Lúpus Eritematoso Cutâneo no adulto
CID-10: L93
Definição
O Lúpus Eritematoso Cutâneo (LEC) compreende um espectro de manifestações dermatológicas relacionadas à autoimunidade, podendo ocorrer isoladamente ou como expressão do Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES).
Divide-se em três formas clínicas principais:
Aguda (LECA): frequentemente associada ao LES ativo.
Subaguda (LECS): com curso intermediário e associação variável ao LES.
Crônica (LECC): mais comumente associada ao lúpus discóide (LED), podendo também incluir lúpus túmido, paniculite lúpica (lúpus profundo), lúpus pérnio e a síndrome de
sobreposição lúpus-líquen plano (LE-LP).
Lesões cutâneas específicas de lúpus seguem padrões morfológicos definidos, enquanto pacientes com LES também podem apresentar manifestações cutâneas inespecíficas, como livedo reticular, vasculites, urticária crônica ou alopecia difusa.
Detalhes sobre o LES e seus tratamentos são discutidos separadamente.
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Clínica
Cutâneo Agudo (LECA):
Erupção malar ("em asa de borboleta") é a apresentação mais clássica, acometendo face (bochechas e dorso nasal), com preservação dos sulcos nasolabiais.
Pode ocorrer de forma generalizada ou mesmo mimetizando necrólise epidérmica tóxica (NET).
Geralmente acompanha atividade sistêmica do LES.
Lúpus Eritematoso Cutâneo Subagudo (LECS):
Início com pápulas eritematosas escamosas que evoluem para:
Lesões anulares: bordas elevadas e centro atrófico.
Lesões papuloescamosas: semelhantes à psoríase.
As lesões podem se agrupar, formando padrões policíclicos.
São geralmente eritematosas, com escamas variáveis, e afetam áreas expostas ao sol como ombros, antebraços, pescoço e parte superior do tronco. O rosto costuma ser poupado.
Após a resolução, é comum ocorrer despigmentação, semelhante ao vitiligo, porém sem cicatrizes.
Existem formas menos comuns como vesiculobolhosa, poiquilodermatosa, eritrodérmica e tipo eritema multiforme (síndrome de Rowell).
Distribuição predominantemente fotoexposta: ombros, colo, antebraços, parte superior do dorso.
Sem cicatrizes, podendo deixar hipopigmentação residual.
Pode estar associado a anticorpos anti-Ro/SSA.
Lúpus Eritematoso Cutâneo Crônico (LECC):
Lúpus Discóide (LED): placas eritematoescamosas, infiltradas, com atrofia central, cicatrizes, telangiectasias e hiperpigmentação periférica.
Compromete principalmente face, orelhas e couro cabeludo (alopecia cicatricial).
Pode ser isolado ou evoluir para LES em 5–10% dos casos.
Tratamento não farmacológico
Fotoproteção rigorosa:
Uso de filtro solar de amplo espectro (FPS ≥ 50), barreiras físicas (óxido de zinco ou dióxido de titânio), reaplicação a cada 2–3 horas, uso de roupas com proteção UV e chapéus de aba larga.
Evitar tabagismo:
Compromete a resposta aos antimaláricos e agrava a doença.
Hidratação e cuidados com mucosas:
Uso de protetor labial com FPS em casos de queilite lúpica.
Em casos de queilite lúpica, é importante o uso de filtro solar específico para os lábios e hidratantes labiais.
O tratamento do lúpus cutâneo frequentemente utiliza as mesmas abordagens do lúpus sistêmico.
Tratamento farmacológico
Lesões localizadas ou leves
Corticoides tópicos:
Primeira linha, especialmente em LED e LECC.
Clobetasol propionato 0,05% (classe I):
Aplicar 2x/dia por 2–6 semanas.
Inibidores de calcineurina tópicos (alternativa para manutenção ou áreas finas):
Tacrolimo 0,1% pomada
Aplicar 2x/dia, até o desaparecimento da lesão.
Pimecrolimo 1% creme:
Aplicar 2x/dia, até o desaparecimento da lesão.
Corticoides intralesionais:
Triancinolona acetonida 3–5 mg/mL:
Injeções intralesionais de 0,1 mL por ponto, a cada 3–4 semanas.
Máximo típico por sessão: até 10 mg.
Doença cutânea extensa ou refratária ao tópico
Encaminhar o paciente para o dermatologista.
Hidroxicloroquina comp. 200 mg
Iniciar com 200 mg/dia; aumentar para 200 mg 2x/dia após 1–2 semanas se tolerado.
Não exceder 5 mg/kg/dia de acordo com peso real.
Avaliação oftalmológica basal e anual após 5 anos de uso.
É considerado como o fármaco de primeira linha sistêmica.
Em casos graves ou de progressão rápida
Encaminhar o paciente para o dermatologista.
Adição temporária de corticosteroides sistêmicos (ex.: prednisona 0,5–1 mg/kg/dia).
Considerada em casos graves/extensos enquanto aguarda ação dos antimaláricos.
As doses específicas variam conforme gravidade e protocolo institucional.
Redução gradual da dose conforme resposta clínica.
Casos refratários
Em casos refratários, deve-se encaminhar o paciente para o especialista (caso ainda não tenha sido encaminhado), para que seja considerado algumas das opções terapêuticas abaixo:
Metotrexato, azatioprina, micofenolato de mofetila e talidomida (uso restrito).
Terapias biológicas (como belimumabe) podem ser consideradas em casos com atividade sistêmica associada.
Os pacientes devem ser acompanhados regularmente para avaliar evolução cutânea e rastrear progressão para LES.
Acompanhamento e prognóstico.
Monitorar toxicidade ocular (hidroxicloroquina) e metabólica (corticosteroides).
Referências
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA (SBD). Doenças autoimunes com manifestações cutâneas: lúpus cutâneo. Rio de Janeiro, 2023.
- COSTNER, M. I. et al. Guidelines of care for the management of cutaneous lupus erythematosus. Journal of the American Academy of Dermatology, v. 70, n. 6, p. 1037.e1–1037.e12, 2024
- Clarke J. Initial management of discoid lupus erythematosus and subacute cutaneous lupus erythematosus [Internet]. Waltham (MA). Inc.; 2025
- Merola JF. Overview of cutaneous lupus erythematosus [Internet]. Waltham (MA), Inc.; 2025
- larke J. Initial management of discoid lupus erythematosus and subacute cutaneous lupus erythematosus [Internet]. Waltham (MA). Inc.; 2025


