Malária no Adulto
CID-10: B50
Informações gerais
Doença infecciosa, causada por protozoário do gênero Plasmodium: P. falciparum, P. vivax, P. malariae e P. ovale. Plasmódios, P. knowlesi e o P. simium.
Sendo que a transmissão natural da malária ocorre por meio da picada de fêmeas infectadas de mosquitos do gênero Anopheles (mosquito-prego).
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Quadro clínico
Malária não complicada:
Crise aguda da malária (acesso malárico): caracteriza-se por episódios de calafrio, febre e sudorese, cujo tempo de duração varia de 6 a 12 horas e pode cursar com temperatura igual ou superior a 40.C.
Os paroxismos são acompanhados por cefaleia, mialgia, náuseas e vômitos.
Malária complicada:
Manifestações oligossintomáticas (poucos sintomas) até quadros graves e letais.
Dor abdominal intensa, mucosas amareladas, icterícia, mucosas muito hipocoradas, redução do volume de urina a menos de 400 mL em 24 horas, vômitos persistentes que impeçam a tomada da medicação por via oral;
Qualquer tipo de sangramento, falta de ar, cianose, aumento da frequência cardíaca, convulsão ou desorientação, prostração (em crianças) e comorbidades descompensadas.
Manifestações laboratoriais:
Anemia grave, hipoglicemia, acidose metabólica, insuficiência renal, hiperlactatemia, hiperparasitemia (> 250.000/mm3 para P. falciparum).
Diagnóstico
O diagnóstico deve ser considerado nas seguintes situações, em pessoas procedentes de área de transmissão de malária:
Presença de febre de qualquer intensidade, duração e frequência.
Mal-estar, dor no corpo, dor nas articulações, fadiga, falta de apetite.
Síndrome febril hemorrágica.
Síndrome febril ictérica.
Síndrome febril neurológica.
Síndrome febril respiratória.
Síndrome febril com forte dor abdominal, que pode ser ruptura do baço.
Indivíduos assintomáticos que residam na mesma localidade de pacientes com diagnóstico de malária.
Gestantes, ainda que assintomáticas, durante as consultas de pré-natal.
Doadores de sangue (seguindo métodos definidos pelo MS e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa).
Diagnóstico confirmatório: encontro de parasitos no sangue, método é a microscopia de gota espessa de sangue, colhida por punção digital e corada pelo método de Walker.
Manejo e orientações gerais
Considerações:
A abordagem deve levar em consideração as diretrizes locais, os padrões de sensibilidade ao medicamento e a disponibilidade do medicamento.
A prescrição e a dispensação dos antimaláricos no Brasil deve ser feita apenas com resultado laboratorial confirmatório;
Os medicamentos são disponibilizados gratuitamente em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS).
Detecção de deficiência da G6PD:
Indicar o teste para detecção de deficiência da glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) antes da utilização da Primaquina;
Deve-se realizar terapêutica sob vigilância, pois o uso da Primaquina e da Tafenoquina em pessoas com deficiência de G6PD pode resultar em hemólise, anemia grave, colúria, fadiga, insuficiência renal aguda e icterícia. A diabetes é frequente em pessoas com deficiência de G6PD.
Uso das medicações:
Toda a medicação deve ser ingerida preferencialmente no mesmo horário, todos os dias, após uma refeição, evitando assim vômitos.
Em caso de vômitos até 60 minutos da tomada, repetir toda a medicação e, se ocorrer após 60 minutos, não é necessário repetir a medicação.
Como a primaquina é utilizada por sete dias, muitos pacientes não costumam tomar a medicação até o final. Após o terceiro dia de tratamento, quando já se sentem melhores, alguns pacientes param de tomar a primaquina. Assim, é preciso orientar sobre a necessidade de adesão, ainda que o paciente esteja sem sintomas.
Tratamento específico para cada agente etiológico:
P. falciparum: Terapia com Arteméter + lumefantrina ou Artesunato + mefloquina e Primaquina;
P. vivax: Cloroquina com Primaquina para as formas hepáticas latentes;
P. ovale: Cloroquina com Primaquina para as formas hepáticas latentes;
P. malariae: Cloroquina;
P. knowlesi: Mesmo esquema da P. falciparum;
Malária mista: Terapia com Arteméter + lumefantrina ou Artesunato + mefloquina e Primaquina;
Malária grave: Terapia com Artesunato intravenoso ou intramuscular.
