Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) no Adulto
CID-10: F31
Introdução
Definição
Transtorno psiquiátrico crônico caracterizado por episódios recorrentes de alteração do humor, com períodos de:
mania
hipomania
depressão
Para diagnóstico do transtorno bipolar, é necessária a ocorrência de pelo menos um episódio maníaco ou hipomaníaco ao longo da vida.
O curso costuma ser recorrente e episódico, com períodos de remissão parcial ou completa.
Epidemiologia
Prevalência global aproximada: ~2% da população.
Estimativa de cerca de 40 milhões de pessoas afetadas no mundo.
Início mais comum:
adolescência
início da vida adulta
Frequentemente há atraso diagnóstico prolongado, podendo ultrapassar 9 anos entre o primeiro episódio depressivo e o diagnóstico correto.
Alto risco de suicídio:
risco 30–60 vezes maior que na população geral
cerca de 34% realizam tentativa de suicídio
15–20% evoluem para suicídio consumado.
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Fisiopatologia
Fisiopatologia
Etiologia multifatorial, envolvendo fatores genéticos, ambientais e neurobiológicos.
Fatores Genéticos
Herdabilidade estimada entre 60–80%, uma das maiores entre transtornos psiquiátricos.
Fatores Ambientais Associados
Trauma na infância
Eventos estressores importantes
Uso de álcool e outras substâncias
Alterações Neurobiológicas
Evidências sugerem alterações estruturais e funcionais em áreas cerebrais relacionadas à regulação emocional:
córtex pré-frontal
corpo estriado
tálamo
amígdala
hipocampo
O curso da doença pode apresentar caráter neuroprogressivo, com agravamento funcional ao longo do tempo.
Alterações Inflamatórias
Pacientes podem apresentar aumento de marcadores inflamatórios, como:
proteína C reativa
interleucinas (IL-1, IL-4, IL-6)
TNF-α
Apresentação Clínica
Episódios de Humor
O transtorno bipolar se manifesta por episódios distintos de alteração do humor:
episódio depressivo
episódio maníaco
episódio hipomaníaco
episódio com características mistas
Episódio Depressivo
A apresentação clínica é semelhante à observada no transtorno depressivo maior.
Sinais que aumentam suspeita de bipolaridade:
início precoce da depressão
episódios depressivos recorrentes
história familiar de transtorno bipolar
depressão com sintomas psicóticos
agitação psicomotora importante
sintomas atípicos:
hipersonia
hiperfagia
sensação de peso corporal (“paralisia em chumbo”)
depressão pós-parto com psicose
indução de hipomania/mania após antidepressivos
histórico de tentativa de suicídio
Episódio Maníaco
Características principais
humor elevado, expansivo ou irritável
aumento importante de energia e atividade
Sintomas frequentes
autoestima elevada ou grandiosidade
redução da necessidade de sono
aumento da fala
pensamento acelerado ou fuga de ideias
distraibilidade
agitação psicomotora
aumento de atividades direcionadas a objetivos
comportamento impulsivo ou de risco:
gastos excessivos
direção imprudente
atividade sexual de risco
abuso de substâncias
Critérios clínicos importantes
duração ≥ 7 dias
prejuízo funcional importante
frequentemente requer hospitalização
sintomas psicóticos podem ocorrer em até 75% dos casos.
Episódio Hipomaníaco
Sintomas semelhantes à mania, porém menos intensos.
Características
duração ≥ 4 dias
alteração clara do padrão habitual de funcionamento
mudança perceptível por terceiros
não causa prejuízo funcional grave
não há sintomas psicóticos
não requer hospitalização.
Episódio com Características Mistas
Presença simultânea de sintomas maníacos e depressivos.
Características frequentes
humor disfórico com períodos de euforia
aceleração do pensamento
ideação suicida
insônia importante
agitação psicomotora
sintomas psicóticos (delírios ou alucinações)
Relevância clínica
Associado a:
maior impulsividade
maior risco de suicídio
maior gravidade clínica
maior prevalência de abuso de substâncias
pior resposta ao tratamento.
Ciclagem Rápida
Definida pela ocorrência de ≥ 4 episódios de humor em 12 meses, podendo ser:
depressivos
maníacos
hipomaníacos
mistos.
