Aborto
CID-10:O03
Definição
Aborto é a interrupção da gravidez que ocorre antes de 22 semanas completas de gestação, com feto pesando menos de 500 gramas ou medindo menos de 25 cm de comprimento cabeça-nádega, conforme definido pelos principais órgãos de saúde nacionais e internacionais (OMS, Febrasgo, Ministério da Saúde e CID‑11).
Causa mais frequente de sangramento no 1º trimestre e cromossopatias
Aborto precoce menos de 12 semanas
Aborto tardio 13-22 semans
prático e seguro!
Fatores de risco
Idade materna.
Infecções:
Listeriose, toxoplasmose, citomegalovirus, rubéola, herpes, entre outras.
Endocrinopatias:
Insuficiência de corpo lúteo, diabetes, doença da tireoide, doença de cushing.
Fatores anatômicos:
Miomas, aderências, septo uterino.
Fatores imunológicos:
Síndrome antifosfolípide (SAF), Lúpus eritematoso sistémico (LES).
Álcool e droga.
História e exame físico geral
Diagnóstico:
Considerado quando uma mulher em idade reprodutiva, com vida sexual ativa, apresenta atraso menstrual e sangramento vaginal, acompanhado de cólicas.
Pode ainda relatar perda de feto e restos ovulares junto com o sangramento.
Outros sintomas vão ocorrer dependendo da gravidade do caso, tais como: fraqueza, tonturas, sudorese e perda da consciência
Exame clínico:
Verificação dos sinais vitais
Exame pélvico para se definir a forma clínica de aborto.
A depender do volume de sangramento, poderão estar presentes sinais de hipovolemia.
Palidez, taquicardia, hipotensão arterial, agitação, torpor e choque.
Se houver infecção, poderá haver também hipertermia, taquipneia e dor à palpação uterina.
Nos casos mais graves, é possível o encontro de dor abdominal e sinal de Blumberg positivo, indicando acometimento do peritônio parietal por processo inflamatório.
Exame especular:
Avaliar a quantidade e local de sangramento e se existem restos ovulares.
Eventualmente, poderá ser observada alguma lesão decorrente da manipulação de genitais por instrumental.
O toque vaginal bidigital e bimanual possibilita a determinação do volume uterino e dilatação cervical
Exames complementares
Laboratoriais:
Teste de gravidez, hemograma, urina tipo 1, tipagem sanguínea e triagem de anticorpos, coagulograma (tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativado, dosagem de fibrinogênio e dos produtos de a fibria), uréia, creatinina, bilirrubinas, gasometria e hemocultura devem ser solicitados conforme o quadro clínico da paciente.
Ultrassonografia pélvica:
Solicitada na ameaça de aborto, para se avaliar a vitalidade fetal, para confirmação de aborto completo ou na suspeita de complicações, como abscessos pélvicos.
Raio-X de abdômen:
Solicitado quando há suspeita de corpo estranho intrauterino e em situações em que há suspeita de perfuração uterina ou intestinal.
Tomografia Computadorizada:
Método de exame auxiliar a ultrassonografia na avaliação de complicações infecciosas.
A escolha por este método deve ser criteriosamente avaliada, considerando o risco de exposição à radiação decorrente deste método.
Manejo geral
A conduta deve ser individualizada segundo a gravidade de cada caso, semana de gravidez e tipo de aborto.
Condições potencialmente ameaçadoras à vida (como grandes sangramentos, sepse e choque) devem ser diagnosticadas e medidas iniciais de suporte devem ser tomadas:
Acionar a central de regulação de urgência e encaminhar a paciente para um hospital de referência (caso a paciente se encontre em unidades básicas ou pronto-atendimento);
Manter a paciente em jejum;
Manter as vias aéreas livres, fornecer oxigenoterapia se necessário;
Realizar venóclise em vaso calibroso (Abocath 14-16) e hidratação endovenosa com soro Fisiológico 0.9% ou Ringer Lactato (2 litros);
Sintomáticos:
Instituir tratamento antiespasmódico endovenoso para aliviar a dor:
Dipirona + Escopolamina inj.2,5g/5ml+20mg/5ml
Aplicar 1 amp (2,5g+20mg) de 12/12h, IV bolus lento (max 3 amp por dia).
