Leishmaniose Tegumentar no Adulto
CID-10:B55
Considerações gerais
Definição:
A leishmaniose tegumentar (LT) é uma doença infecciosa causada pelo protozoário leishmania. A LT acomete pele e mucosas e não é contagiosa.
Transmissão pela picada do mosquito fêmea (mosquitos do gênero Lutzomyia) infectada.
Quadro clínico:
Manifesta-se através de lesões cutâneas
Úlceras:circunscrita com fundo granuloso, bordas bem delimitadas e elevadas e indolor.
O acometimento mucoso pode ocorrer anos após o contato ou da cura parcial da doença.
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Classificação
Localizada
Pápula que pode ser crostosa ou ulcerada, é indolor e não pruriginosa;
Pode estar relacionada à disseminação esporotricótica, apresentando lesões satélites e várias outras lesões;
Normalmente autolimitada (resolução de 2 a 12 meses sem terapia), embora haja casos de persistência, resistência ao tratamento e evolução para lesões mucocutâneas;
Após a resolução, há uma imunidade duradoura e eficaz contra a espécie responsável.
Disseminada
Múltiplas pápulas ou nódulos cutâneos não ulcerados e indolores;
Acomete várias áreas da pele (face, ouvido e extremidades), evoluindo para o corpo todo;
Frequente em pacientes coinfectados pelo HIV ou imunodeficiências.
Recidivante
Recidiva das lesões nos sítios previamente curados após anos da infecção original;
Tipicamente em face;
Lesões centrais ou periféricas em uma cicatriz de leishmaniose curada.
Diagnóstico
Clínica + história epidemiológica.
Exames complementares:
Parasitológico: esfregaço da lesão para pesquisa de amastigotas, biópsia e punção aspirativa da lesão.
Imunológicos: sorologia por imunofluorescência indireta, ELISA, teste rápido para imunocromatográficos;
Moleculares: PCR para genes específicos do gênero ou espécie
Manejo geral
Considerações:
O paciente com suspeita e/ou confirmação de leishmaniose tegumentar deve ser encaminhado para tratamento com especialista (infectologia).
O tratamento depende da forma clínica, localização, número de lesões e espécie do parasito.
Esquemas Terapêuticos
Lesões cutâneas únicas <3 cm (exceto cabeça/periarticulares): terapia local.
Lesões múltiplas ou ≥3 cm, ou localizadas em áreas críticas: tratamento sistêmico.
Leishmaniose mucosa: requer tratamento sistêmico imediato.
Contraindicações e Cuidados
Antimoniais: contraindicados em pacientes com insuficiência hepática, renal ou cardíaca descompensada.
Pentamidina: contraindicado em gestantes e pacientes com distúrbios glicêmicos.
Monitorar eletrólitos, função hepática e renal durante o tratamento com qualquer agente sistêmico.
Acompanhamento Pós-Tratamento
Pacientes devem ser acompanhados por pelo menos 12 meses após o tratamento para avaliar resposta clínica, cicatrização e detectar precocemente recidivas ou progressão para formas mucosas.
Leishmaniose cutânea localizada (LCL)
Leishmania braziliensis e outras espécies, exceto L. guyanensis.
Lesão única ou múltipla de qualquer tamanho e localização
Primeira linha: Antimoniato de meglumina OU Anfotericina B lipossomal.
Segunda linha: Desoxicolato de anfotericina B OU Isetionato de pentamidina, exceto em gestantes e lactantes.
Lesão única com até 3 cm no seu maior diâmetro, em qualquer localização, exceto cabeça e regiões periarticulares, incluindo recidiva cútis e sem imunossupressão.
Todas as indicações de primeira escolha recomendadas para lesão única ou múltipla de qualquer tamanho e localização. Outra opção: Antimoniato de meglumina intralesional.
Leishmania guyanensis
Lesão única ou múltipla de qualquer tamanho e localização
Primeira linha: Isetionato de pentamidina OU Anfotericina B lipossomal
Segunda linha: Antimoniato de meglumina OU Desoxicolato de anfotericina B.
Lesão única com até 3 cm no seu maior diâmetro, em qualquer localização, exceto cabeça e regiões periarticulares, incluindo recidiva cútis e sem imunossupressão.
