo ambulatorial

CID-10: D57

Aspectos gerais

  • A doença falciforme (DF) é uma condição genética autossômica recessiva que resulta de anomalias na estrutura da hemoglobina (Hb), podendo ou não estar associada a problemas na sua síntese.
  • As hemoglobinopatias que são causadas por alterações na estrutura da Hb são mais comuns entre populações africanas.

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Sintomas

  • Crise de dor

    • Sintoma mais frequente, causado pela obstrução de vasos sanguíneos.

    • Dor comum nos ossos e articulações, podendo ocorrer em várias partes do corpo.

    • Duração variável e frequente em condições como frio, infecções ou desidratação.

  • Síndrome mão-pé

    • Crises de dor em pequenos vasos das mãos e pés em crianças pequenas, resultando em inchaço e vermelhidão.

  • Infecções

    • Maior predisposição a infecções, como pneumonias e meningites.

    • Vacinação especial é recomendada; febre deve ser tratada com urgência.

  • Úlcera de Perna

    • Comum próximo aos tornozelos a partir da adolescência, exigindo cuidados para cicatrização.

  • Sequestro de Sangue no Baço

    • O aumento rápido do baço pode levar à morte por falta de sangue nos órgãos vitais.

    • Necessita de tratamento emergencial.

Diagnóstico

O diagnóstico definitivo pode ser realizado através de:

  • Eletroforese de hemoglobina.
  • Teste do pezinho: realizado ao nascimento para detecção precoce de hemoglobinopatias.

Tratamento

Esquema: 

  • O tratamento da anemia falciforme deve-ser realizado pelo especialista (hematologista).

  • 1 a 5 anos: Hidroxiureia + Fenoximetilpenicilina.

    • Devido aos possíveis efeitos teratogênicos e carcinogênicos da Hidroxiureia, a terapia de crianças menores de 2 anos de idade deve ser criteriosamente analisada, levando-se em consideração o risco de morbimortalidade da DF. Nesses casos, pode-se prescrever a partir de 9 meses 

  • > 5 anos: Hidroxiureia


Prevenção de crises e complicações:

  • Hidroxiurea cápsulas 500 mg;

    • Dose inicial: 15 mg/kg/dia, por via oral, em dose única (usar o peso real ou o ideal, aquele que for menor). Aumentar em 5 mg/kg/dia a cada 4 semanas até atingir a dose máxima.

    • Máxima de 35 mg/kg/dia ou a ocorrência de toxicidade hematológica ou outros efeitos adversos graves.

    • Avaliar critérios de inclusão e exclusão citados abaixo.


Prevenção de infecções 

  • Fenoximetilpenicilina potássica: pó sol. oral 80.000UI/mL;

    • Esquema profilático preconizado desde o diagnóstico até os 5 anos de idade (via oral):

    • Crianças até 3 anos: 125 mg (equivalente a 200.000 UI ou 2,5 mL) a cada 12 horas (250 mg/dia);

    • Crianças de 3 a 5 anos: 250 mg (equivalente a 400.000 UI ou 5 mL) a cada 12 horas (500 mg/dia).( não achei a dose máxima) 

      • Na impossibilidade de uso por via oral, utiliza-se a penicilina benzilpenicilina.

    • Indicado apenas para crianças com até 5 anos de idade com diagnóstico de doença falciforme.

  • Benzatina (penicilina G) pó inj. 600.000 UI ou 1.200.000 UI

    • Aplicar por via intramuscular a cada 12 a 28 dias, nas seguintes doses:

    • Crianças menores de 1 ano: 25.000 a 50.000 UI/kg/dose;

    • Crianças até 25 kg: 600.000 UI

    • Crianças acima de 25 kg: 1.200.000 UI.

    • A via oral deve ser retomada logo que possível

  • Eritromicina susp 25mg/mL

    • Dose 0,4 mL/kg/dose (10mg/kg/dose), VO, a cada 12 horas.

    • Dose máxima: 2g/dia.

