Escroto agudo (torção testicular)

CID 10: N492 (Transtorno inflamatório do escroto)
CID 10: N44 (Torção do testículo)

Aspectos gerais

  • O escroto agudo trata-se de uma emergência urológica, que apresenta-se com dor e aumento do volume escrotal.

 

  • Pode envolver patologias que exigem abordagem imediata, como a torção do cordão espermático (torção testicular) ou a ruptura da túnica albugínea após trauma, bem como condições que se resolvem com tratamento clínico, como a orquiepididimite. 

 

  • Cerca de 2/3 dos casos de escroto agudo atendidos em pronto‑atendimento são de orquiepididimite, que em adultos é causada predominantemente por bactérias (enterobactérias e patógenos associados a DSTs).

 

  • A torção do cordão espermático, também chamada de torção testicular, responde por aproximadamente 1/3 dos pacientes com escroto agudo. 

 

  • O atendimento deve priorizar analgesia imediata, identificação rápida de causas que requerem cirurgia e avaliação complementar, sempre considerando que o atraso no manejo, ou a não percepção do diagnóstico, pode levar à perda do testículo.

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Epidemiologia e causas

  • Torção do cordão espermático (ou torção testicular):

    • Considera‑se que todo quadro de escroto agudo seja torção até prova em contrário. Um em cada três pacientes com escroto agudo apresenta torção do cordão espermático.

    • A torção pode ser extravaginal ou intravaginal. 

      • A forma extravaginal ocorre nos recém‑nascidos durante os primeiros dias de vida e é responsável por quase todos os casos de atrofia testicular pós‑correção de criptorquidia. 

      • A forma intravaginal predomina em crianças maiores e adolescentes, com pico na puberdade; caracteriza‑se por dor súbita de grande intensidade, não relacionada a trauma ou atividade física, e pela ausência do reflexo cremastérico. 

 

  • Torção dos apêndices testiculares:

    • É a causa mais comum de dor escrotal aguda em crianças pré-púberes. Deve ser incluída no diagnóstico diferencial de qualquer homem que apresente escroto agudo, particularmente na faixa etária pediátrica.

    • O quadro clínico é semelhante ao da torção do cordão, mas com dor e sinais locais de menor intensidade.

 

  • Orquiepididimite:

    • Ir para Epididimite e Orquite.

    • Doenças inflamatórias dos testículos e do epidídimo instalam‑se de maneira gradual, geralmente com sintomas urinários e febre. 

    • O escroto encontra‑se aumentado, com rubor e dor intensa. 

    • A orquiepididimite é a causa mais comum no pronto atendimento e requer antibioticoterapia adequada.

 

  • Outras causas:

    • Outras causas incluem: hérnia inguinoescrotal, hidrocele comunicante, edema idiopático do escroto, púrpura de Henoch–Schönlein, trauma escrotal e tumores. 

    • Na síndrome de Fournier (fascite necrosante perineal), observada em diabéticos e imunocomprometidos, surgem edema acentuado e áreas de necrose e enfisema da pele escrotal.

    • Trauma testicular também pode gerar escroto agudo e é essencial determinar se houve ruptura da túnica albugínea.

Quadro clínico

  • Torção do cordão espermático (ou torção testicular):

    • Dor testicular súbita, intensa, frequentemente acordando o paciente durante a noite, sem relação com esforços ou trauma. Podem ocorrer náuseas e vômitos.

    • O testículo afetado fica elevado e assumindo posição transversal; pode haver assimetria do volume em relação ao lado contralateral e ausência do reflexo cremastérico. 

 

  • Torção dos apêndices testiculares:

    • Causa dor semelhante à torção testicular, embora o início geralmente seja mais gradual. 

    • A dor costuma ser mais localizada no polo superior do testículo ou no epidídimo. 

    • Normalmente, não está associada a sintomas urinários ou sinais sistêmicos, como febre, náuseas ou vômitos. 

    • Pode haver uma massa palpável localizada na área de maior sensibilidade.

    • O escroto geralmente parece normal e o reflexo cremastérico geralmente está intacto.

 

  • Como diferenciar da epididimite/orquite?

    • Nas orquiepididimites, a dor se instala gradualmente; há febre, queixas urinárias e aumento progressivo do escroto com rubor. 

 

  • Como avaliar o reflexo cremastérico?

    • O reflexo cremastérico é um reflexo superficial encontrado em humanos do sexo masculino, eliciado quando a parte interna da coxa é acariciada. 

    • O toque na pele faz com que o músculo cremastérico se contraia e puxe o testículo ipsilateral em direção ao canal inguinal. 

    • Como outros reflexos superficiais, ele é simplesmente classificado como presente ou ausente.

Diagnóstico

  • Torção do cordão espermático (ou torção testicular):

    • A história e o exame físico compatíveis normalmente são suficientes para o diagnóstico (descrito no tópico acima).

    • Normalmente, os casos se apresentam com achados clínicos típicos, não sendo necessário o exame de imagem para diagnóstico (o ultrassom só deve ser solicitado se não atrasar a cirurgia).

    • Em pacientes sem sinais clínicos claros de torção, a ultrassonografia da bolsa testicular com Doppler é o exame de escolha. 

    • A ausência de fluxo sanguíneo no testículo afetado ao Doppler é achado característico de torção.

 

  • Torção dos apêndices testiculares:

    • Palpação e transiluminação podem identificar um apêndice testicular aumentado e de cor escura;

    • A ultrassonografia com Doppler demonstra fluxo normal no testículo.