Medicações permitidas para gestantes:
Cloroquina;
Quinina;
Atovaquona + Proguanil;
Clindamicina;
Mefloquina (evitar no 1º trimestre);
Pirimetamina + sulfadoxina (evitar no 1º trimestre);
Arteméter + lumefantrina;
Artesunato e outros.
Infecção por P. vivax ou P. ovale
Esquema A: não gestante e sem deficiência de G6PD.
Esquema curto em associação: Cloroquina + Primaquina.
Cloroquina comp. 150 mg
600 mg VO em dose única no 1º dia seguidos de 450 mg VO 1x/dia, por 2 dias (total: 3 dias).
Primaquina
0,5 mg/kg/dia, por 7 dias. A dose depende do peso, conforme descrito adiante.
Alternativas posológicas para Primaquina:
50-69 kg: 30 mg VO 1x/dia;
70-89 kg: 45 mg VO 1x/dia;
90-120 kg: 60 mg VO 1x/dia.
Esquema B: paciente gestante.
Esquema em monoterapia seguida de profilaxia: Cloroquina.
Cloroquina comp. 150 mg
Tomar 600 mg VO em dose única no 1o dia seguidos de 450 mg VO 1x/dia, por 2 dias (total: 3 dias);
Manter profilaxia após tratamento: Cloroquina profilática 5 mg/kg/dose (até o máximo de 2 comprimidos, geralmente 300 mg/dia) VO 1x/semana, até 1 mês de aleitamento, para prevenção de recaídas. Monitorar a gestante quanto à presença de atividade uterina e/ou sangramento vaginal.
Esquema C: paciente com deficiência de G6PD com atividade enzimática < 30%.
Esquema em associação: fase de indução (Cloroquina) + fase de manutenção (Primaquina).
Fase de indução: Cloroquina comp. 150 mg
Tomar 600 mg VO em dose única no 1o dia seguidos de 450 mg VO 1x/dia, por 2 dias (total: 3 dias).
Fase de manutenção: Primaquina comp. 5 mg e 15 mg
Tomar dose de 0,75 mg/kg/semana VO, por 8 semanas, no 4º dia após o tratamento com Cloroquina (3 dias iniciais).
Recorrência por P. vivax ou P. ovale
Em caso de recorrência entre 5-60 dias:
Esquema em associação: Antimalárico + Primaquina.
Antimalárico (uma das opções a seguir):
Arteméter + lumefantrina comp. 20 mg + 120 mg
Dose de 80 mg + 480 mg, VO, de 12/12 horas, por 3 dias;
Artesunato + mefloquina comp. 25 mg + 50 mg e 100 mg + 200 mg
Dose de 200 mg + 400 mg/dia, VO, por 3 dias.
Primaquina comp. 5 mg e 15 mg
50-69 kg: 30 mg VO 1x/dia, por 14 dias.
70-89 kg: 45 mg VO 1x/dia, por 14 dias.
90-120 kg: 60 mg VO 1x/dia, por 14 dias.
Infecção por P. malariae
Esquema em monoterapia: Cloroquina
Cloroquina comp 150 mg
Tomar 600 mg, VO, em dose única no 1o dia seguidos de 450 mg VO 1x/dia, por 2 dias (total: 3 dias).
Infecção por P. falciparum
Esquema A: Infecção por P. falciparum.
Esquema em associação: Antimalárico + Primaquina
Antimaláricos (uma das opções a seguir):
Arteméter + lumefantrina comp. 20 mg + 120 mg
Dose de 80 mg + 480 mg, VO, de 12/12 horas, por 3 dias;
Artesunato + mefloquina comp. 25 mg + 50 mg e 100 mg + 200 mg
Dose de 200 mg + 400 mg/dia, VO, por 3 dias.
Primaquina comp. 5 mg e 15 mg
35-69 kg: 30 mg VO 1x/dia, em dose única.
70-89 kg: 45 mg VO 1x/dia, em dose única.
90-120 kg: 60 mg VO 1x/dia, em dose única.