Considerações da hidroxiureia

Critérios de inclusão para uso de Hidroxiureia:

  • Os pacientes deverão preencher todos os critérios a seguir:

    • Eletroforese de hemoglobina compatível com o diagnóstico de DF: Hb SS, SC, SD ou SBetaTal, conforme o item 3. Diagnóstico;

    • Idade igual ou maior que 2 anos (ou a partir de 9 meses conforme Casos especiais); 

    • Possibilidade de comparecer às reavaliações periódicas;

    • Beta-HCG sérico negativo para mulheres em idade reprodutiva; e

    • Ter apresentado pelo menos uma das complicações abaixo nos últimos 12 meses:

      • Três ou mais episódios de crises vasoclusivas com necessidade de atendimento médico;

      • Dois episódios de síndrome torácica aguda (definida como dor torácica aguda com infiltrado pulmonar novo, febre de 37,5 oC ou superior, taquipneia, sibilos pulmonares ou tosse);

      • Um episódio de priapismo grave ou priapismo recorrente;

      • Necrose isquêmica óssea;

      • Insuficiência renal; 

      • Proteinúria de 24 h maior ou igual a 1 g;

      • Anemia grave e persistente (Hb menor que 6 g/dL em três dosagens no período de 3 meses);

      • Desidrogenase láctica (DHL) elevada duas vezes acima do limite superior nas crianças ou adolescentes e acima de três vezes do limite superior no adulto;

      • Alterações no eco-Doppler transcraniano acima de 160 e até 200 cm/s;

      • Retinopatia proliferativa; ou

      • Quaisquer outras situações em que haja comprovação de lesão crônica de órgão(s).


Critérios de Exclusão Hidroxiureia:

  • Contagem de neutrófilos abaixo de 2.000/mm3

  • Hb abaixo de 4,5 g/dL

  • Reticulócitos abaixo de 80.000/mm3(quando Hb menor que 8 g/dL)

  • Contagem de plaquetas abaixo de 80.000/mm3 

  • Gestação.


Exames que deve ser solicitados antes do início do tratamento com hidroxiureia:

  • Hemograma com contagem de plaquetas e reticulócitos;

  • Eletroforese de Hb com dosagem de HbF;

  • Sorologia para hepatite B, hepatite C e HIV;

  • Dosagem sérica de creatinina e de transferases /transaminases [aspartato aminotransferase (TGO/AST), alanina aminotransferase TGP/ALT)];

  • Dosagem sérica de ácido úrico;

  • Beta-HCG sérico.


Exames que deve ser solicitados durante o tratamento com hidroxiureia:

  • A cada 2 semanas até atingir a dose de manutenção; após, a cada 4 semanas.

    • Hemograma

    • Contagem de reticulócitos .

  • A cada 4 semanas até atingir a dose de manutenção; após, a cada 12 semanas.

    • Dosagens séricas de ALT, AST, creatinina e gamaglutamiltranspeptidase.

    • Dosagem sérica de beta-HCG.

  • A cada 8 semanas até atingir a dose de manutenção; após, a cada 24 semanas.

    • HbF 

    • Contagem de reticulócitos.

Tratamento adjuvante

Medicamentos utilizados na prevenção de complicações e tratamento de intercorrências, como por exemplo: Ácido fólico (uso contínuo), Analgésicos e Anti-inflamatórios.

Ácido fólico:

  • Ácido fólico comp. 5mg

    • Tomar 1 cp uma vez ao dia (1 a 5 mg/dia).

    • Indicado nos casos de hemólise crônica

  • Ácido fólico gotas 5 mg/mL

    • <1 ano ou 10 kg: Dar 10 gotas VO uma vez ao dia.

    • >1 ano ou 10 kg:  Dar 10 gotas ou triturar 1 cp em 10ml de água, VO uma vez ao dia.

    • Indicado nos casos de hemólise crônica


Analgésicos:

  • Dipirona gotas 500mg/1mL/20gotas

    • Dar 0,6 a 1 gota/kg (max 40 gotas), a cada 6 h se dor ou febre

    • Dose: 15 a 25 mg/kg/dose

    • Obs: > 3 meses de idade

  • Dipirona xp. 50mg/1mL

    • Dar 0,3 a 0,5 mL/kg (max 20 mL), a cada 6 h se dor ou febre

    • Dose: 15 a 25 mg/kg/dose

    • Obs: > 3 meses de idade

  • Dipirona inj. 1g/2mL ou 500mg/1mL

    • <= 8 kg: 0,1 a 0,2 mL IM

    • 9-15 kg: 0,2 a 0,5 mL IV ou IM

    • 16-23 kg: 0,3 a 0,8 mL IV ou IM

    • 24-30 kg: 0,4 a 1,0 mL IV ou IM

    • 31-45 kg: 0,5 a 1,5 mL IV ou IM

    • 46-53 kg: 0,8 a 1,5 mL IV ou IM

    • >= 54 kg: 2 mL IV ou IM

    • A cada 6 h.