Se houver febre, endovenoso:
Dipirona inj. 1g/2ml
Aplicar 1 amp (1g) de 6/6h, IV bolus lento, se dor (max 4g por dia).
Se nauseas e vomitos, endovenoso:
Dimenidrinato + Piridoxina inj. (Dramin® B6 DL) 30+50mg/10mL
Aplicar 1 amp + 10ml SF0,9% IV bolus lento (5 min) ou diluído em 100 mL SF0,9%, de até 6/6h (max 300 mg/dia), OU
Metoclopramida (Plasil®) inj. 10mg/2ml
Aplicar 1 amp (10mg) + 100ml SF0,9% IV de 8/8h, S/N (max 30mg/dia), OU
Bromoprida (Plamet®) inj. 10mg/2ml (alternativa na ausência das opções acima)
Aplicar 1 amp (10mg) + 100ml SF0,9% IV de 8/8h, S/N (max 30mg/dia).
Ameaça de aborto
- É possível o tratamento domiciliar, se não houver dificuldade de acesso do paciente aos serviços de saúde.
- A conduta nestes casos baseia-se em repouso físico e sexual, evitar o uso de absorventes internos, aumentar a ingesta hídrica, antiespasmódicos via oral (se necessário) e orientação para retorno quando houver piora da dor, aumento do sangramento ou febre.
- A mesma deve ser orientada a manter seguimento pré-natal.
Aborto completo
Após a confirmação dessa forma de aborto, pelo quadro clínico e exame ecográfico, a paciente deve receber alta do serviço com orientações para retornar se houver aumento da dor, do sangramento ou febre.
Orientar seguimento clínico ambulatorial.
Aborto inevitável ou incompleto
A paciente deve ser hospitalizada para correção de hipovolemia e anemia (se presentes) e resolução da gestação, por esvaziamento uterino da seguinte forma:
Idade gestacional inferior a 12 semanas: esvaziamento uterino por aspiração manual intrauterina (AMIU), vácuo-aspiração elétrica ou curetagem.
Idade gestacional superior a 12 semanas: aguardar eliminação do feto e realizar curetagem uterina na sequência.
Nestes casos, ocitocina deve ser prescrita para aumentar o tônus e a contratilidade uterina e auxiliar na eliminação de restos ovulares:
Ocitocina inj. 5 UI/mL
Endovenoso: fazer 20 UI em 500ml de soro fisiológico ou soro glicosado 5%, a 20 gotas/minuto.
Intramuscular: fazer 5 a 10 UI IM.
Nos casos em que o colo uterino não apresenta dilatação suficiente para realização do procedimento e o quadro clínico é estável, a paciente pode receber misoprostol (200μg) a cada 4-6 horas, em fundo de saco vaginal, até que o colo fique suficientemente dilatado e permita o esvaziamento uterino.
Misoprostol comp. 25 ou 100 ou 200μg
Fazer 200μg intravaginal a cada 6 horas.
Se houver instabilidade hemodinâmica, o colo uterino deve ser dilatado mecanicamente pela aplicação das Velas de Hegar.
Aborto retido
Essa forma de aborto, por ser assintomática, dificilmente será atendida em serviços de urgência.
Porém, após receber este diagnóstico, a paciente deve ser encaminhada para o serviço de referência para realizar a propedêutica específica e resolução da gestação, como orientada no item acima.
Aborto infectado
Considerações:
A conduta nesta forma de aborto é semelhante à adotada para aborto incompleto, associada ao uso de antibioticoterapia.
As pacientes deverão permanecer com terapia endovenosa por 48 horas após o último pico febril.
Primeira linha de antibioticoterapia:
Esquema:
Gentamicina + Clindamicina + Metronidazol, endovenoso por 7 a 14 dias.
Gentamicina inj. 40mg/1mlLou 80mg/2mL
Dose: 3 a 5 mg/kg/dia, dividido a cada 8h (com ou sem dose de ataque 2 mg/kg)
Diluir volume desejado em 50 a 200 mL SF0,9%
Exemplo 70 kg:
Ataque (se indicado): 3,5 mL (2 mg/kg) IV bolus lento
Manutenção: 1,7 a 2,9 mL (3 a 5 mg/kg) + 100 mL SF0,9%, IV a cada 8h
Clindamicina inj. 300mg/2mL ou 600mg/4mL ou 900mg/6mL
Aplicar 2 amp (de 300mg) + 100mL SF0,9%, IV a cada 6h, OU
Aplicar 1 amp (de 900mg) + 100mL SF0,9%, IV a cada 8h
Metronidazol inj. 500mg/100ml
Aplicar 1 bolsa (500mg), IV de 8/8h.
