Taquicardias no Adulto
CID-10: R00.0 - Taquicardia não especificada
Outros temas:
Introdução
Taquiarritmia no adulto é definida, para fins de conduta em emergência, como ritmo com frequência cardíaca tipicamente maior que 150/min. [1]
A abordagem inicial parte de três perguntas que orientam toda a conduta:
O paciente está estável ou instável?
O ECG mostra QRS estreito ou largo?
Intervalo RR regular ou irregular?
Considerações:
A taquicardia de complexo largo (QRS ≥ 0,12 s) pode ter origem ventricular (TV ou FV) ou ser supraventricular com condução aberrante, bloqueio de ramo, pré-excitação ou estímulo por marca-passo. [1]
A taquicardia de complexo estreito (QRS < 0,12 s) inclui taquicardia sinusal, flutter atrial, taquicardia por reentrada nodal, taquicardia por reentrada atrioventricular e outras taquicardias atriais. [1]
Arritmias podem ser tanto a causa quanto uma manifestação da instabilidade clínica; avaliar a causa proximal da instabilidade direciona o uso mais criterioso do protocolo. [1]
Fluxograma de atendimento

Avaliação inicial e suporte
Manter via aérea pérvia; assistir a ventilação se necessário. [1]
Ofertar oxigênio se hipoxêmico. [1]
Monitorização cardíaca contínua para identificar o ritmo; monitorar pressão arterial e oximetria. [1]
Obter acesso venoso. [1]
Realizar ECG de 12 derivações, se disponível. [1]
Classificação
Quanto à estabilidade hemodinâmica: [1]
Instável
Presença de sinais de instabilidade atribuíveis à taquicardia: [1]
Hipotensão
Alteração aguda do estado mental
Sinais de choque
Desconforto torácico isquêmico
Insuficiência cardíaca aguda
Deve haver expectativa razoável de que a taquicardia seja a causa da instabilidade, e não uma manifestação de outra condição (ex.: sepse). [1]
Estável
Ausência de sinais de instabilidade hemodinâmica; há tempo para ECG de 12 derivações, acesso venoso e terapia farmacológica. [1]
Quanto aos achados eletrocardiográficos: [1]
QRS largo
P. ex.: taquicardia ventricular.
QRS largo é caracterizado por: ≥ 0,12s (≥ 3mm ou ≥ 3 quadradinhos)
QRS estreito + RR regular
P. ex.: taquicardia supraventricular por reentrância nodal.
QRS estreito é caracterizado por: < 0,12s (< 3mm ou < 3 quadradinhos)
Intervalo RR regular.
QRS estreito + RR irregular
P. ex.: fibrilação atrial.
QRS estreito é caracterizado por: < 0,12s (< 3mm ou < 3 quadradinhos)
Intervalo RR irregular.
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Paciente instável
Cardioversão elétrica sincronizada é a conduta de escolha para a taquicardia instável, tanto de complexo estreito quanto de complexo largo. [1]
1) Analgesia e sedação
Sedar sempre que viável, se o paciente estiver consciente e desde que não atrase a cardioversão. [1]
Esquema: Fentanil 1,0 a 5,0 mcg/kg IV lento (na prática, ~1,5 mcg/kg) + Etomidato 0,1 a 0,5 mg/kg IV (se hipotenso) ou Midazolam 0,1 a 0,3 mg/kg IV em doses fracionadas de 1 a 2 mg (se não hipotenso). Apresentações, exemplos por peso e antídotos detalhados na seção abaixo "Analgesia e sedação para cardioversão". [3]
2) Sincronizar
Apertar em "Sincronizar" e checar as marcações no monitor. [1]
Observação: pode haver necessidade de ressincronizar a cada nova cardioversão. [1]
3) Energia (bifásico) [1]
QRS estreito regular: 100 J
QRS estreito irregular (FA/flutter): 200 J
QRS largo regular (TV monomórfica): 100 J
QRS largo irregular / TV polimórfica: choque não sincronizado de alta energia (desfibrilação, energia máxima do fabricante), pois a TV polimórfica não pode ser sincronizada de forma confiável. [1]
Observação
É permitido tentar uma dose de adenosina antes da cardioversão apenas se o ritmo for regular e monomórfico e desde que não atrase a cardioversão. [1]
Se houver atraso na sincronização e a condição clínica for crítica, partir imediatamente para choque não sincronizado. [1]
Paciente estável
Considerações:
Em paciente estável há tempo para ECG de 12 derivações e terapia farmacológica; a cardioversão sincronizada fica reservada aos casos refratários a manobras vagais e fármacos, ou quando estes são contraindicados. [1]
Recomenda-se manter o desfibrilador prontamente disponível ao administrar antiarrítmicos, pois qualquer um deles pode converter a taquicardia para uma forma mais rápida ou hemodinamicamente instável, a depender da causa subjacente. [1]
QRS largo (taquicardia de complexo largo)
Antiarrítmicos intravenosos: a amiodarona é o agente prático de escolha; procainamida e sotalol IV também são endossados pelas diretrizes. Deve-se evitar a coadministração de antiarrítmicos, pelo risco de efeito pró-arrítmico combinado. [1][2]
Amiodarona
Considerações:
Diluir exclusivamente em SG5%; preferir acesso venoso central pelo risco de flebite; usar sistema livre de PVC. [2]
Pode repetir a dose de ataque se recorrência da TV. [1]
O ACLS 2025 especifica apenas a manutenção de 1 mg/min nas primeiras 6h; a redução para 0,5 mg/min por mais 18h segue o esquema da bula. [1][2]
Como prescrever?