TAB Induzido por Substância ou Medicamento
Caracteriza-se por episódios de humor eufórico, expansivo ou irritável desencadeados por substâncias.
Substâncias frequentemente associadas
antidepressivos
estimulantes
corticosteroides
imunossupressores
alucinógenos
fenciclidina
abstinência de:
álcool
sedativos
hipnóticos
ansiolíticos
cannabis
Diagnóstico diferencial
se os sintomas persistirem > 1 mês após cessar intoxicação ou abstinência, deve-se considerar transtorno bipolar primário.
Conduta
suspensão da substância desencadeante
acompanhamento clínico
em quadros graves: considerar antipsicóticos de segunda geração.
Abordagem Diagnóstica
Avaliação Inicial
anamnese psiquiátrica detalhada
história familiar de transtornos de humor
avaliação do uso de substâncias
revisão de medicações em uso
exame psíquico
exame físico
Informações de familiares
Fundamentais, pois pacientes em mania frequentemente apresentam redução da crítica da doença.
Avaliações obrigatórias
risco de suicídio
agressividade ou risco de violência
sinais de catatonia
presença de comorbidades psiquiátricas
Investigação de causas orgânicas
Exames complementares devem ser solicitados quando houver:
início tardio
alterações neurológicas
suspeita de condição médica associada
Classificação do TAB
Transtorno Bipolar Tipo I
presença de ≥ 1 episódio maníaco ao longo da vida.
Transtorno Bipolar Tipo II
≥ 1 episódio hipomaníaco
≥ 1 episódio depressivo maior
ausência de episódio maníaco.
Diagnóstico Diferencial
Transtornos psiquiátricos:
transtorno depressivo maior
transtorno esquizoafetivo
esquizofrenia
transtornos de ansiedade
transtorno de personalidade borderline
transtornos por uso de substâncias
Condições clínicas:
hipertireoidismo
tumores do SNC
epilepsia
esclerose múltipla
neurossífilis
HIV
doença de Wilson
síndrome de Cushing
lúpus eritematoso sistêmico
quadros demenciais.
Manejo Geral
O transtorno afetivo bipolar é uma condição crônica e recorrente, que geralmente requer tratamento em duas fases:
Fase aguda → controle do episódio atual (mania, hipomania, depressão ou estado misto)
Fase de manutenção → prevenção de recaídas e redução do risco de suicídio.
Os objetivos terapêuticos incluem:
remissão dos sintomas agudos
recuperação funcional
prevenção de novos episódios
redução do risco de suicídio.
A escolha do tratamento depende de:
tipo de episódio atual
gravidade dos sintomas
presença de sintomas psicóticos
comorbidades clínicas ou psiquiátricas
resposta prévia a tratamentos.
Intervenções Psicossociais
Devem ser oferecidas a todos os pacientes, principalmente na fase de manutenção.
Principais intervenções:
psicoeducação
terapia cognitivo-comportamental
terapia focada na família
terapia interpessoal e de ritmos sociais
grupos de apoio
A psicoeducação inclui:
explicação sobre a doença e seu curso
reconhecimento precoce de pródromos de mania ou depressão
estratégias de adesão medicamentosa
manejo de estresse
promoção de hábitos de vida saudáveis.
Manejo da Agitação Psicomotora
Considerações:
A agitação frequentemente ocorre durante episódios maníacos.
Antes de tratar, é importante excluir acatisia induzida por antipsicóticos.
Conduta inicial:
preferir medicação oral
utilizar fármacos com início rápido de ação
Opções farmacológicas
Opções frequentemente utilizadas no Brasil:
Haloperidol sol. inj. 5mg/mL (intramuscular)
Aplicar 1 amp (5mg) IM. Pode repetir se necessário (máx. 20mg/dia).
Midazolam sol. inj. 5mg/mL (intramuscular)
Aplicar 1 amp (5mg) IM se agitação intensa.
Monitorar resposta, considerando risco de rebaixamento do nível de consciência e depressão respiratória.
Prometazina sol. inj. 25mg/mL (intramuscular)
Aplicar 1 amp (25mg) IM.
Combinações frequentemente usadas em emergência:
haloperidol + midazolam
haloperidol + prometazina.
