Molusco contagioso na criança
CID-10: B08.1
Informações gerais
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O molusco contagioso é uma infecção cutânea viral relativamente comum na faixa etária pediátrica, caracterizada por pápulas peroladas ou da cor da pele, geralmente com umbilicação central (característica que facilita sua diferenciação clínica de outras lesões dermatológicas, como as verrugas vulgares).
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Etiologia: A etiologia está relacionada ao Molluscum contagiosum virus (MCV), pertencente à família Poxviridae, o mesmo grupo viral da varíola.
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Transmissão: A principal via de transmissão é o contato direto com lesões cutâneas infectadas, embora os fômites também possam desempenhar um papel, especialmente em ambientes de convívio coletivo.
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A infecção manifesta-se com maior frequência em indivíduos imunocomprometidos, como pessoas vivendo com HIV, e em crianças com predisposição a doenças cutâneas, particularmente aquelas com dermatite atópica ou pele seca, nas quais a integridade da barreira cutânea encontra-se comprometida.
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A compreensão do perfil epidemiológico e imunológico do paciente é fundamental para o manejo clínico adequado e para a orientação quanto às medidas preventivas.
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Quadro clínico
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As lesões de molusco contagioso manifestam-se como pápulas hemisféricas, brilhantes, da cor da pele ou translúcidas, indolores, geralmente medindo cerca de 5 mm de diâmetro.
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Podem surgir isoladas ou em agrupamentos, com tamanhos variáveis, sendo a umbilicação central uma característica morfológica distintiva.
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Distribuem-se preferencialmente no tronco em crianças, mas podem acometer qualquer região cutânea.
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São auto inoculáveis, frequentemente surgindo em áreas de microtraumas, como as provocadas por escoriações ou prurido, o que caracteriza o fenômeno de Koebner.
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Embora o prurido nem sempre esteja presente, ele pode contribuir para a disseminação das lesões.
Considerações sobre o tratamento
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O tratamento do molusco contagioso é indicado principalmente em casos de doença extensa, presença de complicações como infecção secundária, dermatite associada ou conjuntivite, além de queixas estéticas.
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É fundamental orientar pais e responsáveis quanto à evolução natural da infecção sem intervenção e aos possíveis efeitos colaterais das terapias disponíveis.
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Lesões em mucosas oculares ou nas pálpebras não devem ser tratadas com métodos destrutivos ou agentes tópicos. Pacientes com envolvimento ocular sintomático devem ser avaliados por oftalmologista.
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Diversas abordagens terapêuticas estão disponíveis para o tratamento do molusco contagioso, incluindo métodos mecânicos, agentes químicos, imunomoduladores e antivirais.
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No entanto, ainda não há consenso definitivo na literatura quanto à estratégia mais eficaz.
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Para minimizar o desconforto associado aos procedimentos, recomenda-se a aplicação prévia de anestésicos tópicos, com antecedência de aproximadamente 30 a 60 minutos.
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O tratamento das lesões de molusco contagioso oferece benefícios como a redução do tempo de duração da doença, menor risco de autoinoculação e transmissão, além de aliviar o estresse emocional de pacientes e familiares.
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Também contribui para prevenir cicatrizes decorrentes de inflamação, trauma ou infecção secundária das lesões.
Métodos mecânicos
Os métodos mecânicos são considerados a primeira linha de tratamento e devem ser realizados por profissional habilitado. Na atenção primária, os pacientes devem ser encaminhados para os serviços de dermatologia ou pequenas cirurgias.
Curetagem no tratamento do Molusco Contagioso (MC):
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Método eficaz de remoção mecânica das lesões.
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Realizada com cureta dermatológica ou punch (instrumento de biópsia).
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Resolução imediata, sendo frequentemente considerada a primeira escolha terapêutica.
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Pode ser seguida da aplicação tópica de iodo povidona, que pode potencializar outros tratamentos.
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Possíveis efeitos adversos: dor, sangramento e formação de cicatrizes.
Crioterapia no tratamento do Molusco Contagioso:
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Utiliza nitrogênio líquido, aplicado com cotonete ou, menos comumente, por pulverizador (este último com maior risco de cicatrizes).
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Realizam-se 1 a 2 ciclos de 10 a 20 segundos, com frequência semanal.
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Geralmente bem tolerada por adolescentes e adultos
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Dor associada ao procedimento pode limitar seu uso em crianças.
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Possíveis efeitos adversos: formação de bolhas, cicatrizes, hipopigmentação ou hiperpigmentação pós-inflamatória.
Terapias tópicas ambulatoriais
As terapias tópicas descritas abaixo são alternativas terapêuticas para tratamento em ambiente ambulatorial, devendo ser realizadas por um profissional habilitado.
Escolha uma das opções:
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Ácido tricloroacético sol. 20 ou 35%
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Aplicar com haste de algodão no centro das lesões até frosting (branqueamento das lesões), a cada 1 ou 2 semanas, até resolução clínica.