Amiodarona (Ancoron®) solução injetável 150mg/3 mL
Ataque: diluir 1 ampola (150 mg) em 100 mL de SG5% e infundir IV em 10 minutos. [1][2]
Manutenção: 1 mg/min nas primeiras 6h (ACLS 2025). Outras fontes recomendam que, após as primeiras 6h, mantenha em 0,5 mg/min nas 18h seguintes.
Na prática: diluir 6 ampolas (900 mg) em 232 mL de SG5% (total ~250 mL) e infundir IV a 16,6 mL/h nas primeiras 6h (1 mg/min); após, reduzir para 8,3 mL/h nas 18h seguintes (0,5 mg/min). [1][2]
Procainamida
Considerações:
Opção endossada pelas diretrizes (2b); disponibilidade limitada no Brasil. [1]
Evitar se QT prolongado ou insuficiência cardíaca. [1]
Infundir no máximo a 50 mg/min (risco de hipotensão). [1]
Como prescrever?
Procainamida solução injetável 1g/2mL
20 a 50 mg/min IV até: supressão da arritmia, hipotensão, alargamento do QRS > 50% do basal, ou dose máxima de 17 mg/kg. [1]
Manutenção: 1 a 4 mg/min. [1]
Sotalol
Alternativa endossada pelas diretrizes (2b), sem as preocupações de hipotensão da amiodarona e da procainamida. [1]
O ACLS 2025 menciona e recomenda o sotalol IV como opção, mas não especifica dose nem modo de administração. [1]
Disponibilidade limitada no Brasil (apresentação injetável de disponibilidade irregular).
Adenosina [1][2]
Considerações:
Pode ser considerada em taquicardia de complexo largo regular e monomórfica, com finalidade terapêutica ou para auxílio diagnóstico, quando a causa do ritmo não puder ser determinada. [1]
Não deve ser administrada em taquicardia de complexo largo instável, irregularmente irregular ou polimórfica (risco de deterioração hemodinâmica, FV e parada cardíaca). [1]
Reduzir a dose (1 mg IV pode ser suficiente) em pacientes com acesso venoso central ou pós-transplante cardíaco. [1]
Menos eficaz quando infundida em veia periférica distante da circulação central. [1]
Contraindicada na asma (risco de broncoespasmo grave). [1][2]
Como prescrever?
Adenosina solução injetável 6mg/2 mL
1ª dose: 1 ampola (6 mg) IV em bolus rápido + flush de 20 mL de SF0,9% + elevar o membro. [1][2]
2ª dose: 2 ampolas (12 mg) IV em bolus rápido + flush de 20 mL de SF0,9% + elevar o membro, se a 1ª dose não reverter em 1 a 2 min. [1][2]
Se refratário:
Cardioversão elétrica sincronizada (larga regular / TV monomórfica: 100 J, bifásico; TV polimórfica: choque não sincronizado de alta energia) e solicitar avaliação do cardiologista. [1]
❌ Não administrar em taquicardia de complexo largo: [1]
Verapamil e diltiazem (contraindicados; podem causar hipotensão profunda, choque e parada cardíaca em taquicardia de origem ventricular).