Esquema B: Infecção por P. falciparum em gestantes.
Esquema em monoterapia: Antimalárico (uma das opções a seguir).
Arteméter + lumefantrina comp. 20 mg + 120 mg;
Dose de 80 mg + 480 mg, VO, de 12/12 horas, por 3 dias;
Artesunato + mefloquina comp. 25 mg + 50 mg e 100 mg + 200 mg
Dose de 200 mg + 400 mg/dia, VO, por 3 dias.
Esquema C: Em caso de falha terapêutica para P. falciparum.
Se falha terapêutica em até 28 dias de tratamento contendo Arteméter + lumefantrina, indicar:
Artesunato + mefloquina comp. 25 mg + 50 mg e 100 mg + 200 mg
Dose de 200 mg + 400 mg/dia, VO, por 3 dias.
Se falha terapêutica em até 42 dias de tratamento contendo Artesunato + mefloquina, indicar:
Arteméter + lumefantrina comp. 20 mg + 120 mg;
Dose de 80 mg + 480 mg, VO, de 12/12 horas, por 3 dias;
Se falha terapêutica após 42 dias de tratamento:
Tratar como novo caso.
Malária Mista
Esquema A: Infecção mista.
Esquema em associação: Antimalárico + Primaquina.
Antimaláricos (uma das opções a seguir):
Arteméter + lumefantrina comp. 20 mg + 120 mg;
Dose de 80 mg + 480 mg, VO, de 12/12 horas, por 3 dias;
Artesunato + mefloquina comp. 25 mg + 50 mg e 100 mg + 200 mg
Dose de 200 mg + 400 mg/dia, VO, por 3 dias
Primaquina comp. 5 mg e 15 mg (II):
50-69 kg: 30 mg VO 1x/dia, por 7 dias.
70-89 kg: 45 mg VO 1x/dia, por 7 dias.
90-120 kg: 60 mg VO 1x/dia, por 7 dias.
Esquema B: Infecção mista em gestantes.
Esquema em monoterapia: Antimalárico.
Antimaláricos (uma das opções a seguir):
Arteméter + lumefantrina comp. 20 mg + 120 mg;
Dose de 80 mg + 480 mg, VO, de 12/12 horas, por 3 dias;
Artesunato + mefloquina comp. 25 mg + 50 mg e 100 mg + 200 mg
Dose de 200 mg + 400 mg/dia, VO, por 3 dias
Manter profilaxia após tratamento:
Cloroquina profilática 5 mg/kg/dose (até o máximo de 2 comprimidos, geralmente 300 mg/dia) VO 1x/semana, até 1 mês de aleitamento, para prevenção de recaídas.
Monitorar a gestante quanto à presença de atividade uterina e/ou sangramento vaginal.
Quimioprofilaxia
Não indicada para viajantes nacionais.
Para viagens internacionais, recomenda-se:
Atovaquona + Proguanil: 250 mg + 100 mg VO/dia.
Doxiciclina: 100 mg VO/dia (contraindicado em gestantes e crianças <8 anos).
Mefloquina: 250 mg VO/semana (evitar no 1º trimestre de gestação).
Orientações para grupos especiais
Crianças menores de 10 kg:
Não devem fazer tratamento com cloroquina com comprimidos fracionados, sendo necessária a escolha entre artemeter/lumefantrina ou artesunato/mefloquina.
Gestantes, puérperas até um mês de lactação e crianças menores de 6 meses:
Não podem usar primaquina nem tafenoquina.
Pessoas com deficiência suspeita ou confirmada de G6PD (atividade abaixo de 30%):
Deverão fazer a primaquina na dose semanal (0,75 mg/dose) por 8 semanas com acompanhamento.
Gestantes com infecções por P. vivax ou P. ovale:
Devem usar o tratamento convencional com cloroquina por três dias e cloroquina profilática (5 mg/kg/dose/semana) até o fim do primeiro mês de lactação, para prevenção de recaídas.
Referências
[1] Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis. Guia de tratamento da malária no Brasil / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis – 2. ed. atual. – Brasília: Ministério da Saúde, 2021.
[2] Ministério da Saúde (BR), Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Articulação Estratégica de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde: volume 2. 6a ed. [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2023.