Torção testicular

  • Diante de quadro sugestivo de torção testicular (torção do cordão espermático) deve‑se comunicar imediatamente a retaguarda cirúrgica (urologia ou cirurgia pediátrica) e transferir o paciente rapidamente para unidade cirúrgica.

 

  • Manobras manuais no atendimento precoce podem reposicionar o testículo, desfazendo a torção com alívio imediato da dor, mas não dispensam a cirurgia definitiva.

 

  • Todos os esforços devem ser feitos para reduzir o tempo entre a chegada do paciente e a transferência para o centro cirúrgico. Até 6 horas de sintomas, a taxa de salvamento testicular é de aproximadamente 90%. 

 

  • O tratamento é cirúrgico:

    • A cirurgia permite confirmação diagnóstica e redução da torção. 

    • Na cirurgia, realiza‑se a redução da torção, avalia‑se a viabilidade do testículo e procede‑se à orquiopexia bilateral; testículos inviáveis são removidos. 

    • No recém‑nato com torção extravaginal, a abordagem deve ser inguinal e inclui fixação contralateral.

Torção dos apêndices

  • A torção do apêndice testicular é geralmente uma condição autolimitada e a maioria dos casos requer apenas terapia conservadora

    • O tratamento conservador inclui repouso no leito, elevação escrotal, aplicação de gelo, anti-inflamatórios não esteroidais e analgésicos. 

    • A inflamação e a dor geralmente desaparecem em uma semana, mas podem persistir por mais tempo. A excisão cirúrgica pode ser considerada em casos de dor prolongada.

    • Se houver qualquer dúvida sobre o diagnóstico, deve-se solicitar avaliação urológica e, se necessário, uma exploração escrotal deve ser realizada para excluir definitivamente a torção testicular.

 

  • Analgésicos simples

    • Dipirona 500mg ou 1g

      • Tomar 1 cp de 6/6h (max 4g por dia)

    • Paracetamol 500mg ou 750mg

      • Tomar 1 cp de 6/6h (max 4g por dia)

 

  • AINEs não-seletivos da COX-2

    • Ibuprofeno 200mg ou 300mg ou 400mg ou 600mg

      • Tomar 1 cp de 6/6h (max 3,2g por dia)

    • Diclofenaco 50mg

      • Tomar 1 cp de 8/8h (max 150mg por dia)

    • Cetoprofeno 50mg ou 100mg ou 150mg

      • Tomar 1 cp de 12/12h (max 300mg por dia)

    • Naproxeno comp. 250mg ou 500mg

      • Tomar 1 cp de 12/12h (max 1 a 1,5g por dia)

    • Naproxeno comp. revest. 275mg ou 550mg

      • Tomar 1 cp de 12/12 h (max 1 a 1,5g por dia)

 

  • AINEs seletivos da COX-2

    • Celecoxib 100mg ou 200mg

      • Tomar 1 cp de 12/12h (max 400mg por dia)

    • Etoricoxib 60mg ou 90mg

      • Tomar 1 cp uma vez ao dia (max 90mg por dia)

    • Etodolaco 300mg ou 400mg ou 500mg

      • Tomar 1 cp (de 300mg) de 8/8h (max 1g por dia)

    • Nimesulida 100mg

      • Tomar 1 cp de 12/12h (max 400mg/dia)

Orquiepididimite

 

  • O tratamento da orquiepididimite envolve medidas clínicas como:

    • Repouso no leito;

    • Elevação do escroto;

    • Resfriamento local / compressa fria;

    • Analgésicos e AINEs.

    • Antibioticoterapia;

 

  • A intervenção cirúrgica  somente é realizada se existir evidências de complicações: abscessos do epidídimo ou do testiculo.

Orientações na alta

  • Para pacientes atendidos por dor testicular que não necessitaram de internação ou cirurgia, devem ser fornecidas orientações e programada consulta ambulatorial para avaliação, se possível com urologista.

 

  • As orientações incluem:

    • Medicação e atividade física – Não usar medicamentos não prescritos; evitar atividades físicas, levantar peso ou movimentos que agravem a dor; usar suspensório escrotal ou roupa íntima justa para suporte testicular.

    • Aplicação de gelo – Aplicar bolsa de gelo envolta em toalha sobre a área dolorida por 10 a 20 minutos, várias vezes ao dia, para reduzir inchaço e dor. Evitar contato direto do gelo com a pele para prevenir queimaduras.

    • Acompanhamento – Agendar consulta de acompanhamento com urologista; se necessário.

    • Sinais de alarme para retorno imediato – piora da dor apesar dos medicamentos, dor persistente por mais de dois dias, inchaço progressivo, secreção uretral, febre, lesões no pênis, dificuldade miccional, sensação de peso ou pressão no testículo, ou presença de sangue na urina.

Referências

  • Sociedade Brasileira de Urologia; Colégio Brasileiro de Radiologia. Escroto Agudo: Diagnóstico e Tratamento. Projeto Diretrizes, Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina; elaboração final em 27 de junho de 2006.

  • Hospital Israelita Albert Einstein. Guia de Episódio de Cuidado: Escroto Agudo. São Paulo: Serviço de Urologia; aprovado em 2024.

  • Pomajzl AJ, Leslie SW. Apêndice Torção Testicular. [Atualizado em 12 de fevereiro de 2024]. Em: StatPearls [Internet]. Ilha do Tesouro (FL): StatPearls Publishing; jan. de 2025.

Autoria e Curadoria

As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.