QRS estreito + RR regular (taquicardia de complexo estreito regular)
Manobras vagais [1]
Recomendadas como primeira medida na taquicardia de complexo estreito regular; convertem 20 a 30% dos casos, chegando a até 50% com técnicas modificadas. [1]
Valsalva modificado (vídeo): paciente sentado sopra a ponta de uma seringa (tentando empurrar o êmbolo); em seguida, colocá-lo em decúbito com elevação passiva dos membros inferiores. [1]
Massagem do seio carotídeo: auscultar previamente para excluir sopro; cautela, pois a técnica pode precipitar AVC em pacientes com aterosclerose carotídea. [1]
Adenosina
Considerações:
Reduzir a dose (1 mg IV pode ser suficiente) em pacientes com acesso venoso central ou pós-transplante cardíaco. [1]
Menos eficaz quando infundida em veia periférica distante da circulação central. [1]
Contraindicada na asma (risco de broncoespasmo grave). [1][2]
Avisar previamente o paciente sobre o provável efeito/sensação incômoda da adenosina. [1]
Como prescrever?
Adenosina solução injetável 6mg/2mL
1ª dose: 1 ampola (6 mg) IV em bolus rápido + flush de 20 mL de SF0,9% + elevar o membro. [1][2]
2ª dose: 2 ampolas (12 mg) IV em bolus rápido + flush de 20 mL de SF0,9% + elevar o membro, se a 1ª dose não reverter em 1 a 2 min. [1][2]
Se refratário (após manobras vagais e adenosina), pode-se usar bloqueadores do nó AV. [1]
Diltiazem
Considerações:
Evitar em suspeita de disfunção sistólica de ventrículo esquerdo. [1]
Como prescrever?
Diltiazem solução injetável 25 mg/5 mL ou 50 mg/10 mL [1][2]
0,25 mg/kg IV em bolus, em 2 min (ex. 70 kg: ~3,5 mL / 17,5 mg). [1][2]
Manutenção, se necessário: infusão de 5 a 10 mg/h. [1]
Verapamil
Considerações:
Evitar em suspeita de disfunção sistólica de ventrículo esquerdo. [1]
Como prescrever?
Verapamil (Dilacoron®) solução injetável 5 mg/2 mL [1][2]
0,075 a 0,15 mg/kg IV em bolus, em 2 min (ex. 70 kg: ~2 a 4 mL / 5 a 10 mg). [1][2]
Se ausência de resposta após 30 min: repetir a dose (0,075 a 0,15 mg/kg). [1]
Seguir, se necessário, com infusão de 0,005 mg/kg/min. [1]
Tartarato de metoprolol
Como prescrever?
Tartarato de metoprolol (Seloken®) solução injetável 5 mg/5mL
2,5 a 5 mg IV em ~2 min, podendo repetir a cada ~5 min, até 3 doses (máx. 15 mg). [1][2]
Se refratário às medidas acima, ou instabilização:
Cardioversão elétrica sincronizada. [1]
QRS estreito + RR irregular
Consultar manejo específico em Fibrilação Atrial e Flutter
Taquicardia ventricular polimórfica
Considerações:
Todas as formas de TV polimórfica são consideradas hemodinâmica e eletricamente instáveis. [1]
Ela não pode ser sincronizada de forma confiável, pela variação da morfologia do QRS batimento a batimento; por isso, requer choque não sincronizado de alta energia (desfibrilação). [1]
O aspecto mais crítico para o manejo não é a morfologia, mas o intervalo QT subjacente (prolongado versus normal). [1]
Conduta inicial na TV polimórfica sustentada:
Choque não sincronizado imediato (desfibrilação)
Energia máxima do fabricante. [1]
Conduta na TV polimórfica associada a QT longo (torsades de pointes) [1]
Sulfato de magnésio
Considerações:
Pode ser considerado para tratar recorrências de torsades. [1]
A apresentação a 50% deve ser sempre diluída antes da administração IV. [2]
Corrigir distúrbios eletrolíticos, particularmente hipocalemia. [1]
Como prescrever?
Sulfato de magnésio solução injetável 1g/10mL (10%) ou 5g/10mL (50%)
1 a 2 g IV, diluídos (ex.: em 10 mL de SG5%), em bolus lento; pode ser repetido conforme a resposta clínica. [2]
Cuidado:
Betabloqueadores administrados de forma aguda podem precipitar torsades por causar/agravar bradicardia; em torsades bradicardia-dependente ou pausa-dependente, buscar avaliação especializada para medidas como marca-passo de overdrive ou isoproterenol. [1]
Magnésio não é recomendado de rotina para TV polimórfica com QT normal. [1]
Conduta na TV polimórfica sem QT longo (QT normal):
Considerações:
Ocorre geralmente por isquemia miocárdica aguda.
Podem ser considerados lidocaína IV, amiodarona IV e medidas para tratar a isquemia miocárdica. [1]
Lidocaína
Como prescrever?
