Cerume Impactado e Lavagem Otológica no Adulto
Introdução
Definição
O cerume é uma secreção fisiológica produzida pelas glândulas ceruminosas e sebáceas do terço lateral do conduto auditivo externo.
Possui função protetora:
Lubrificação do conduto auditivo
Ação antimicrobiana
Retenção de partículas e detritos
A remoção fisiológica ocorre por migração epitelial e movimento da mandíbula.
Impactação de Cerume
Considera-se cerume impactado quando o acúmulo impede a visualização do conduto auditivo externo ou da membrana timpânica ou causa sintomas.
Fatores predisponentes
Uso de cotonetes
Uso de aparelhos auditivos
Uso frequente de fones intra-auriculares
Conduto auditivo estreito ou tortuoso
Produção excessiva de cerume
Idosos
Dermatites do conduto auditivo
Quadro Clínico
Pode ser assintomático ou cursar com:
Hipoacusia condutiva
Sensação de ouvido tampado
Prurido auricular
Otalgia leve
Zumbido
Tosse reflexa (estimulação do nervo de Arnold)
prático e seguro!
Métodos de Remoção
Os principais métodos incluem:
Ceruminolíticos
Irrigação/lavagem otológica
Remoção manual com cureta ou aspiração
A escolha depende de:
Consistência do cerume
Condições do conduto auditivo
Experiência do profissional
Presença de contraindicações
Ceruminolíticos
Podem ser utilizados antes da lavagem ou como tratamento isolado em casos leves.
Exemplos:
Cerumin (Hidroxiquinolina + Trolamina) solução otológica 0,4+140 mg/mL (fr 8 mL)
Instilar 05 gotas na(s) orelha(s) afetada(s) 3x/dia por cerca de 07 dias.
Manter o paciente deitado, com a orelha afetado voltado para cima, por 5 minutos após a aplicação. Como o refluxo da solução é comum, é possível empregar algodão para tamponamento, auxiliando na remoção do cerume dissolvido.
Carbamida peróxido sol. otológica 65mg/mL
Instilar 5 a 10 gotas na orelha afetada, 2x/dia por até 4 dias.
Glicerina sol. otológica
Instilar 3 a 5 gotas na orelha afetada, 2 a 3x/dia por 3 a 5 dias.
Óleo mineral sol. otológica
Instilar 2 a 3 gotas na orelha afetada, 2x/dia por 3 a 5 dias.
Indicações e Contraindicações da Lavagem Otológica
Indicações
Cerume impactado sintomático
Obstrução que impede visualização da membrana timpânica
Falha de tratamento com ceruminolíticos
Contraindicações
Perfuração conhecida ou suspeita da membrana timpânica
História de cirurgia otológica prévia
Otite externa ativa
Otite média aguda
Presença de corpo estranho orgânico que possa expandir com água
Paciente com ouvido único funcional (avaliar com cautela)
Dor intensa durante manipulação
Passo a Passo da Lavagem Otológica
Materiais:
Seringa de 20 mL ou sistema próprio de irrigação
Cuba rim
Cuba redonda
Luvas de procedimento
Toalha ou campo
Otoscópio com otocone
Tesoura
Scalp (butterfly) calibroso (pelo menos calibre 19)
Frascos estéreis de SF 0,9% de 100mL (É possível a necessidade de uso de mais de um frasco)
Orientações para otoscopia:
O otoscópio deve ser testado e o otocone, devidamente limpo, deve ser acoplado a ele.
Prioriza-se um otocone com calibre intermediário.
O paciente deve estar preferencialmente sentado, em posição confortável.
Recomenda-se iniciar o exame no ouvido contralateral àquele afetado.
Realiza-se a inspeção e palpação cuidadosas do ouvido externo.
Com a mão não dominante do examinador, traciona-se a orelha pela hélice, no sentido posterior e superior, e a orelha deve ser mantida nessa posição até o final do exame. O objetivo da tração é a retificação do conduto auditivo externo.
Segura-se o otoscópio pelo cabo, com a cabeça voltada para baixo.
Sempre se deve apoiar levemente a região hipotenar da mão que segura o cabo do otoscópio na cabeça do paciente, para evitar trauma se houver movimentação brusca da cabeça.
Deve-se procurar visualizar a membrana timpânica integralmente, identificando os principais pontos anatômicos.
Recomenda-se identificar o cone de luz como referencial que sempre estará disposto na região anteroinferior da membrana timpânica.
Atenção:
Cuidados importantes:
É fundamental realizar a otoscopia previamente e ao término do procedimento.
Sempre realizar exame prévio cuidadoso, observando as contraindicações do procedimento.
Nunca insistir no procedimento na vigência e persistência de dor.
Não utilizar muita pressão durante a instilação do soro aquecido no ouvido do paciente.
Cuidado para não superaquecer o soro, nem tampouco utilizá-lo gelado.
Verificar sempre a temperatura antes de instilar no ouvido.