Todas as indicações de primeira escolha recomendadas para lesão única ou múltipla de qualquer tamanho e localização.
Outra opção: Antimoniato de meglumina intralesional.
Leishmaniose recidiva cútis (LRC)
Os pacientes que evoluírem para LRC de forma espontânea ou após o primeiro esquema de tratamento deverão ser tratados ou retratados, respectivamente, conforme preconizado para LCL.
Após completar os dois esquemas preconizados para LCL, sem resultado favorável, o paciente deverá ser encaminhado para o centro de referência.
Leishmaniose cutânea disseminada (LD)
Primeira linha: Antimoniato de meglumina OU Anfotericina B lipossomal.
Segunda escolha: Desoxicolato de anfotericina B.
Leishmaniose cutânea difusa (LCD)
Primeira escolha: Isetionato de pentamidina.
Segunda escolha: Antimoniato de meglumina OU Desoxicolato de anfotericina B OU Anfotericina B lipossomal.
Leishmaniose mucosa (LM)
Primeira escolha: (Antimoniato de meglumina + Pentoxifilina) OU Antimoniato de meglumina OU Anfotericina B lipossomal.
Segunda escolha: Desoxicolato de anfotericina B OU Isetionato de pentamidina.
Medicamentos disponíveis
O tratamento medicamentoso deve ser prescrito e acompanhado por médico especialista (infectologista).
Antimoniato de meglumina (Glucantime®) inj. ampola 5 ml
Uma ampola corresponde a 405 mg de Sb+5,ou seja, cada ml contém 81 mg de Sb+5.
Sistêmica: 10 mg a 20 mg Sb+5/kg/dia. Administrar, preferencialmente, por via endovenosa (EV) lenta por, no mínimo, cinco minutos. Infundir no máximo três ampolas por dia.
Não há necessidade de diluir, no entanto, pode-se fazer a diluição em 100 ml de soro glicosado 5% e administração lenta em 30 minutos.
Intralesional: de uma a três aplicações, por via subcutânea (SC) de, aproximadamente, 5 ml por sessão, com intervalo de 15 em 15 dias.
Duração do tratamento de 20 dias (cutânea) ou 30 dias (mucosa).
Exemplo:
Considerar: Paciente com leishmaniose tegumentar com 60 kg.
Frasco com 5 ml, contendo 81 mg/Sb+5 por ml.
Cálculo da dose 10 mg Sb+5/kg/dia:
10 mg/kg de Sb+5/dia x 60 kg = 600 mg de Sb+5/dia
600 mg ÷ 81 mg/Sb+5 = 7,4 ml ≈ 1,5 ampola/dia
Cálculo da dose 15 mg Sb+5/kg/dia:
15 mg/kg de Sb+5/dia x 60 kg = 900 mg de Sb+5/dia
900 mg ÷ 81 mg/Sb+5 = 11,1 ml ≈ 2 ampolas/dia
Cálculo da dose 20 mg Sb+5/kg/dia:
20 mg/kg de Sb+5/dia x 60 kg = 1.200 mg de Sb+5/dia
1.200 mg ÷ 81 mg/Sb+5 = 14,8 ml ≈ 3 ampolas/dia
Desoxicolato de anfotericina B pó inj. 50 mg
Dose de 0,7 a 1,0 mg/kg/dia, EV, com dose total de 25 a 40 mg/kg.
Dose máxima diária de 50 mg.
Reconstituir 50 mg em 10 mL de água para injetáveis. E diluir 10 mL + 490 mL de SG 5% (concentração de 0,1 mg/mL).
A infusão deverá ocorrer por intravenosa lenta, aplicando durante um período de aproximadamente 4 a 6 horas, observando-se as precauções usuais para a terapêutica intravenosa.
Exemplo:
Considerar: Paciente com peso de 60 kg.
Dose diária: 0,7 mg/kg/dia.
Cálculo da dose diária: 0,7 mg/kg/dia x 60 kg = 42mg/dia.
Dose acumulada: 30 mg/kg.