Lidocaína (Xylestesin® sem vasoconstritor) solução injetável 2% (400 mg/20mL)
1 a 1,5 mg/kg IV (ex. 70 kg: 70 a 105 mg, ou seja, ~3,5 a 5 mL da solução 2%). [1][2]
2ª dose, se necessário: 0,5 a 0,75 mg/kg IV. [1]
Amiodarona
Considerações:
Diluir exclusivamente em SG5%; preferir acesso venoso central pelo risco de flebite; usar sistema livre de PVC. [2]
O ACLS 2025 especifica apenas a manutenção de 1 mg/min nas primeiras 6h; a redução para 0,5 mg/min por mais 18h segue o esquema da bula. [1][2]
Como prescrever?
Amiodarona (Ancoron®) solução injetável 150 mg/3mL
Ataque: diluir 1 ampola (150 mg) em 100 mL de SG5% e infundir IV em 10 minutos. [1][2]
Manutenção: diluir 6 ampolas (900 mg) em 232 mL de SG5% (total ~250 mL) e infundir IV a 16,6 mL/h nas primeiras 6h (1 mg/min); após, reduzir para 8,3 mL/h nas 18h seguintes (0,5 mg/min). [1][2]
Tratar a isquemia miocárdica (ex.: betabloqueadores ou intervenção coronariana emergente, a depender do contexto). [1]
Analgesia e sedação para cardioversão
Considerações:
Analgésicos e sedativos intravenosos devem ser administrados com cautela, avaliando a pressão arterial. [3]
O uso desses agentes deve considerar os riscos de piora hemodinâmica; a associação de fentanil ao midazolam aumenta os eventos respiratórios adversos. [3]
Manter disponíveis os antídotos: naloxona (0,4 a 1 mg IV/IM) para opioides e flumazenil (8 a 15 mcg/kg) para benzodiazepínicos. [3]
A cardioversão não deve ser adiada desnecessariamente se a capacidade de administrar a sedoanalgesia não estiver prontamente disponível. [1]
Esquema: Fentanil + (Etomidato ou Midazolam). Sedar sempre que viável, sem atrasar a cardioversão. [1]
Fentanil [2][3]
Como prescrever?
Fentanil solução injetável 50 mcg/mL, ampola 10 mL (500 mcg/ampola)
1,0 a 5,0 mcg/kg IV lento;
Na prática (~1,5 mcg/kg):
50 kg ≈ 1,5 mL
70 kg ≈ 2,1 mL
100 kg ≈ 3 mL
Midazolam [2][3]
Considerações:
Opção de sedativo se o paciente não estiver hipotenso.
Como prescrever?
Midazolam (Dormonid®) solução injetável 5 mg/mL, ampola 10 mL (50 mg/ampola)
0,1 a 0,3 mg/kg IV, em doses fracionadas de 1 a 2 mg até o nível de sedação desejado;
Na prática (0,1 a 0,2 mg/kg):
50 kg ≈ 1 a 2 mL
70 kg ≈ 1,4 a 2,8 mL
100 kg ≈ 2 a 4 mL
Etomidato
Considerações:
Opção de sedativo preferível se o paciente estiver hipotenso (estabilidade hemodinâmica favorável), com cautela em hipovolêmicos. [3]
Como prescrever?
Etomidato solução injetável 2 mg/mL, ampola 10 mL (20 mg/ampola) [2][3]
0,1 a 0,5 mg/kg IV até sedação adequada;
Na prática (0,1 a 0,2 mg/kg):
50 kg ≈ 2,5 a 5 mL
70 kg ≈ 3,5 a 7 mL
100 kg ≈ 5 a 10 mL
Referências
[1] WIGGINTON, J. G.; AGARWAL, S.; BARTOS, J. A. et al. Part 9: Adult Advanced Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation, v. 152, suppl. 2, p. S538-S577, 2025. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001376. Disponível em: https://www.ahajournals.org/journal/circ.
[2] Bulas dos medicamentos citados (apresentações e diluições): cloridrato de amiodarona (Ancoron® / Fresenius Kabi); adenosina (Fresenius Kabi/Hipolabor); cloridrato de diltiazem; cloridrato de verapamil (Dilacoron®); tartarato de metoprolol (Seloken®); cloridrato de lidocaína 2% sem vasoconstritor (Xylestesin®); sulfato de magnésio (Magnoston®); citrato de fentanila; midazolam (Dormonid®); etomidato (Hypnomidate®). Bulário Eletrônico da ANVISA. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/.
[3] RAFFAY, V.; FIŠER, Z.; SAMARA, E. et al. Challenges in procedural sedation and analgesia in the emergency department. Journal of Emergency and Critical Care Medicine, v. 4, p. 27, 2020. DOI: 10.21037/jeccm-19-212. Disponível em: https://jeccm.amegroups.org/article/view/6035.
Autoria e Curadoria
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