  • Dipirona comp  500mg ou 1g 

    • Tomar 1 cp 6/6 horas, se dor (Dose máxima 4g/dia)

    • Obs: para adultos.

  • Paracetamol gotas 200mg/1mL/15gotas

    • Dar 1 gota/kg (max 35 gotas), a cada 6 h

    • Dose: 10 a 15 mg/kg/dose (max 75 mg/kg/dia ou 4g/dia)

  • Paracetamol xp. 32mg/1mL

    • Dar 0,31 a 0,46 mL/kg (max 31 mL), a cada 6 h

    • Dose: 10 a 15 mg/kg/dose (max 75 mg/kg/dia ou 4g/dia)

  • Paracetamol xp. 100mg/1mL

    • Dar 0,1 a 0,15 mL/kg (max 10 mL), a cada 6 h

    • Dose: 10 a 15 mg/kg/dose (max 75 mg/kg/dia ou 4g/dia)

  • Paracetamol comp 500mg ou 750mg 

    • Tomar um cp se dor 6/6 horas (Dose máxima 4g/dia).

    • Obs: para adultos.


Tratamento da sobrecarga de ferro

  • Quelantes de ferro podem ser indicados (Deferasirox OU Deferiprona).

    • Deferasirox comp. 500mg

      • Dose: 15 - 20 mg/kg, uma vez ao dia.

      • Dose máxima: 40mg/kg/dia ​(dose máxima em mg/dia não especificada pela bula do profissional).

    • Deferiprona comp. 500mg

      • Dose: 25 mg/kg, a cada 8 horas.

      • Dose máxima: 100 mg/dia.

  • Após iniciar a terapia, recomenda a monitorização da ferritina ou outros indicadores de carga de ferro corporal e neutrófilos (monitorar a cada 2 meses).

Transplante de hemácias

  • Indicação:
    • Anemia grave ( hb <7g/dL);
    • Anemia moderada ( hb 7 - 10g/dL) associada a doença cardiopulmonar;
    • Extremos de idade e comorbidades associadas.

Transplante de células-tronco

  • Transplante de células-tronco hematopoéticas (TCTH) é o único tratamento curativo da doença falciforme.


  • Candidatos ao procedimento:

    • Pacientes homozigotos SS ou S beta em uso de hidroxiureia (HU) com complicações graves não infecciosas relacionadas à vasoclusão.

    • Necessidade de avaliar a compatibilidade entre irmãos.


  • Orientações para familiares:

    •  Informar sobre a possibilidade terapêutica se houver doador compatível.

    •  Com consentimento, encaminhar o paciente para avaliação em centro transplantador.

Benefícios esperados

Os benefícios esperados do tratamento incluem:

  • Eliminação ou diminuição dos episódios de dor; 

  • Aumento da produção de HbF; 

  • Aumento, mesmo que leve, da concentração total de Hb;

  • Diminuição dos episódios de síndrome torácica aguda;

  • Diminuição do número de hospitalizações;

  • Diminuição do número de transfusões; 

  • Regressão ou estabilização de danos em órgãos ou tecidos;

  • Diminuição do risco de infecções;

  • Melhora do bem-estar e da qualidade de vida e maior sobrevida.

Referências

  • Biblioteca Virtual da Saúde, Anemia Falciforme, outubro de 2007. https://bvsms.saude.gov.br/anemia-falciforme/

  • Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme. MINISTÉRIO DA SAÚDE SECRETARIA DE ATENÇÃO À SAÚDE SECRETARIA DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INSUMOS ESTRATÉGICOS PORTARIA CONJUNTA Nº 05, DE 19 DE FEVEREIRO DE 2018.

Autoria e Curadoria

As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.