Cálculo da dose total: 30 mg/kg x 60 kg = 1.800 mg (36 ampolas). (1 ampola = 50 mg)
N° de ampolas: 42 mg/dia ÷ 50 mg/ampola = 0,84 ampola/dia ou, se cada ampola tem 10 ml, a dose será de 8,4 ml/dia da solução inicial (reconstituída).
Dessa forma, o tratamento será realizado com 0,84 ampola/dia (8,4 ml/dia da solução reconstituída) durante 42 a 43 dias consecutivos ou alternados (total de 36 ampolas).
Anfotericina B lipossomal pó inj. ampola 50 mg
Dose de 2 a 3 mg/kg/dia, a depender da forma clínica, sem limite de dose máxima diária, em dias alternados.
Dose total: 20 a 40 mg/kg, dependendo da resposta clínica.
A escolha do volume final de infusão depende da tolerância do paciente para receber a medicação no tempo recomendado de 30 a 60 minutos.
Para doses acima de 5 mg/kg/dia, recomenda-se infundir durante duas horas.
Reconstituir o pó em 12 ml de água destilada para injeção. A cada 1 ml do frasco reconstituído (4 mg) pode ser diluído em 1 ml a 19 mL de solução glicosada a 5%. Portanto, o volume final variaria de 96 ml a 960 ml.
Exemplo:
Considerar: Paciente com peso de 60 kg.
Dose diária: 3 mg/kg/dia.
3 mg/kg/dia x 60 kg = 180 mg/dia.
N° de ampolas: 180 mg/dia ÷ 50 mg/ampola = 3,6 ampolas/dia.
Neste caso, como a dose diária pode variar de 3 mg a 5mg/kg/dia, recomenda-se arredondar para 200 mg/dia (4 ampolas/dia), o que corresponde a 3,3 mg/kg/dia. A dose total deverá ser mantida (1.800 mg).
Dose acumulada: 30 mg/kg.
Cálculo da dose total: 30 mg/kg x 60 kg = 1.800 mg (36 ampolas).
1 ampola = 50 mg.
Dessa forma, o tratamento será realizado com 4 ampolas/dia durante nove dias consecutivos (total de 36 ampolas).
Isetionato de Pentamidina pó inj.ampola com 300 mg
Dose de 2 - 4 mg/kg/dia, em dias alternados, de 3 a 10 doses dependendo da região e da forma clínica.
Reconstituir em 5 ml de AD. Diluir em 50 ml a 200 ml de solução de glicosada ou de solução salina a 0,9%.
A dose recomendada deve ser administrada de preferência por perfusão intravenosa lenta com duração de 60 a 120 minutos. Nunca inferior a 60 minutos.
Exemplo:
Considerar: Paciente com leishmaniose tegumentar com 60 kg.
Cálculo da dose total: 3 mg/kg/dia por sete dias:
3 mg/kg/dia x 60 kg x 7 dias = 1.260mg do sal.
Se em 1 frasco-ampola = 300 mg do sal, 1.260 mg do sal = 4,2 ampolas.
Cálculo da dose diária:
3 mg/kg/dia x 60 kg = 180 mg do sal/dia.
180 mg do sal/dia ÷ 300 mg do sal/ ampola = 0,6 ampola/dia.
Caso a ampola seja reconstituída em 5 ml de água destilada, a dose diária será de 3 ml da solução reconstituída/dia
Pentoxifilina comp. 400 mg
Tomar 1 cp, 3 vezes ao dia, durante 30 dias.
Após o término do tratamento, os pacientes devem realizar acompanhamento clínico com o médico especialista para avaliação da resposta e também para a detecção de possível recidiva após terapia inicial bem-sucedida.
Referências
Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Manual de vigilância da leishmaniose tegumentar [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. – Brasília : Ministério da Saúde, 2017. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_vigilancia_leishmaniose_tegumentar.pdf
Secretaria de Estado da Saúde, Governo de Santa Catarina. Guia de Orientação: Vigilância Da Leishmaniose Tegumentar Americana. 7ª Ed. Santa Catarina, 2021. https://dive.sc.gov.br/phocadownload/doencas-agravos/Leishmaniose%20Tegumentar%20Americana%20(LTA)/Publica%C3%A7%C3%B5es/Manual-orientacao-LTA-19-10-2022.pdf
WHO Guidelines for Leishmaniasis, 2023.