Tratamento da Mania e da Hipomania
Tratamento da Mania Aguda
Considerações:
Aproximadamente 50% dos pacientes respondem à monoterapia.
A resposta clínica costuma ocorrer em 2–4 semanas.
Primeira linha em monoterapia:
Carbonato de lítio comp. 300 mg
Dose inicial: 300–600 mg/dia.
Dose usual: 900–1.800 mg/dia.
Ajustar conforme litemia - Nível sérico alvo: 0,8–1,2 mEq/L.
Quetiapina comp. 25 mg, 100 mg ou 200 mg
Dose inicial: 50–100 mg/dia.
Dose usual: 400–800mg/dia.
Ajustar conforme resposta clínica.
Valproato de sódio comp. 250 mg ou 500 mg
Dose inicial: 500–750 mg/dia.
Dose usual: 1.000–2.000 mg/dia.
Ajustar conforme resposta clínica.
Risperidona comp. 1 mg ou 2 mg
Dose inicial: 1–2 mg/dia.
Dose usual: 2–6 mg/dia.
Ajustar conforme resposta clínica.
Aripiprazol comp. 10 mg ou 15 mg
Dose inicial: 10 mg/dia.
Dose usual: 10–30 mg/dia.
Ajustar conforme resposta clínica.
Terapia combinada:
Indicada quando:
mania grave
sintomas psicóticos
resposta insuficiente à monoterapia.
Combinações comuns:
Estabilizador de humor + Antipsicótico
Exemplos comuns:
lítio + quetiapina
Carbonato de lítio comp. 300 mg
Dose inicial: 300–600 mg/dia.
Dose usual: 900–1.800 mg/dia.
Ajustar conforme litemia - Nível sérico alvo: 0,8–1,2 mEq/L.
Quetiapina comp. 25 mg, 100 mg ou 200 mg
Dose inicial: 50–100 mg/dia.
Dose usual: 400–800mg/dia.
Ajustar conforme resposta clínica.
lítio + risperidona
Carbonato de lítio comp. 300 mg
Dose inicial: 300–600 mg/dia.
Dose usual: 900–1.800 mg/dia.
Ajustar conforme litemia - Nível sérico alvo: 0,8–1,2 mEq/L.
Risperidona comp. 1 mg ou 2 mg
Dose inicial: 1–2 mg/dia.
Dose usual: 2–6 mg/dia.
Ajustar conforme resposta clínica.
valproato + quetiapina
Valproato de sódio comp. 250 mg ou 500 mg
Dose inicial: 500–750 mg/dia.
Dose usual: 1.000–2.000 mg/dia.
Ajustar conforme resposta clínica.
Quetiapina comp. 25 mg, 100 mg ou 200 mg
Dose inicial: 50–100 mg/dia.
Dose usual: 400–800mg/dia.
Ajustar conforme resposta clínica.
valproato + aripiprazol
Valproato de sódio comp. 250 mg ou 500 mg
Dose inicial: 500–750 mg/dia.
Dose usual: 1.000–2.000 mg/dia.
Ajustar conforme resposta clínica.
Aripiprazol comp. 10 mg ou 15 mg
Dose inicial: 10 mg/dia.
Dose usual: 10–30 mg/dia.
Ajustar conforme resposta clínica.
Tratamento da Hipomania
Pode ser manejado com os mesmos fármacos usados na mania, porém frequentemente em doses menores.
Opções comuns:
Carbonato de títio comp. 300 mg
Dose inicial: 300 mg/dia.
Dose usual: 900 mg/dia.
Ajustar conforme litemia - Nível sérico alvo: 0,8–1,2 mEq/L.
Valproato de sódio comp. 250 mg ou 500 mg
Dose inicial: 500 mg/dia.
Dose usual: 750-1.500 mg/dia.
Ajustar conforme resposta clínica.
Quetiapina comp. 25 mg, 100 mg ou 200 mg
Dose inicial: 50–100 mg/dia.
Dose usual: 200-400 mg/dia.
Ajustar conforme resposta clínica.
Tratamento da Depressão Bipolar
Antidepressivos não devem ser utilizados isoladamente, devido ao risco de indução de mania.