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Nitrato de prata sol. 5%
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Aplicar com haste de algodão no centro das lesões, 1 a 3 aplicações até o surgimento e posterior descolamento da crosta, o que ocorre entre 10 e 14 dias após a primeira aplicação.
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Cantaridina sol. 0,7-0,9%
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Aplicar nas lesões, com ou sem oclusão, deixar por 2 a 4 horas e lavar com água e sabão.
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Pode-se repetir o processo a cada 2 a 4 semanas até resolução clínica.
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Bolha sob a lesão é um efeito esperado.
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Evitar uso em lesões na face e região anogenital devido ao risco de inflamação e linfangite.
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Contraindicada em área de mucosa ou próximas a mucosas.
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Utilizada em crianças > 2 anos.
Terapias tópicas domiciliares
As terapias tópicas descritas abaixo são alternativas terapêuticas para tratamento domiciliar, podendo ser aplicadas pelo próprio paciente com as devidas orientações.
Escolha uma das opções:
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Hidróxido de Potássio (KOH) sol. 5%
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Aplicar sobre as lesões com cotonete durante 30 segundos a cada 12 horas por 7 dias, ou até o aparecimento de leve inflamação local.
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Modo de uso e orientações:
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A aplicação deve ser realizada com cuidado apenas sobre as lesões, evitando contato com a pele saudável.
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Ardor ou queimação leve podem ocorrer após a aplicação — sintomas esperados, especialmente em concentrações maiores.
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Observar o surgimento de vermelhidão, crostas ou sinais de inflamação leve, que indicam resposta ao tratamento.
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Caso surjam reações intensas (dor significativa, bolhas ou irritação excessiva), interromper o uso e procurar orientação médica.
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Evitar uso em áreas sensíveis, como ao redor dos olhos, mucosas ou lesões já inflamadas.
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Hidróxido de Potássio (KOH) sol. 20%
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Aplicar sobre as lesões com cotonete durante 30 segundos a cada 12 horas por 7 dias, ou até o aparecimento de leve inflamação local. Sob supervisão médica.
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Peróxido de benzoíla gel 10%
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Aplicar duas vezes ao dia por 7 dias, ou conforme resposta clínica.
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Peróxido de hidrogênio – manipulado creme 1%
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Aplicar duas vezes ao dia por 7 dias, ou conforme resposta clínica.
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Imiquimode creme 5%
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Aplicar uma fina camada sobre as lesões, à noite, 3 vezes por semana (em dias alternados), por até 16 semanas
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Orientações de uso:
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Lavar a área tratada com água e sabão após 6 a 10 horas da aplicação.
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Evitar contato com mucosas e áreas periorbitais.
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Pode causar dor, prurido, eritema, bolhas, alterações pigmentares e cicatrizes.
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Não indicado para crianças pequenas ou pacientes imunocompetentes com lesões leves.
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Tretinoína creme 0,05%
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Aplicar nas lesões uma vez ao dia, à noite até resolução clínica;
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Ácido salicílico + ácido lático sol. 147,7 mg/mL + 130 mg/mL
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Aplicar nas lesões uma vez ao dia, até resolução clínica;
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Cidofovir 1% a 3% – Formulação Tópica (uso magistral)
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Molusco contagioso grave, refratário ou disseminado em pacientes imunossuprimidos
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Aplicar 1 a 2 vezes ao dia, conforme tolerância, por até 4 semanas, com monitoramento clínico.
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Orientações de uso:
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Uso restrito sob prescrição e acompanhamento médico.
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Pode causar irritação intensa, erosões dolorosas no local de aplicação.
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Evitar mucosas e áreas sensíveis.
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Em caso de irritação intensa, suspender o uso.
Precauções
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É fundamental que os responsáveis adotem medidas para reduzir o risco de transmissão do molusco contagioso (MC).
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Não é necessário afastar as crianças da creche, escola ou atividades esportivas de contato, desde que as lesões estejam devidamente cobertas por roupas ou curativos, pois assim não são transmissíveis.
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Recomenda-se evitar o compartilhamento de esponjas de banho e suspender banhos coletivos até a efetivação do tratamento.
Referências
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SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Documento Científico. Departamento Científico de Dermatologia (2019-2021). Verrugas: epidemiologia, transmissão e aspectos clínicos. Nº 6, maio 2020.
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Frauches DO, Siqueira CCM, Mata TFD. Tratamento de Molusco Contagioso em crianças: uma revisão sistemática de literatura. Rev Bras Med Fam Comunidade. 2017;12(39):1-12.
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Hebert AA, Bhatia N, Del Rosso JQ. Molluscum Contagiosum: Epidemiology, Considerations, Treatment Options, and Therapeutic Gaps. J Clin Aesthet Dermatol. 2023; 16(8 Suppl 1):S4-S11.