Contraindicações:
Otite aguda, história pregressa ou atual de perfuração timpânica, história de cirurgia otológica, paciente não cooperativo.
Quando encaminhar?
Patologia auricular de difícil resolução na Atenção Primária à Saúde, como perfuração de tímpano, tumoração ou infecção sem sucesso no tratamento clínico, ou diante de história clínica que indique contraindicação à remoção mecânica do cerume.
Quando o procedimento deve ser suspenso?
Se não houver mais cerume a ser removido.
Insucesso após várias tentativas de remoção do cerume.
Desistência do paciente.
Dor ou outra intercorrência.
Passo a Passo do Procedimento (na Atenção Primária):
Observação:
A lavagem otológica normalmente é realizada após a aplicação de emolientes (p. ex. Cerumin) por 5 a 7 dias, previamente ao procedimento.
Preparação e Otoscopia:
Preparar o material seguindo a lista de equipamentos citada acima.
Cortar o scalp (butterfly) com aproximadamente 4cm a partir da extremidade de acoplamento da seringa. Descartar a extremidade da agulha em local apropriado.
Aquecer o SF 0,9%, ainda com o frasco fechado, até a temperatura corporal (37°C), para evitar nistagmos e desconforto. Pode-se utilizar "banho-maria" ou aquecimento em micro-ondas.
Examinar cuidadosamente o canal do ouvido externo por meio da inspeção e palpação.
Realizar sempre a otoscopia antes do procedimento.
Posicionamento:
Despejar o soro aquecido na cuba redonda. Sempre assegurar que a temperatura do soro não está excessivamente alta, podendo pedir também ao paciente para verificá-la.
Aspirar com a seringa diretamente na cuba com o soro aquecido até completar a seringa.
Acoplar a seringa na extremidade não cortada do scalp.
Posicionar a toalha, campo cirúrgico ou compressa no ombro do paciente.
Posicionar a cuba rim, bem justaposta, à cabeça/pescoço do paciente na altura logo abaixo da orelha. Verificar se está bem justaposta para não molhar o paciente durante o procedimento. Pedir que o assistente ou paciente segure a cuba rim.
Usar luva de procedimentos.
Instilação:
Efetuar a retificação do conduto auditivo (traciona-se a orelha pela hélice, no sentido posterior e superior).
Simultaneamente, introduzir a extremidade cortada do scalp com a concavidade voltada para frente e levemente para cima (o jato deve ser direcionado para parede do conduto, e nunca diretamente na direção da membrana timpânica).
Sob leve pressão, instilar o soro fisiológico, deixando escoá-lo na cuba rim. Caso haja resistência significativa, reavaliar o meato acústico.
Monitorar sempre sintoma de dor durante o procedimento.
Uma vez esvaziada a seringa, removê-la com o cateter (scalp), desacoplá-la e repetir as etapas anteriores quantas vezes forem necessárias.
Uma vez que esvazie a cuba redonda com o soro, deve-se completar novamente com o soro aquecido.
Verificar esporadicamente por meio da otoscopia se há mais cerume a ser removido.
Orientações e registro:
Ao fim do procedimento solicitar ao paciente que lateralize a cabeça e oferecer uma gaze/compressa seca para secagem do líquido residual.
Liberar paciente com orientações, se sinais de alarme procurar atendimento médico em caráter de urgência.
Realizar o registro do atendimento em prontuário.
Complicações e Orientações ao Paciente
Complicações
São incomuns, mas podem ocorrer:
Vertigem (estimulação calórica se líquido frio)
Otalgia
Otite externa
Perfuração timpânica (raro)
Sangramento do conduto auditivo
Suspender o procedimento se houver:
Dor intensa
Vertigem importante
Sangramento
Orientações ao paciente
Evitar uso de cotonetes no conduto auditivo.
A limpeza deve ser apenas da parte externa da orelha.
Procurar avaliação médica se houver dor, secreção ou perda auditiva persistente.
Referências
[1] AMERICAN ACADEMY OF OTOLARYNGOLOGY–HEAD AND NECK SURGERY FOUNDATION. Clinical Practice Guideline: Cerumen Impaction (Update). Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v.156, n.1_suppl, p.S1–S29, 2017.
[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica: Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.
[3] GUSSO, G.; LOPES, J. M. C.; DIAS, L. C. (Orgs.) Tratado de Medicina de Família e Comunidade: princípios, formação e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
[4] ROLAND, P. S.; SMITH, T. L.; SCHWARTZ, S. R. et al. Clinical practice guideline: cerumen impaction. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v.139, n.3, p.S1–S21, 2008.
[5] SCHWARTZ, S. R. et al. Clinical practice guideline (update): cerumen impaction. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v.156, n.1_suppl, p.S1–S29, 2017.
[6] MINISTERIO DA SAÚDE, Departamento de Atenção Básica, Cadernos de Atenção Primária, n. 30, Brasilia, 2011. Saúde Presente RIO PREFEITURA SUS.