Outras alternativas para antibioticoterapia:
Opção 1: associação de Clindamicina + Gentamicina + Ampicilina, endovenoso por 7 a 14 dias.
Gentamicina inj. 40mg/1mlLou 80mg/2mL
Dose: 3 a 5 mg/kg/dia, dividido a cada 8h (com ou sem dose de ataque 2 mg/kg)
Diluir volume desejado em 50 a 200 mL SF0,9%
Exemplo 70 kg:
Ataque (se indicado): 3,5 mL (2 mg/kg) IV bolus lento
Manutenção: 1,7 a 2,9 mL (3 a 5 mg/kg) + 100 mL SF0,9%, IV a cada 8h
Clindamicina inj. 300mg/2mL ou 600mg/4mL ou 900mg/6mL
Aplicar 2 amp (de 300mg) + 100mL SF0,9%, IV a cada 6h, OU
Aplicar 1 amp (de 900mg) + 100mL SF0,9%, IV a cada 8h
Ampicilina pó inj. 250mg ou 500mg ou 1g
Aplicar 1 amp (de 500mg) + 100ml SF0,9%, IV a cada 6h
Dose: 500mg a cada 6h (max 12g/dia)
Opção 2: associação de Levofloxacino + Metronidazol, endovenoso por 7 a 14 dias.
Levofloxacino inj. 500mg/100mL ou 750mg/150mL
Aplicar 1 bolsa IV em 60-90 min, a cada 24h
Metronidazol inj. 500mg/100ml
Aplicar 1 bolsa (500mg), IV, de 8/8h
Opção 3: monoterapia, endovenoso por 7 a 14 dias:
Piperacilina+tazobactam pó inj. 4+0,5g
Aplicar 1 amp + 150 mL SF0,9%, IV a cada 6-8h
Meropenem pó inj 500mg ou 1g
Aplicar 1 amp (1g) + 100ml SF0,9% IV 30min, a cada 8h
Imipenem pó inj. 500mg
Aplicar 1 amp + 100ml SF0,9% IV a cada 6h
Ampicilina-sulbactam 1g+0,5g ou 2g+1g
Aplicar 1 amp (2g) + 100ml SF0,9% IV, de 6/6h
Doxiciclina pó inj. 100 mg ou 200 mg.
Dose de 100 mg IV a cada 12 horas.
Apresentação não disponível no Brasil.
Doxiciclina comp. 100mg
Tomar 1 cp, VO a cada 12 horas
Laparotomia exploratória
Em situações mais graves, a laparotomia exploratória para realização de histerectomia pode ser considerada, como nos seguintes casos:
Presença de massas anexiais
Suspeita de perfuração uterina
Gangrena uterina
Sepse
Falha das medidas clínicas usuais.
Referências
- Couto E, Hase EA. Sangramento na gravidez. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2021. cap. 3; p. 12-46. (Série, Orientações e Recomendações FEBRASGO, no.4/Comissão Nacional Especializada em Tromboembolismo Venoso e Hemorragia na Mulher).
- Doubilet PM, Benson CB: Further evidence against the reliability of the human chorionic gonadotropin discriminatory level. J Ultrasound Med 30 (12):1637–1642, 2011.
- Tratado de Ginecologia FEBRASGO / editores Cesar Eduardo Fernandes, Marcos Felipe Silva de Sá; coordenação Agnaldo Lopes da Silva Filho...[et al]. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS).Abortion care guideline. Geneva: World Health Organization, 2022.
- FEBRASGO – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.Manual de aborto seguro e legal: posicionamento institucional. São Paulo: Febrasgo, 2021. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/1135-aborto-seguro.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas.Atenção humanizada ao abortamento: norma técnica. Brasília: Ministério da Saúde, 2011.
- BRASIL. Ministério da Saúde.Cadernos de Atenção Básica: atenção ao pré-natal de baixo risco. Brasília: Ministério da Saúde, 2012. (Caderno nº 32).
- WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO).International classification of diseases 11th revision (ICD-11). Geneva: WHO, 2024.


