Doença trofoblástica
CID-10: O01 (Mola hidatiforme)
Definição
A doença trofoblástica gestacional (DTG):
Anomalia proliferativa que acomete células que compõem o tecido trofoblástico placentário, ainda que seus diferentes estágios histológicos difiram na propensão e regressão, invasão e recorrência.
Mola hidatiforme completa:
Hiperplasia difusa do trofoblasto, todas as vilosidades estão alteradas e exibem dilatação hidrópica repleta de fluido. Não há desenvolvimento de feto ou anexos e o risco de progressão para formas malignas é de 20%.
Mola hidatiforme parcial:
Hiperplasia focal do trofoblasto, com edema focal e fibrose do estroma. Neste caso, existe feto geralmente malformado (cariótipo triplóide) e o risco de progressão para formas malignas é de 5%.
Mola invasora:
Forma persistente da mola hidatiforme.
Coriocarcinoma:
Forma maligna de DTG, com grande potencial para metástase, mesmo na ausência de doença em útero ou pelve.
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História e exame físico geral
Diagnóstico:
O diagnóstico de DTG pode ser aventado quando a mulher em idade reprodutiva se queixa de sangramento genital de volume variável, na maioria das vezes persistente, dor em cólica em hipogástrio, crescimento uterino rápido e eliminação genital de material amorfo vesicular.
É comum a história de náuseas e vômitos importantes (hiperêmese), hipertensão associada à proteinúria (mimetizando pré-eclâmpsia de início precoce) e sintomas de hipertireoidismo.
Exame clínico:
Sinais periféricos de anemia e hipovolemia, a depender do volume e tempo de sangramento.
Em algumas situações, a paciente pode apresentar perda de peso e sinais de desidratação secundários a hiperêmese.
Hipertensão arterial é um achado comum nos casos de mola no segundo trimestre gestacional.
Exame obstétrico:
Altura uterina maior que a esperada para a idade gestacional.
Ausência de batimentos cardíacos.
Ausência de movimentos fetais.
Exame especular:
Avaliar a quantidade e local de sangramento e observação de vesículas no conteúdo vaginal.
Eventualmente, poderá ser observada alguma lesão tumoral em colo e/ou vagina, nas formas mais graves de DTG.
O toque vaginal bidigital e bimanual possibilita a determinação do volume uterino e dilatação cervical.
Exames laboratoriais
São necessários para confirmação do diagnóstico, avaliação do comprometimento sistêmico e para seguimento da paciente os seguintes exames:
Dosagem sérica de β – HCG:
Os níveis normalmente são superiores aos níveis esperados de uma gestação normal.
Nos casos de mola hidatiforme:
Completa: são elevados e quase metade das pacientes têm níveis superiores a 100.000 mUI/ml (podendo ser observados valores superiores a 5x10⁶ mUI/ml).
Parcial: os níveis são menores nas pacientes com mola parcial, em relação aos casos de mola completa. Níveis aumentados, mas em geral < 100 000 mUI/mL; raramente muito mais elevados.
Coriocarcinoma: β‑hCG frequentemente > 40 000 mUI/mL, podendo chegar a dezenas ou centenas de milhares.
Níveis esperados de β – HCG em uma gestação normal:
Variação ampla; picos entre 7 000–230 000 mUI/mL no 1º trimestre.
3 semanas: 5 – 50
4 semanas: 5 – 428
5 semanas: 18 – 7 340
6 semanas: 1 080 – 56 500
7–8 semanas:7 650 – 229 000
9–12 semanas: 25 700 – 288 000
13–16 semanas: 13 300 – 254 000
17–24 semanas: 4 060 – 165 400
25–40 semanas: 3 640 – 117 000
Ultrassonografia transvaginal ou pélvica:
Achados ecográficos mais comuns, são a presença de múltiplas áreas eco negativas entremeadas por ecos amorfos (simulando “flocos de neve”), placenta espessa, feto (quando presente) com múltiplas malformações e cistos ovarianos teca – luteínicos.
Exame anatomopatológico (do material eliminado ou obtido após resolução da gestação):
Todo o tecido extraído do útero deve ser enviado para exame histológico para confirmação diagnóstica, planejamento de seguimento e tratamento.
Exames gerais:
Hemograma, coagulograma, tipo sanguíneo e triagem de anticorpos;
Função hepática e renal;
Raio-X de tórax.
Tratamento
Medidas gerais:
Correção dos distúrbios maternos associados à DTG, tais como: anemia, tireotoxicose, hipertensão e distúrbios hidroeletrolíticos.
Quando há suspeita ultrassonográfica ou clínica de mola hidatiforme, o conteúdo da cavidade uterina deve ser esvaziado.
Recomenda-se a vácuo-aspiração elétrica, complementada pela curetagem uterina para confirmação da remoção completa do material molar.
A curetagem deve ser evitada no início do procedimento, devido ao risco elevado de perfuração e de maior perda sanguínea.
O uso de drogas que provocam contrações uterinas deve ser evitado, pois se sabe que contrações uterinas antes do esvaziamento da mola aumentam o risco de evolução para doença persistente e de embolização trofoblástica para vasos pulmonares.
No entanto, nos casos de mola hidatiforme parcial com feto no segundo trimestre e estabilidade hemodinâmica materna, permite-se o uso cuidadoso de prostaglandinas vaginais para dilatação do colo e expulsão fetal previamente ao esvaziamento uterino.
Quando não for possível o uso de prostaglandinas (mola hidatiforme completa ou instabilidade materna) o colo uterino deve ser dilatado mecanicamente pela aplicação de Velas de Hegar.
Após o esvaziamento uterino, pacientes Rh negativos devem receber imunoglobulina anti-D nas doses habituais, visto que o trofoblasto expressa o fator RhD.
Seguimento:
As pacientes devem ser encaminhadas para seguimento em ambulatórios de ginecologia oncológica devido ao risco de doença persistente.
Anticoncepção efetiva deve ser prescrita para essas mulheres na alta Hospitalar após o esvaziamento uterino.
A gravidez pode ser considerada apenas após um ano a fim de evitar recidiva de doença.
Referências
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas.Doença trofoblástica gestacional: protocolo clínico e diretrizes terapêuticas. Brasília: Ministério da Saúde, 2013.
- FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA – FEBRASGO. Manual de Condutas: Doença Trofoblástica Gestacional. São Paulo: Febrasgo, 2020.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO).WHO Abortion Care Guideline. Geneva: World Health Organization, 2022.
- MOUNT SINAI HOSPITAL.HCG (Quantitative) Blood Test. New York: Mount Sinai, 2023.
- CLEVELAND CLINIC.Human Chorionic Gonadotropin (hCG). Cleveland: Cleveland Clinic, 2023.
- CLEVELAND CLINIC.Choriocarcinoma. Cleveland: Cleveland Clinic, 2024. Disponível em: https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/24863-choriocarcinoma.
- BERKOWITZ, R. S.; GOLDSTEIN, D. P.Clinical practice: Molar pregnancy. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 360, n. 16, p. 1639-1645, 2009.