Primeira linha (uma das opções abaixo):
Quetiapina comp. 25mg, 100mg ou 200mg
Dose inicial: 50mg/dia.
Dose usual: 300mg/dia.
Lítio comp. 300mg
Dose usual: 900–1.200mg/dia.
Ajustar conforme litemia.
Lamotrigina comp. 25mg, 50mg ou 100mg
25mg/dia por 2 semanas
depois 50mg/dia por 2 semanas
aumentar gradualmente até 100–200mg/dia.
Terapia adjuvante
Pode-se associar a terapia de primeira linha com uma das opções abaixo:
Fluoxetina comp. 20mg
Tomar 20–40mg/dia.
Sertralina comp. 50mg ou 100mg
Dose inicial: 50 mg/dia.
Dose usual: 50–200 mg/dia.
Escitalopram comp. 10mg ou 20mg
Dose inicial: 10 mg/dia.
Dose usual: 10–20 mg/dia.
Bupropiona comp. 150mg ou 300mg (liberação prolongada)
Dose inicial: 150 mg/dia.
Pode aumentar para 300 mg/dia.
Observações:
Antidepressivos não devem ser utilizados isoladamente. Deve ser sempre associados a um estabilizador de humor.
Monitorização dos Principais Medicamentos
Lítio
Monitorização obrigatória:
litemia
função renal
função tireoidiana
eletrólitos
Exames recomendados:
ureia e creatinina
TSH e T4 livre
sódio e potássio.
Valproato
Solicitar periodicamente:
hemograma
função hepática
valproatemia (quando disponível).
Evitar em:
gestação
mulheres em idade fértil sem contracepção adequada.
Lamotrigina
Titulação lenta necessária devido ao risco de rash cutâneo grave.
Suspender imediatamente se houver:
exantema cutâneo
sinais de síndrome de Stevens-Johnson.
Acompanhamento
Comorbidades Frequentes
transtornos por uso de álcool ou drogas
transtornos de ansiedade
transtornos alimentares
TDAH
transtornos de personalidade (especialmente cluster B)
Comorbidades clínicas
síndrome metabólica
dislipidemia
diabetes
doenças cardiovasculares.
Encaminhamento
Pacientes com suspeita ou diagnóstico de transtorno bipolar devem ser encaminhados para avaliação psiquiátrica especializada.
Indicações de Internação
risco de suicídio
comportamento violento ou heteroagressivo
sintomas psicóticos graves
desorganização comportamental importante
incapacidade de adesão ao tratamento.
Referências
[1] AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR: texto revisado. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2023.
[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC). Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do Tipo I. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/pcdt_transtornoafetivobipolar_tipoi.pdf. Acesso em: 8 mar. 2026.
[3] CONSTANTINO, Miguel Elias. Clínica psiquiátrica: as grandes síndromes psiquiátricas. 2. ed. Barueri: Manole, 2021. v. 2.
[4] CONSTANTINO, Miguel Elias. Clínica psiquiátrica: a terapêutica. 2. ed. Barueri: Manole, 2021. v. 3.
[5] GOES, F. S. Diagnosis and management of bipolar disorders. BMJ, Londres, v. 381, 2023. Disponível em: https://www.bmj.com/content/381/bmj-2022-073591. Acesso em: 8 mar. 2026.
[6] MCINTYRE, R. S. et al. Bipolar disorder. The Lancet, Londres, v. 396, n. 10265, p. 1841-1856, 2020.
[7] NIERENBERG, A. A. et al. Diagnosis and treatment of bipolar disorder: a review. JAMA, Chicago, v. 330, n. 14, p. 1370-1380, 2023.
[8] SALLET, P. C. et al. Manual do residente de psiquiatria. Barueri: Manole, 2023.
[9] STAHL, Stephen M. Stahl’s essential psychopharmacology: prescriber’s guide. 8. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2024.
[10] TELESSAÚDE RS-UFRGS. Protocolo de psiquiatria do adulto. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2021. Disponível em: https://telessauders.ufrgs.br/protocolos/protocolo-de-psiquiatria-adulto. Acesso em: 8 mar. 2026.
[11] YATHAM, Lakshmi N. et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disorders, v. 20, n. 2, p. 97-170, 2018.


